Maria Odete Olsen, vocação, talento e determinação

 

Maria Odete. Foto: Fátima Damaceno

Maria Odete Olsen, apresentadora do programa Educação e Cidadania, na Record News Santa Catarina nunca sonhou ser apresentadora, mas quando decorou um texto e olhou para a câmera “mandou ver”.

Maria Odete Olsen tem 59 anos e sua carreira contempla grande experiência. Foram 17 anos na RBS TV, 10 anos TVBV e 4 anos Record News. Graduada em Ciências Sociais UFSC, Maria Odete é ainda autora de dois livros de poesia “Sem Rimas e Sem Razão” e “Poemas Infames – Sentimentos e algumas impropriedades” (premiado pela FCC em 2002).

Com esse currículo e a visibilidade que tem para Santa Catarina, a apresentadora é a segunda entrevistada da Making Of para a série especial de entrevistas da semana da mulher.

Making Of: As mulheres ocupam posições chave, da propaganda à Presidência do País. Isso significa que o preconceito foi vencido definitivamente?

Maria Odete: Falar do preconceito em relação à mulher é sempre uma coisa difícil. Já avançamos muito, óbvio, afinal como você bem cita na pergunta, nosso país é governado por uma mulher a presidente Dilma Rousseff. Mas ele ainda existe, sem dúvida alguma. É uma coisa sutil que perpassa o comportamento social, as regras do convívio em sociedade principalmente. A mulher ainda é observada o tempo inteiro por suas atitudes, como se expõe. Se está só ou acompanhada, os olhares a marcam, a estigmatizam.

Making Of:  O que falta conquistar?

Maria Odete: Falta conquistar a segurança de passar por cima de tudo isso e seguir em frente. Fazemos isso o tempo todo e quase sempre não se olha para trás, mas as vezes dói saber que estamos vivendo, trabalhando nos limiares de um novo século e convivendo com tanta ignorância e impunidade. E não precisa ser socióloga para sentir a discriminação. Dia desses estava lendo um Blog de Esportes, do Bruno Voloch, falando da demissão da jogadora Jaline Prado de Oliveira, que atua no vôlei da Itália desde 2006, na região da Calábria e que está acusando o Soverato de preconceito e maus tratos e não mede as palavras quando diz: “me trataram feito cachorro”. E está processando o Clube. Imagina, isso acontecendo lá na Itália que a gente considera “primeiro mundo”. Eu tenho narrativas de mulheres sendo maltratadas no meu dia a dia. Mulheres que apanham, que gritam e choram e de vizinhos que tem medo de fazer denúncias. Aqui na Ilha da Magia. O que falta conquistar? Solidariedade humana, respeito, vergonha na cara, amizade, justiça, amor, reciprocidade, carinho…essas coisas bonitas que homens e mulheres sentem e um dia se disseram ou se dizem quando se conhecem…

Making Of:  Já existe equiparação de remuneração entre homens e mulheres?

Maria Odete: Pela Revista Exame, nós continuamos atrasadas 10 anos em relação aos homens: “No final de 2013, a massa de renda das mulheres no Brasil deve atingir 1 trilhão de reais – o equivalente a massa de renda dos homens em 2003, segundo estudo realizado pelo Data Popular. A previsão é que a renda masculina seja de 1,6 trilhões de reais em 2013”. Pela mesma revista, o salário mensal de um homem que ocupa o cargo de presidente de empresa é de cerca de R$ 64,7 mil. Para exercer a mesma função, uma mulher ganha R$ 45,6 mil.

Trabalhei a vida inteira exercendo múltiplas funções no jornalismo para compensar os baixos salários pagos em Santa Catarina. Mudei a minha realidade quando agreguei outras atividades através do funcionalismo público e mais tarde quando criei a minha empresa e virei parceira das emissoras de TV. É preciso evoluir para melhorar a remuneração.

Making Of:  Aumentou consideravelmente a presença feminina nas Faculdades de Jornalismo e consequentemente no mercado de trabalho. Por que?

