Locutores torcedores

Ele era locutor de um time só. Certo dia… Depois que Valido faz o gol que daria ao Flamengo o tricampeonato carioca em 1949, aos 41 do segundo tempo, Ary Barroso fica tocando sua gaitinha sem parar e quando o Vasco dá a saída ele não transmite mais nada: larga o microfone e vai para a beira do campo comemorar alucinado.

ARY BARROSO - 2 -

Seus colegas tiveram que correr para o microfone. À noite, como sempre, Ary participou do programa esportivo da Tupi, onde o grande debate girou em torno da legalidade ou não do gol rubro-negro. Os vascaínos alegavam que Valido teria se apoiado em Argemiro, half esquerdo do Vasco. Os rubro-negros diziam que Valido tinha pulado muito mais alto e pronto.

Quando perguntado, Ary não se fez de rogado, mas surpreendeu a todos com a sua resposta: “É verdade. Valido se apoiou no ombro de Argemiro. Melhor do que isso será a decisão do ano que vem: o Flamengo vai ganhar com um gol marcado com a mão, cinco minutos depois do tempo regulamentar, com seu autor em impedimento.” (Ary Barroso foi também vereador e compositor de Aquarela do Brasil. Encerrou sua carreira como narrador esportivo após a derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950).

A paixão de Ary pelo Flamengo era tanta que ele recusou um convite para ser o diretor musical da Walt Disney Productions. Diante da surpresa de Walt Disney, que lhe pergunta por que não aceitou, Ary teria dito: “– Because ‘don’t have’ Flamengo here.” (Porque não tem Flamengo aqui). Isso foi no início das transmissões esportivas no rádio brasileiro.

E hoje?

Já escrevi em outra ocasião que narradores, comentaristas, repórteres e plantões esportivos, todos nós que estivemos ou estamos nessa área do jornalismo esportivo temos os nossos clubes preferidos, a maioria desde a infância. Nos bons tempos do rádio esportivo brasileiro se sabia quem torcia por quem, mas isso não era repassado ao ouvinte como acontece agora. Claro que quando a Seleção Brasileira estava em campo sempre se dava mais ênfase ao nosso futebol.

Mas de uns tempos a essa parte tenho observado que está faltando seriedade e profissionalismo no comportamento de muitos locutores esportivos. Até dá pra entender que as emissoras de cidades do interior tenham seus locutores torcendo pelos times locais na hora da transmissão mesmo porque não tem muitas opções. O triste é ver hoje locutores a frente de microfones famosos de emissoras das grandes capitais querendo “marcar o gol” de qualquer maneira para o time local.

Se o rádio já passa por sérios problemas de publicidade, esse tipo de comportamento torna a situação ainda mais caótica. Que me perdoem, mas não se pode vestir a camisa dos times da forma exagerada como está acontecendo. Os locutores viraram torcedores com o microfone. Também tenho os times da minha preferência, mas nunca usei desse expediente tanto que até hoje tem gente que tem dúvidas a respeito de quem eu torço em São Paulo e em Curitiba.

Locutores, comentarista e repórteres precisam se conscientizar que esse comportamento depõe contra a tão sofrida e combalida classe. Acordem e sejam profissionais. Lugar de torcedor é na arquibancada e não com o microfone na mão. É isso aí.

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