Manoel Carlos confessa não conseguir abandonar a teledramaturgia

Em seu apartamento, no Leblon eleito de sempre, entre café, água, suítes sinfônicas no rádio, o correr dos filhos, uma ou outra subida de escada, uma volta pelo bairro, com estratégica parada na Livraria Argumento, Manoel Carlos dorme pouco. Por Mario Marques

Aos 76 anos e desde 1978 entregando a diretores de toda estirpe traduções exatas e emocionantes de nossa vida real, o novelista interrompe sua cinematográfica rotina de trabalho para falar ao Jornal do Brasil.

Com tantos sucessos enfileirados na teledramaturgia nos últimos 30 anos, você nunca pensou em fazer uma imersão no cinema? Já houve algum projeto adormecido nesse corredor? Um texto guardado na gaveta…

– Fiz três roteiros para o cinema: Quarup, para o diretor Jorge Bodansky. O projeto atrasou e ele acabou perdendo o prazo de concessão dos direitos. Zuzu Angel, para o Waltinho Salles, que acabou desistindo de realizar o filme. E, finalmente, Madame Lynch, sobre a Guerra do Paraguai, para o produtor Luiz Carlos Barreto, que espera até hoje a adesão da França ao projeto. Mas, pelo que me falaram recentemente a Lucy e o Fábio Barreto, que será o diretor, Madame Lynch voltou a ser cogitado.

Quanto de cinema, aliás, há no imaginário de suas paisagens e personagens?

– O cinema tem muita importância para mim. E é natural e inevitável que o meu trabalho tenha reflexos dos filmes que vejo e que vi. Mas não saberia quantificar isso. Está lá, nas minhas novelas, a porção que ele me influencia e me inspira.

Há uma ligação forte de suas novelas com trilhas sofisticadas, que já foram embaladas por bossa nova e jazz. Qual será o pacote musical de Viver a vida, sua próxima novela das 9 da Globo?

– Ainda não fizemos a primeira reunião para selecionar a trilha sonora. Ficará para junho. Certamente, a bossa nova e o jazz estarão presentes, como nas outras. Entre os intérpretes, sempre tenho a Nana Caymmi, de quem sou devoto. A voz dela esteve em todas ou quase todas as minhas novelas e espero que esteja também em Viver a vida.

Por que agora uma Helena negra, vivida pela Taís Araújo, que vai ser a primeira protagonista negra no horário nobre de novelas da Globo?

– Sempre quis escrever para a Taís, que considero uma das nossas melhores e mais belas atrizes. E achei que seria desta vez, quando a Globo pediu que eu antecipasse a minha novela de 2010 para este ano. Mas aí soube que ela estava na França e que por lá ia ficar de seis meses a um ano. Diante disso, mudei meus planos e fiz uma nova sinopse. Mas ela soube desse meu interesse e me ligou de Paris, dizendo que voltaria ao Brasil se eu confirmasse a intenção de convidá-la para o papel. Não pensei duas vezes. Pedi para ela voltar. E estou muito feliz.

O título da novela seria uma citação explícita ao filme de Godard? Ou uma versão atualizada da minissérie que produziu na Manchete em 1984?

– Nem uma coisa e nem outra. Assisti e gosto muito do Vivre sa vie, do Godard, que conecta vários episódios, ligados por uma prostituta. E, no caso da minissérie que fiz na Manchete, era uma história inspirada livremente no filme Um lugar ao sol, do George Stevens, com a Liz Taylor e o Montgomery Clift. Só estou usando o mesmo nome porque pedi à TV Globo, há muito tempo, que o registrasse, pois queria usá-lo numa novela que tinha intenção de escrever um dia. Chegou a hora. É uma história original, até onde se pode ser original, sem parentesco com o filme do Godard e com a minissérie da Manchete.

Num mundo em que a TV divide a atenção com a internet e outros produtos de entretenimento gerados pela tecnologia e audiência de novelas e produtos de massa caem vertiginosamente, que modelo você prevê para a confecção das novelas num futuro breve?

– Não acho que as novelas estejam caindo vertiginosamente. Acontece que hoje, por conta das várias mídias que se processam e também pela concorrência que acordou e se mostra ativa e atuante, a audiência experimenta oscilações significativas. Mas é um erro estabelecer comparações de audiência entre os números de hoje e os que eram atingidos no passado, quando a televisão aberta era soberana e a Globo reinava de maneira absoluta. Obviamente, não podemos esperar os mesmos resultados. Sou de um tempo em que a audiência não era cativa de um único canal, mas dividia-se entre todos. Isso era salutar e altamente estimulante.

