Mário Lago defende uma linguagem simples para o Rádio

Durante grande parte dos anos 40, um dos temas mais discutidos entre os profissionais de rádio era como deveria ser a linguagem do meio.
Por Chico SocorroLembrando que grande parte dos profissionais vinham do teatro, Mário se opunha a uma linguagem rebuscada, sofisticada. E havia também a questão do Index, com  expressões que não poderiam ser utilizadas na Mídia. Mário defendia que tinha de se falar no rádio a língua que o povo falava nas ruas, um estilo claro e coloquial.

Mário Lago entendeu muito cedo que para ter êxito no rádio, teria que se livrar do estilo e dos cacoetes da fala praticada no teatro – interpretações melodramáticas e “tremidinhos” na voz.  Mesmo nos tempos de teatro, Mário já “brigava” por um estilo de linguagem mais simples, mais próximo da realidade.

Na década de 40, no auge da Ditadura Vargas, o famigerado DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda do Governo Federal, ditava o que era proibido dizer no rádio. O número de palavras proibidas pela censura ultrapassava a uma centena.

Selecionamos uma expressão proibida  naqueles tempos  e cuja  proibição nos parece hoje absolutamente ridículo. Vejamos como Mário descreve essa situação:

“AMANTE”.

Determinadas palavras eram consideradas verdadeiros tabus no rádio. Não podiam ser usadas em hipótese alguma. Amante era uma delas. Se numa história aparecia um/uma amante, rapidamente a palavra era substituída por outra – ligação, relação, caso.
A pronúncia era maliciosa, seguida sempre de uma pausa sugerindo reticências. Era o suficiente para o ouvinte entender que se tratava de uma relação amorosa considerada fora dos padrões morais de comportamento”.

Essa postura moralista chegava a provocar situações muitas vezes cômicas.

O próprio Mário relata este caso:

“Foi o que aconteceu com Fernando Lobo. Ele era apresentador de um  programa musical, cujos ouvintes apreciavam o samba. No ar, tendo que substituir apressadamente a expressão “amantes do samba”, surpreendeu-se dizendo “casos de samba”…

Encontramos no livro Mário Lago – Boemia e política da escritora Mônica Velloso esta declaração de Mário que merece ser transcrita em sua essência:

“Não tenho estilo, tenho jeito de escrever. Sou de um tempo em que se conversava. Dou ao que escrevo um ritmo de conversa. Quero por a mão no ombro do leitor. Sei que não sou um escritor enxuto, mas tenho o gosto da palavra. Ela é manga madura para ser saboreada”.

Em poucas palavras Mário Lago nos ensina como expressar o que sentimos.

E com isso, ele se torna uma fonte memorável para todos aqueles que amam, perdão, que tem um caso com o Rádio…


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