Lupicínio Rodrigues ganha sua mais completa biografia

A cadeira nunca está vazia quando se pensa em Lupicínio Rodrigues (1914–1974) como o maior compositor popular surgido no Rio Grande do Sul.

Lupicínio-Rodrigues

Depois dele, jamais apareceu outro autor musical com tamanha repercussão no mesmo Estado que deu à luz talentos como Octávio Dutra, Radamés Gnattali, Teixeirinha e Elis Regina, cada qual em sua mesa. Doce e amargo, suave e intenso, simples e sofisticado, direto ou metafórico, o mestre da dor-de-cotovelo soube converter pequenos e grandes dramas – próprios ou de seus camaradinhas – em canções que ficaram tatuadas no imaginário coletivo, muito além das fronteiras gaúchas.

Mas esse mesmo assento, embora confortável, pode ser pequeno para abrigar os vários Lupicínios que conviveram com o criador de clássicos como Se Acaso Você Chegasse, Felicidade, Esses Moços e Nervos de Aço. Testemunha e protagonista de uma Porto Alegre hoje aposentada pelo tempo, o ilustre filho da Ilhota foi também filho, pai, avô, irmão, marido, soldado, carnavalesco, funcionário público, cantor, militante do Direito Autoral, torcedor do Grêmio, cronista de jornal, empresário e candidato a vereador, não raro desempenhando vários desses papéis ao mesmo tempo.

Produzido em meio às comemorações do Centenário de Lupicínio Rodrigues pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, Almanaque do Lupi (Editora da Cidade/SMC, 100 páginas) pode não ser completo ou definitivo. Nada o impede, porém, de reservar lugar no palco (com direito a uma espiada no camarim) de livros e trabalhos acadêmicos já apresentados com esse repertório e quase sempre sujeitos à embriaguez pelo coquetel de realidade e fantasia: passados quarenta anos desde a despedida do compositor que ajudou a inserir a Região Sul no mapa musical brasileiro, a toalha da mesa onde se abancam o homem e o artista segue desbotada e encardida pelo excesso de zelo ou pela carência de fontes primárias e outros registros confiáveis.

O jornalista e pesquisador Marcello Campos se debruçou sobre o assunto por quase uma década, (já biografou Johnson e Alcides Gonçalves, figuras essenciais na trajetória do homem e do artista Lupicínio) e o resultado é um painel dinâmico, multifacetado, capaz de surpreender até os fãs mais ardorosos. Em uma centena de páginas ilustradas – destaque para o projeto gráfico de Rosana Pozzobon –, estão dados precisos sobre cronologia, cancioneiro, discografia, realizações, atividades paralelas e curiosidades que alimentam uma certeza: em se tratando de Lupicínio, não há traição pior que a da memória.

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