A quem o acusa de repetir tramas, fórmulas e situações, em busca da manutenção do sucesso, o que teria a dizer?

– Não sei se me acusam de repetições, mas é certo que elas ocorram. Não apenas para manter o sucesso, mas principalmente porque incorporo, no que escrevo, muito do que vejo e sinto na minha própria vida – e esse material é também repetitivo. Alguém já disse que contamos sempre a mesma história. Acredito que seja assim. A quem o acusava de repetições constantes, o crítico literário Agripino Grieco costumava dizer: “Mas não temos todos os dias o mesmo pôr-de-sol e a mesma aurora? E Deus, certamente, tem mais recursos do que eu!”

Há na Globo um rodízio de autores que não muda. É como uma panela de grandes talentos que dá poucas brechas para outros. Se você olhar à volta, quem poderia ser o novo Manoel Carlos?

– Não espero e nem desejo que apareçam clones meus, mas autores jovens muito melhores. Quanto ao rodízio num círculo fechado, posso garantir que isso não agrada aos autores. Tudo que queremos é que apareçam constantemente novos profissionais de dramaturgia para dividir a responsabilidade e a carga pesada do trabalho. Não tem sido fácil encontrá-los, mas de qualquer maneira muita gente nova tem aparecido: Beth Jhin, Andréa Maltarolli, João Emanuel Carneiro são três deles. Mas concordo que o investimento precisa ser maior e mais constante.

Quando você prevê cenas fora do Brasil, há pedidos específicos de locações? Você acompanha essa fase de pré-produção? No caso de Viver a vida, Petra (na Jordânia) e Antártida…

– Tenho total liberdade para escolher onde quero gravar e acompanho, na medida do possível, tudo que acontece com as minhas novelas. No caso de Petra, a ideia nasceu de uma conversa com o Jayme Monjardim. Falamos sobre um belo lugar no exterior onde poderíamos realizar um desfile de moda. Petra apareceu como a melhor das opções. Depois eu queria um país para uma lua-de-mel e Paris era uma opção óbvia, natural. E, por fim, Israel, já que eu precisava de um outro país para deslocar dois personagens, e a cidade de Jerusalém está muito próxima à Jordânia. Foram essas circunstâncias que determinaram a escolha. A Antártida foi pensada antes de nos fixarmos em Petra.

Diz-se que você vai pôr em debate na nova novela a ‘anorexia alcoólica’ (já abordou bulimia, racismo, Síndrome de Down, impotência sexual). Sob que preceitos você costuma abordar temas sociais e do cotidiano?

– Escolho livremente o que quero escrever. Colho informações nos jornais, nas revistas, na internet. Vejo e sinto que temas estão sendo mais sensíveis e que alertas me chamam mais a atenção. E incluo esses temas nas minhas novelas. A anorexia alcoólica, por exemplo, está sendo um flagelo entre os jovens, mulheres principalmente. Acho necessário mostrar isso para um grande número de pessoas, por isso incluí em Viver a vida.

No Leblon, como noutras vezes, alguns botecos e restaurantes vão fazer uma manifestação pedindo a você para olhar por eles. Essa interferência na vida de um bairro nobre como o da Zona Sul, onde você mora e costuma dizer que não sai por nada, é interpretada por você como um afago na sua própria esquina? Seria uma forma de pôr à luz os cheiros e climas do lugar dos quais você usufrui?

– Mais uma vez devo dizer que desconheço essas informações. Não sei dessas manifestações de botecos e restaurantes, nem me importo com elas, se existem. Nada é tão complicado quanto algumas pessoas pensam. Coloco meu núcleo principal no Leblon porque vivo aqui, só isso. Se me mudar para a Barra, será lá. Gosto de ver meus personagens transitando por onde transito. Me faz conhecê-los melhor, o que facilita o meu trabalho.

Que atores fazem, efetivamente, diferença numa novela?

– O sucesso e o insucesso de uma novela devem-se a muitos fatores, sendo a escalação do elenco um dos principais. Se essa escalação é feliz e correta, todos os atores brilham e fazem a diferença. Se não é, não existe Marlon Brando que dê jeito. O público sente a inadequação, ainda que não saiba explicitá-la. O ruído se faz notar e muitas vezes é ensurdecedor.

Você admite fazer concessões numa trama em nome de resultados de audiência? Sabe-se, obviamente, que o autor se guia pelas pesquisas. Você já fechou os olhos para os números e insistiu num caminho que logo depois provou-se errado?