Maria Odete: Num primeiro momento o jornalismo evoca um certo glamour pela extrema visibilidade que por exemplo empregos nos vídeos das televisões te dão. Mas, acredito que muitas dessas jovens, logo descobrem a ilusão do ofício e somente aquelas que realmente são abnegadas, determinadas e tem a vocação, é que permanecem na profissão. Porque permanecer nessa profissão em Santa Catarina ainda requer muito desses sentimentos.

Making Of:  Você se inspirou em alguma mulher de sucesso no início de carreira?

Maria Odete: Para ser bem sincera, na minha juventude eu tinha uma grande admiração por uma escritora e jornalista italiana, Oriana Fallaci, cujas reportagens lia na Revista Cláudia e que acabou se tornando uma das principais críticas ao Islã na Itália. Mas descobri isso recentemente. Eu fui uma jovem que leu muito os clássicos da literatura. As mulheres que me inspiraram foram escritoras, militantes, poetisas, loucas como Simone de Beauvoir, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Rose Marie Muraro, Betty Friedan, Isabel Allende,  Hannah Arend e mais umas trocentas… eu caí no jornalismo pelo rádio (Rádio Blumenau), porque era uma garota bonitinha e comunicativa e que a ex – TV Coligadas descobriu através do DCE da FURB. Eu tinha 19 anos e fazia Ciência Biológicas, e ainda tinha um semestre para completar o curso. É uma daquelas “conjurações dos astros”. Nunca sonhei fazer televisão nem em ser apresentadora. Mas no dia em que casualmente fiz um teste, junto com outras tantas meninas da universidade, em que decorei um texto, olhei para a câmera e mandei ver…descobri meu aquário. Era aquilo que eu ia fazer.

Making Of:  A sensibilidade feminina ajuda nos negócios? De que forma?

Maria Odete: Não sei se é a “sensibilidade feminina”. Entrei para o mundo dos negócios quando criei uma empresa para dar sustentação ao meu programa Educação e Cidadania que existe há 14 anos nos vídeos de Santa Catarina. 10 anos na TVBV (BAND) e agora no dia 3 de maio vai completar 4 anos na Record News. São 14 anos de muita luta, muita luta para manter este projeto nos vídeos, acreditem. Sou abençoada (essa é a palavra) por ter patrocinadores (Senac, Eletrosul, Oppitz Soluções Tecnológicas e Colégio Cruz e Souza) que acreditam nessa proposta e no meu trabalho e no das equipes que as emissoras de TV me cedem. Trabalhamos com muita seriedade numa temática dificílima e é assim que o processo vai se acontecendo. Daí você perguntas se existe sensibilidade. Creio que existe um feeling para você saber lidar com os altos e baixos do mundo dos negócios. O avançar e ceder que não é fácil, a questão do atendimento, o pós-venda. Eu tenho que estar atenta a tudo e ainda preservar o jornalismo que faço e está na minha alma. Faço tudo isso com a maior honestidade. Acredite.

Making Of:  Que recado você deixa para as mulheres que estão começando a carreia?

Maria Odete: Uma carreira profissional não é coisa para amador. Eu, Maria Odete Olsen, com mais de 50 anos de idade, as vezes penso: como cheguei até aqui, como ainda estou nos vídeos de uma emissora de TV, como ainda ocupo um lugar nos vídeos da Record News? Talvez porque no meu dia a dia eu nunca faça estas perguntas. Eu nunca fico me preocupando com a minha idade e nem com estas questões. Sempre estou muito focada nas metas dos meus projetos, nos conteúdos das minhas entrevistas e no que eu ainda posso agregar a minha vida. Não tenho vergonha em dizer que fui uma dessas profissionais que foi moldada ao longo de sua trajetória de profissional. Mas eu tive também uma vida pessoal e dois filhos maravilhosos, Charlie Andersom (empresário Delinea) e Michelle Christie (analista MPSC) que foram criados nesse tumulto e se transformaram em pessoas dignas e profissionais competentes. Se você está iniciando uma carreira, delimite seu foco de atuação, estude, agregue valores, recursos e parcerias. Hoje é fundamental. Ninguém faz nada na solidão.

Semana Internacional da Mulher | Depoimentos | 06/03/2013

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *