Luiz Carlos Paraná: o regente do Jogral

Por Thiago Sogayar Bechara

 Um chamado ronda minha cabeça! Desde que me entendo, este grito interno pede o registro dos fatos belos que meu coração percebe pelo mundo e documentar implica dominar as técnicas narrativas, em quaisquer das linguagens em que um trabalho possa ser realizado. Minha paixão se consagrou em forma de palavras escritas e, nelas, reúno meus amores de juventude. Sou um velho de 23 anos e para mim as coisas belas estão no que perdura. Eu quero perdurar como agente da conservação. Não da conservação política, filosófica, retrógrada ou antiprogressista – mas da memória cultural que, devidamente mantida, não só se adapta às novas realidades a que vai, com tempo, sendo submetida, mas que também ajuda a recriar o passado numa perspectiva fundamental do que será construído no futuro.

O tempo é insólito, intangível; e, no entanto, o que de melhor se pode passar a nós. Ele amadurece, consolida, efetiva, e carrega consigo – tanto quanto abandona pelo caminho. Minha iniciativa em visitar a trajetória trilhada por um artista popular brasileiro, nascido no interior do Paraná, no início da terceira década do século XX, tem muito a ver com meu desejo de documentar; mas igualmente traz à tona uma história que é o exemplo onírico de todos nós. A do talento sobrepondo-se a obstáculos. E a da morte levando – tudo? – consigo.
 
Luiz Carlos Paraná é o autor de clássicos do cancioneiro regional como a “Flor do cafezal” interpretada por Cascatinha e Inhana. Mas antes, foi filho de Braz Carlos e Ida Fonteque, em propriedades rurais onde sonhar com estúdios e palcos era forçadamente substituído muitas vezes pela mão na enxada a capinar. Ribeirão Claro foi seu ponto de partida na vida. E também o meu, quando iniciei as pesquisas para recontar a história deste homem, deste município, dessas canções, desse tempo em que a noite paulistana, décadas depois, constituiria capítulo fundamental da história do nosso cancioneiro – e como tudo o que é legitimamente popular, está fadado a se perder, levando consigo os principais ingredientes para a concepção da identidade de todo um povo, enquanto nação. Daí minha urgência. E com isso tenho trabalhado de diversas maneiras ao longo desse meu início de caminhada.

Parti de uma metodologia ancorada basicamente pela pesquisa bibliográfica em livros, jornais e revistas da época; e, claro, pelos mais de duzentos depoimentos que até agora contabilizo em minha lista de agradecimentos. Foram amigos, parentes, professores, artistas – midiáticos ou não – garçons, porteiros, namoradas (para não falar na vasta documentação que venho angariando nesses três anos de investigação). O resulto tem revelado mais do que a personalidade carismática e criativa do muitas vezes taciturno Carlos Paraná, mas trazido à tona histórias hilárias, belas, tristes, emocionantes e reveladoras da verdadeira cor de que era tingido o universo em que Luiz viveu. São depoimentos que se entrecruzam, se endossam, se contradizem, se complementam e fazem vislumbrar a pulsação quase real da vida que, em verdade, jamais assumiu o papel de ser coerente. Luiz é o reflexo de seu tempo. Um homem em ebulição; um artista inquieto, insatisfeito e desejoso de reinventar-se; um paisano em tempos ditatoriais; repleto de paradoxos cuja função era não permitir que ele se esquecesse humano, como muitas vezes tantos de nós fazemos.

Este livro tem sido escrito com a mesma busca. E com a mesma simplicidade. E antes mesmo de ser publicado, já deixa rastros de carinho e envolvimento na memória dos que dele participaram; já deixa sua marca por alguns meios de comunicação como este, que carinhosamente abrem espaço para a divulgação da memória de Luiz Carlos Paraná, sua vida, sua obra e seu tempo. É com honra que agradeço a oportunidade de expor minhas ideias, meu modo pessoal de refletir sobre esses temas, e poder divulgar minha forma de propor uma alteração – senão de âmbito geral, que sabemos vasto e permeado por interesses que vão muito além da boa vontade -, ao menos um pequeno degrau que, verdadeiramente galgado, representa concretamente um avanço de inestimável valor para a cultura do nosso país.
 
Agradecimentos especiais: Antunes Severo, Ubiratan Lustosa, Leo Vaz, Roberta Vaz, Sandra Borghi, Inezita Barroso, Paulo Vanzolini, Pena Branca (in memoriam), Airton Fonteque, Mario Edson, Elza Soares, José Domingos, Ivone de Lorena Néia, José Domingos, Julio Medaglia, Paulina Marques Cassetari, Ana Maria Brandão, José Carlos, Chico Carlos, Lázaro Carlos e Amélia Carlos, Maria Helena Botelho, Jaime Jorge Bechara, Giselle Sogayar Bechara.
 
Thiago Sogayar Bechara, paulistano de 1987, é autor dos livros de poesia Impressões (Independente, 2002) e Encenações (Editora Zouk, 2004), com prefácio de Heródoto Barbeiro. Formou-se em Jornalismo pelo Mackenzie e é pós-graduado em Jornalismo Cultural pela FAAP. Desde 2005, colabora com o portal do Jornal Jovem e em 2010 e 2011 lançará pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, as biografias de artistas como a cantora Cida Moreira e a atriz Imara Reis.

Contato: http://thibalaio.wordpress.com/ | [email protected]

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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5 respostas
  1. Sandra says:

    As obras de Thiago são fundamentais para a preservação da memória cultural deste país. Paraná tem um espaço reservado nesta história cujo registro é brilhantemente solidificado por Thiago. Saibamos reconhecer talentos, saibamos passar às gerações a história cultural deste país, saibamos que sem memória um país não tem valores e sem valores nada se solidifica. Parabéns Thiago! Seu trabalho é primoroso.

  2. Rangel Alves da Costa says:

    O artigo O LIRISMO NA FLOR DO CAFEZAL de Rangel Alves da Costa postado aqui foi encamainhado para a página principal do site pela relevancia do trabalho e por extrapolar o limite dos Coments previsto nas condições de uso do site Caros Ouvintes. Gratos pela compreensão.

  3. Amaury Antunes says:

    É muito gratificante para mim, creio que também para muitos outros Ribeirão Clarenses, apaixonados ou não pela obra de Carlos Paraná, ver perpetuada e tão bem registrada de forma ímpar, a poesia em forma de canções de nosso artista maior.
    É brilhante o poeta e jornalista Thiago Sogayar Bechara, (Paulistano/Ribeirão Clarense), renascer o poeta Carlos Paraná (Ribeirão Clarense/Paulistano). O tempo não para, mas tem tudo a ver.

  4. MOACIR FONTEQUE says:

    Ficamos muito felizes quando ao fazer uma pesquisa, minha filha encontrou sua pesquisa sobre Carlos Paraná que é primo de meus pais. Carlos Paraná foi muito querido por nós e lamentamos muito sua morte prematura, não só pelo artista talentoso que era, mas pelo ser sensível e humano que era. Sua pesquisa ameniza um pouco a saudade que deixou. O que nos impressionou foi o fato de você, quase um menino, com tanto talento e preocupado em manter viva a memória dos que realmente fizeram história pelo bem que promoveram. Em nome da família Fonteque de Apucarana nosso maior carinho e agradecimento.

  5. Thiago Bechara says:

    como agradecer ao carinho de todos voces??? Me emociono sinceramente e penso que estou fazendo a minha parte, o mínimo que eu posso fazer, amando a arte, e a minha terra como amo… por favor, deixem seus e-mails pra que eu possa responder pontualmente, a cada um… obrigadíssimo, Thiago

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