– Eu, felizmente, ainda não vivi um episódio assim. Tenho feito minhas novelas com a preocupação de contar uma boa história que agrade ao público que me assiste. Nunca precisei mudar radicalmente o caminho escolhido, mas faço mudanças pontuais, quando sinto necessidade. Mudo alguns destinos. Desfaço um casamento previsto, dou a alguém uma doença não programada, crio uma morte ausente da sinopse. Novelas são projetos complexos e de longa duração. Precisam de reajustes no decorrer dos seus mais de 200 capítulos.

Qual o pior momento de um teledramaturgo em sua opinião?

– Falo por mim, pois não sei se isso ocorre com os demais. O meio de uma novela, lá pelo capítulo 100, me é particularmente aflitivo. É quando percebo que já caminhei muito, mas continuo sem ver a saída. É aquela sensação que temos quando entramos num túnel de grande extensão. Depois de um certo tempo, exclamamos: Esse túnel parece não ter fim!

Como é sua rotina, em detalhes, na fase em que está escrevendo as novelas? O ambiente, as paradas, o desligamento…

– Escrevo em casa, ouvindo a rádio MEC, e nunca me fechei para realizar o meu trabalho. A porta fica aberta e o trânsito dos filhos é livre. A cada uma hora, me levanto, ando pelo apartamento, subo e desço escada, tomo uma água, um café – pois é importante movimentar as pernas. Não escravizo a minha família por conta do meu trabalho. Nunca fiz isso. Minha única rotina é fazer uma caminhada diária de no máximo uma hora, pelas ruas do bairro, com parada obrigatória na Livraria Argumento.

Na sua avaliação, qual a novela em que, quando avistou o ‘fim’ nos créditos, teve a certeza de que foi um desastre – ou aquém de suas possibilidades?

– Honestamente, nenhuma. Nunca enfrentei uma má audiência. Algumas foram mais felizes do que outras, mas todas, sem exceção, conseguiram um bom resultado. Basta consultar os boletins de audiência disponíveis para certificar-se disso.

Em algum momento, em algum lugar, diante de algum revés, já pensou em deixar o circo de novelas?

– Muitas, inúmeras vezes. Cada novela que eu terminava, exclamava “Nunca mais”. E dava inclusive entrevistas aos jornais afirmando isso. Agora já não repito essa exclamação. Sei que vou continuar enquanto tiver condições para isso. Uma vez disse à minha mulher que, no fundo, eu devia gostar de viver sob essa tensão. E ela, muito sabiamente, retrucou: no fundo e também na superfície.

A crítica especializada de TV no Brasil é muito fraca, muito incipiente. Você sente falta de mais conteúdo, mais base técnica para avaliar suas criações?

– Coloco de uma outra forma: o que me chama a atenção é não existir, até hoje, uma crítica especializada em telenovela, que é o produto mais importante e mais duradouro da televisão brasileira, exportado para o mundo inteiro. Você não lê um crítico de teatro escrevendo sobre um concerto sinfônico ou um espetáculo de dança. São áreas diferentes e que exigem aprendizado específico, ainda que todas elas se realizem em cima de um palco. Mas crítico de televisão escreve sobre qualquer área da programação: novela, esporte, telejornal, humorístico e mesmo sobre séries e seriados, que são muito diferentes de novela, apesar de também serem dramaturgia. É como se tudo fosse a mesma coisa, por ser transmitido através do mesmo veículo. Lamento que não apareça alguém que exerça a crítica específica de novela.

O Jayme Monjardim, que vai dirigir a novela, tem uma pegada contemplativa, de tomadas longas. E você já experimentou esse encontro em Páginas da vida. Tem liga com seu modo de fazer novela?

– Posso dizer, sem medo de errar, que tive liga com todos os meus diretores: Herval Rossano, Denise Sarraceni, Ricardo Waddington e agora Jayme Monjardim. Nunca houve nenhum ruído, nenhum estranhamento entre nós. Há uma adaptação de parte a parte. Moldamo-nos mutuamente. E tenho estado sempre feliz com os resultados.

Se Woody Allen e Polanski batessem à sua porta e pedissem para dirigir uma novela sua, quem você mandaria procurar a Record?

– Para dizer a verdade, eu gostaria que eles se alternassem e conseguissem, assim, dirigir novelas nas duas emissoras: Globo e Record. Todos sairiam ganhando. Mas antes disso, seria indispensável que fizessem um cursinho com os diretores que atuam nas nossas emissoras de televisão, pois novela é muito diferente de cinema, onde Woody Allen e Polansky imperam.

Jornal do Brasil

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