Mário Lago, um texto de despedida

Mário Lago tinha várias facetas, humanas e profissionais: dramaturgo, compositor, radialista, o profissional de televisão, o militante político, pai de família e, sem dúvida, um boêmio assumido.
Por Chico Socorro

Existe ainda, na biografia escrita por Mônica Velloso (Mário Lago, Boêmia e Política)  material para muitos artigos. Mas, decidimos encerrar a série focalizando a homenagem que lhe foi prestada em 1991 pela passagem dos seus 80 anos, quando lhe foi outorgado o título de Cidadão Benemérito da Cidade do Rio de Janeiro, iniciativa do vereador Sérgio Cabral.
Todos nós sabemos que, em ocasiões como essa, a apologia dos homenageados e a retórica acabam prevalecendo. No entanto, no caso de Mário Lago, considerado por unanimidade uma personalidade de grande relevância histórica para o Teatro, o Rádio e a Televisão, vale a pena  reproduzir trechos de algumas falas proferidas naquele evento. Observem que estamos falando de um homem de 80 anos (1991).
Vereador Túlio Simões: “Aos 80 anos, Mário Lago é o símbolo da modernidade; permanentemente jovem, sempre tem valorizado cada nuance de sua interpretação, sendo o ”sucesso” uma constante em sua magistral carreira. Como ator, vem obtendo extraordinário êxito em dezenas de seriados e novelas  na televisão, conquistando três prêmios por seu excepcional desempenho em O Casarão (1976), Nina (1977) e Dancing Days (1978).
Um ator de qualidade e da maior competência, como o é Mário Lago, nunca pára e, ao comemorar seus 80 anos, sua obra ressurge renovada, ao lançar o disco Mário Lago – Nada Além, um trabalho All Stars, onde vários nomes de nosso meio artístico regravaram músicas deste grande compositor, que é dono de uma vasta e conhecida produção musical, aplaudida e cantada pelo grande público ““.
O Vereador Sérgio Cabral fez, em seu discurso, uma interessante análise da tomada de posição política  de pessoas com mais idade em relação às questões que envolvem Cidadania, Democracia e Ditadura Militar. Ele estava se referindo em especial sobre o período da Ditadura Militar em nosso País (1964-1984).
Vereador Sérgio Cabral: “Lá pelo século XVIII, alguém observou que o ser humano luta pra viver muito tempo, mas ninguém quer ficar velho. É que a experiência demonstrou que a velhice é uma etapa de recordações, pelo menos para uma grande parte daqueles que tiveram a benção de alcançá-la. Enfim, há várias teorias sobre as várias fases do ser humano e, em todas elas, cá entre nós, o máximo que se concede à velhice é a compreensão.
Mas há pessoas que nasceram para subverter essas teorias. Nós, que vivemos os dias terríveis da ditadura militar, jamais perdemos a esperança de que aquele período da vida nacional teria um fim, por muitas razões –  e uma delas, sem dúvida, era a força moral dos homens que a combatiam. Na liderança desses homens, expondo-se com caráter, com coragem e com firmeza às conseqüências da repressão política, vimos homens com o Tristão de Athayde, Barbosa Lima Sobrinho, sobral Pinto, Luiz Carlos Prestes e Paulo Duarte – todos com mais de 80 anos.
Nessa luta, portanto, Mário Lago, entrando nos 60 anos, era um jovem que pagou um preço alto por sua determinação de ficar ao lado do povo. Pagou com prisões e com o desemprego. Qualquer ameaça de crise no Brasil – um general que dissesse uma bobagem em Brasília, era motivo para a  polícia ir ao  Fiorentina [restaurante famoso do Rio de Janeiro] e prender Mário Lago”.
Em continuação, Sérgio Cabral reforça a idéia  da juventude de Mário Lago aos 80 anos: “Que velho é esse  que vai para as boates expor sua cara no palco? Que velho é esse que grava uma telenovela inteira, espantando os companheiros de trabalho, não só  pelo talento, mas por uma capacidade anormal de decorar quilômetros de texto? Que velho é esse que está com disco novo na praça? Que velho é esse que acaba de escrever um livro junto com seus filhos [Segredos de Família]  que, numa leitura rápida, a gente acaba não sabendo quem é o pai, quem são os filhos?
Muitos discursos foram proferidos naquela homenagem.
Reproduzimos a seguir  parte das palavras de agradecimento de Mário Lago e que revela o seu inegável talento  literário:
“A língua portuguesa tem duas palavras que, dependendo da maneira com que  forem empregadas, às vezes se tornam antipáticas, desagradáveis. Uma delas é a palavra ”muito”. O muito, quando é adjetivo, às vezes faz uns casamentos esquisitos: “fulano é  muito autoritário”,  “sicrana é muito vaidosa”, “beltrano é muito canalha”.  Outra palavra desse tipo é a palavra “obrigado”, que, às vezes, traz constrangimentos… 
Mas quando essas duas palavras se encontram, formam uma melodia muito gostosa. E, por isso, é com emoção que eu digo: Muito Obrigado, meu amigo Sérgio Cabral, autor deste carinho que estou recebendo, gente do samba como eu, camarada de tantas lutas e prejuízos por causa dessas lutas e que, durante a repressão, conseguiu livrar meu cunhado Henrique João Cordeiro, de ser preso e assassinado, como o DOI-Codi queria. Muito obrigado, meus filhos queridos: Mário Lago Filho, Wanda, Luiz Carlos, Graça Maria e meus netos: Andréa e Wladimir, que compõem esta mesa. Muito obrigado, meus amigos vereadores, que apoiaram e concordaram com o Sérgio Cabral. Muito obrigado a todos os amigos presentes. Muito obrigado Zeli, minha esposa há 44 anos, ombro sempre amigo, mão encorajadora. Muito obrigado, meus amigos. Muito obrigado, minhas senhoras e meus senhores…”“.
Para finalizar,tendo em vista a natureza do nosso site Caros Ouvintes, desejo destacar que de todas as suas inúmeras atividades artísticas, o que o Mario Lago de fato  mais amou fazer, era o seu trabalho como Radialista.
 
Quem sabe um dia o meio Rádio  em nosso país lhe preste uma justa  e perene homenagem em retribuição a esse  amor e paixão desinteressados…


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