Macaxeira e carne de sol – Final

Fosse eu “estribado” (1), iria para Fortaleza todo mês: ficava uma semana e voltava (Se voltasse!). Quando a gente volta, volta “fumando uma quenga” (2), porque não encontraria no Sul, nada daquilo que se vê no Ceará.

Iracema. FortalezaLogo ao chegar na capital cearense começava a Mostra Brasileira – Teatro Transcendental – nos “Espetáculos de Corpo e Alma”, com resultados financeiros para a Associação Viva a Vida, Associação dos Voluntários do Hospital São José, Colônia Antônio Diogo, Gepol, Lar Toda de Assis e Oficina do Senhor. O interesse é tanto pelas coisas da arte que contei os patrocínios – trinta e três, além do Theatro José de Alencar, local da promoção.

Durante cinco dias, com dois espetáculos diários, os amantes da arte cênica viveriam o “Verdadeiro Espetáculo da Vida”, com as peças Clarice, Além da Vida, O Semeador de Estrelas, Pingo de Mel, Vidas Passadas e o Cavaleiro de Assis, a história de São Francisco de Assis.

Espetáculos com debates sobre o aborto, a realidade de uma vida após a morte – assistida em dez anos por mais de um milhão e meio de espectadores – idealizada por Augusto Cezar Vanucci, ex-diretor da Globo, com participação especial de Lúcio Mauro, o ator global, com histórias de Divaldo Franco, o maior paranormal da atualidade, e peça sobre as fronteiras do cristianismo, com grupo do Rio de Janeiro.

Além do ingresso, o espectador levou um quilo de alimento, somando centenas e centenas de quilos. Concomitantemente, em toda a Fortaleza os espetáculos, os shows – principalmente de humor – continuavam a oferecer entretenimento às centenas de turistas, vindos principalmente do outro lado do Oceano, pela proximidade e preços acessíveis da locomoção e os pacotes turísticos organizados.

É tanta gente que vem da Europa, principalmente da Itália e, também da África, notadamente de Cabo Verde, buscar produtos para revenda em seu país. Lembrei-me de um fato que me parece interessante a conotação: há pouco mais de quinhentos anos, os africanos vinham acorrentados para o Brasil e, hoje, eu vi, voltam também com correntes nos pulsos e pescoço, mas correntes afetivas e de ouro e prata, além de reluzentes relógios e pulseiras que não machucam como antes machucavam, carregando telas magníficas, pintadas por não menos magníficos artistas locais, levando sua imagem fielmente desenhada pelo Jean no Marcado Central, levando artesanato da mais alta qualidade, comprados nos próprios hotéis quatro e cinco estrelas, como Brasil Tropical Residence. Palidamente pincelamos o lado cultural, sem adentrarmos naquela parte gostosa que é falar da “terra da luz” que são as praias do Ceará.

Eu não quero “bater fofo” (3), portanto, vamos voltar ao Robert, o Emanoel.

Toda cidade tem aquele porteiro de hotel ou taxista que tudo sabe, que conta tudo, verdadeiro cicerone. Pois o Robert é um taxista-cicerone-historiador-bompapo-contadordepiadas, como todo cearense e não é “bunequeiro” (4), que conhece desde o “canelau” (5) até os Jeressaitis da vida.

Por falar em gente pobre e gente muito rica, o Emanoel estava dizendo que o Jeressaiti era dono da segunda maior rede de TV, do segundo Jornal do Estado, do segundo não sei mais o quê e segundo do mais isso e mais aquilo, inclusive da Coca-Cola no Estado, do Shopping Iguatemi em todo o País. Lá pelas quantas o Robert pergunta:

– E vocês sabem quem é dono dos “primeiros” em cada segmento? Como não podíamos saber, ele mesmo responde:

– Da mulher do Jereissati e o que sobrou, da sogra.

Nada mais disse, porque nada mais lhe foi perguntado a respeito de quem era dono do quê. Já sabíamos a resposta por antecipação.

Não falei, ainda, do Lampião – que foi morto “em litígio com a lei”, por contrabandear – parece! – girimum e macaxeira, misturados em manta de carne de sol!

Qualquer dia a gente fala sobre os italianos que andam com as “catirobas” (6) a tira-colo sem a menor cerimônia. Afinal, ninguém os conhece por estas bandas…!

E as falésias…? E os artistas que desenham com areia dentro das garrafinhas…? E as praias…?

Não vou contar.

Vá até lá, ora!

(01) Estribado – cheio de grana. (02) Fumando uma quenga – puto da vida. (03)  Bater fofo – não cumprir um compromisso. (04) Bunequeiro – quem bota boneco, quem gosta de ficar fazendo hora com os outros. (05) Canelau – gente pobre, gente rude. (06) Catiroba – mulherzinha da vida, plebe.

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