Mário Lago: de ator de teatro a radioator num piscar de olhos

Existe uma razoável literatura sobre como se deu a adaptação dos artistas de rádio para a Televisão. Mas não existem muitos estudos sobre o que ocorreu na fase anterior, quando surgiu o rádio entre nós, na década de trinta do século 20. Muitos atores de teatro foram transformados da noite para o dia em radioatores.
Por Chico Socorro

O depoimento de Mário Lago, narrado em sua autobiografia escrita por Mônica Veloso revela como se deu a  conversão do ator de teatro em radioator…


Mario Lago no Divina Gula em Maceió.

No artigo anterior, falamos do  estranhamento causado pelo microfone fixo, considerado pelos novatos do rádio,  acostumados com o teatro, como uma espécie de tiranossauro. Hoje, vamos falar um pouco sobre a importância da voz e da imaginação, os elementos mais característicos do meio rádio.


Mário Lago e a nova geração de cantores.

Vamos nos transportar por alguns instantes a 1944, quando Mário recebeu o convite de Oduvaldo Vianna para ingressar na Rádio Pan-Americana de São Paulo. Sua expectativa, tendo o teatro como modelo, onde ele fazia normalmente o papel de galã romântico, era de que ele repetiria no rádio a sua trajetória de galã.


Grupo Mário Lago do Educom – Rádio do Núcleo de Comunicação e Educação da ECA/USP.

Selecionamos dois acontecimentos emblemáticos.

No primeiro, Mário, aos 33 anos de idade, que se imaginava assediado noite e dia por uma legião de fãs, sofre a sua primeira decepção. Oduvaldo Vianna, numa rádionovela, o escala para o papel de avô da atriz Amélia de Oliveira que tinha quase 70 anos mas era dona de uma voz de jovem, doce, sussurrante. Ao se queixar com Oduvaldo, Mário ouve  a seguinte explicação:


Capa de CD com músicas de Mário Lago.

 “—Você acha que as mocinhas ouvintes da novela vão acreditar em galã com voz de velha rabugenta e de cana rachada?”
Mário então começa a perceber que código de comunicação no rádio era outro – tudo dependia da imaginação do ouvinte.

Mas ele ainda eira se defrontar com uma situação ainda mais surpreendente e constrangedora. Um dia, caminhando pelas ruas do Rio, Mário é abordado por uma fã exaltada que se declarou apaixonada pela sua voz e lhe diz: “—- Quando ouço a sua voz, me dá uma moleza nas pernas… ”
Enciumado com a história, o marido procurou Mário para tomar satisfações. Ao saber que nada existia entre os dois, que tudo não passava de pura imaginação, acalmou-se. Deu meia-volta e se mandou. Mas ao dobrar a esquina, não se conteve e provocou: “—- Eu acho que você tem voz de veado. Veado de voz grossa, mas veado !”

Mário Lago aprendeu como poucos que trabalhar com a voz é vital no rádio, uma lição válida até os dias de hoje, mesmo com todos os avanços da tecnologia da radiodifusão.


{moscomment}

Categorias: Tags: , ,

Por Chico Socorro

Publicitário, nasceu em São Paulo e veio para Santa Catarina no final da década de 1970 para implantar e gerenciar o setor de comunicação e marketing da Cia Hering de Blumenau. Chico Socorro é consultor independente de comunicação e marketing para as áreas de licitações públicas e prospecção de novos negócios.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *