Marisa Ramos, nas asas da liberdade

Numa das salas do Palácio Santa Catarina, onde trabalha há muitos anos, Marisa Ramos exibe a fotografia do jornalista Adolfo Zigelli estampada na parede sobre a sua cabeça, como se invocasse a proteção do seu anjo-da-guarda de todos os dias.

Essa lageana da tradicional família Ramos, que veio morar em Florianópolis aos cinco anos, fez história na cidade. Bagunçou a conservadora sociedade dos anos 50 como a primeira mulher a usar biquíni de duas peças. Na vida profissional fez de tudo um pouco: foi modelo de alta costura no Rio de Janeiro, colunista do jornal O Estado, e apresentadora de televisão na TV Cultura.

Marisa relembra a sua infância em São José, as festinhas no Clube Doze e do Lira, o footing na calçado do palácio na praça 15, os primeiros banhos de mar no Praia Clube, e fala, com extrema emoção, sobre Adolfo Zigelli, o grande amor de sua vida, uma paixão que perdura dividida entre o céu e a terra.

Ela é uma escola jornalística da melhor qualidade. Seu pai, Jaime de Arruda Ramos era articulista de A Gazeta, dividia a opinião dos leitores da época com seu irmão, o não menos competente Rubens de Arruda Ramos (seu tio), escrevia em O Estado. Marisa Ramos, que tem os destacados jornalistas Paulo da Costa ramos e Sérgio da Costa ramos como seus primos, ressalta que embora seu “pai (UDN) e o Tio Ju (PSD) fossem de partidos diferentes, eram grandes amigos, estavam sempre juntos, e respeitavam-se mutuamente”.

Guarda gratas recordações da infância em são José, convivendo com o mar, as brincadeiras de roda, as sessões matinais do Cine Rajá (hoje Teatro Adolfo Mello). “Aquele filme Cinema Paradiso retrata bem como foi minha infância saudável e maravilhosa”. Aos 15 anos, seus pais foram morar na cidade (Florianópolis) e, como aluna do Colégio Coração de Jesus e depois do (antigo) Instituto Estadual de Educação, começou a freqüentar as primeiras festinhas.

– Florianópolis era uma cidade gostosa de se viver. Ainda mocinha, depois da escola, uma voltinha na praça, onde existia o footing. Depois da missa das dez na Catedral, a voltinha pela calçada do Palácio, as primeiras paqueras, matinês no Cine são José, uma delícia.

A praia da moda era a Praia da Saudade, em Coqueiros. Os jovens de classe social mais privilegiada frequentavam o Praia Clube. Era uma viagem pra chegar em Coqueiros, o ônibus contornava por baixo da ponte Hercílio Luz, depois seguia até chegar ao destino. “Existiam poucos automóveis na cidade e raramente alguém conseguia o carro do pai emprestado. A farra começava no ônibus, pela estrada empoeirada. Mas valia a pena. O Praia Clube era a praia da moda, como se fosse hoje a Praia Mole, Joaquina. Ali rolavam as novidades da moda”.

Não esconde que tinha uma cabeça liberada para a sua época: “Nasci um pouco antes”. Mulher bem informada, gosta de viajar, de leitura, usava moda que pintava no eixo Rio-São Paulo. A moçada que tomava cerveja no Praia, ficou perplexa quando aquela morena insinuante, cheirando à tinta, no fulgor dos seus 16 anos, exibiu, pela primeira vez na cidade, um biquíni de duas peças. Algumas senhoras viraram o rosto, outras levaram os meninos para casa.

Estava decretado o escândalo diante da falta de pudor da moça faceira, que não estava nem aí para as críticas e comentários que surgiam. Causou frisson na moçada ainda tímida, observando o espetáculo de longe, e os mais velhos espiavam por trás da janela, aproveitando o cenário emoldurado pela morena para recarregar a pilha. “gente, não era nem um biquíni, hoje ele seria um escândalo ao contrário. Era um maiô como esses que cãs gringas usam hoje, cheio de babado, com muito pano. Só porque botei a barriga um pouquinho de fora…”

Dona Luiza, sua mãe, exímia costureira, recortou uma dúzia de biquínis para a filha e, por incrível que possa parecer, não foi reprimida pelo pai, um lageano duro na queda, que em uma de suas viagens ao Rio trouxe um biquíni de presente para a esposa. Quem diria. A repressão instalou-se através dos irmãos Cláudio e Capitão, que não aceitavam a maninha escancarar daquela maneira. Instalava-se ali a primeira legião de caretões da cidade, concorda Marisa.

– Nunca me senti escandalosa e nunca usei biquíni para escandalizar. Simplesmente usei a moda um pouco antes de outras moças. Sempre fiz o que gostei. Eu já esqueci, faz tanto tempo, ainda agora durante a festa do Troféu Manezinho da Ilha, algumas pessoas ainda relembravam o fato. Credo, eu nunca fiz nada para derrubar conceitos e preconceitos. Ma época, as pessoas que me rodeavam aceitaram naturalmente o meu traje.

Mulher bonita, inteligente, cabeça liberada, Marisa decidiu botar o pé no mundo, a Ilha estava ficando pequena pra ela. Foi morar no Rio de Janeiro, sozinha, quando as moças normalmente viajavam acompanhadas da família. Instalou-se um tititi na cidade.

Buscando a sua independência, teve (e tem) a sorte de ser amiga de Zury Machado, muito bem relacionado com famosos costureiros e pessoas da sociedade carioca. Ela freqüentou aulas de manequim e logo estava desfilando.

– Casei, descasei, tive um filho (Maurício), e acabei retornando a Florianópolis como todo o bom filho apaixonado por sua cidade.

Descasada e com um filho. Isso hoje parece muito natural, mas na época era uma barra. Ah, Sociedade hipócrita! O pai brabo, lageano machão, adotou o neto, “mas nunca achou que tinha morrido para o mundo, que eu já tinha feito a minha historinha”.

Foi à luta, procurou trabalhar, a independência naquela fase era fundamental. Como ela mesma diz, abriu as primeiras picadas ao colocar a barriguinha de fora metida em seu biquíni (não tão) sumário. Audaciosa? Nem tanto. Povoamos a conversa com assuntos mais estimulantes. Quem sabe reviver um pouco da cidade antiga como, por exemplo, as festas do Clube Doze, Lira T. C. e Paineiras e, mais tarde, como rainha da Banda Mexe-mexe, ao lado de Celsinho Pamplona, ambos em cima de um jipe puxando um enorme cordão de foliões?

Ela não esquece as grandes festas sociais e destaca a comemoração dos 50 anos da Fábrica de Rendas Hoepcke, no Clube Doze. “D. Ruth e Dr. Aderbal planejaram tudo direitinho. Uma grande orquestra com a cantora Elizeth Cardoso. Uma manequim da Socila, do Rio, veio ensinar as modelos a desfilarem. Eram todas moças da sociedade, inclusive a Sílvia, filha do casal” (e a própria Marisa). Relembra com certa emoção as noitadas no Clube Paineiras, belas festas, rodeada de grandes amigos como Mauro e Maurício Amorim, Airton de Oliveira, George Alberto Peixoto, entre outros assíduos freqüentadores.

Ao retornar do Rio de Janeiro, foi administrar uma confecção do irmão Capitão, inclusive promovendo desfiles. Quando “O Estado” entrou na era off-set, foi convidada a assinar uma página de variedades, com assuntos femininos, até ingressar na TV Cultura atendendo o convite de Darcy Lopes (homem que instalou a televisão em Florianópolis), por indicação de seu amigo Zury Machado. Estreou um programa à tarde, ao lado de César Struwe e Mauro Amorim. Com Cyro Barreto, apresentava tele-jornais na mesma emissora, tudo em preto-e-branco.

Celso Pamplona, que escrevia em A Gazeta, foi revelado para a televisão, depois de uma entrevista à Marisa, na TV Cultura. A metralhadora platinada, no melhor estilo manezinho, engraçado e bem-humorado, conquistou o seu espaço.
Ainda encantada com a sua ilha, apesar de tudo, critica o mal planejamento que destinaram à cidade, maltratada e agredida. Sente falta da cidade antiga, do mar, Miramar, dos carrinhos-de-pcavalo, mas não admite morar numa ilha sem uma única marinha. “entendo que o progresso é inevitável, mas tem que ser planejado de forma ordenada, preservando a história”.

Pergunta se não estaria na hora de fechar o portão (ou as pontes): “chega de empilhar gente na cidade”.

Marisa Ramos fala de amor sem dificuldade, sem constrangimento. Ao conhecer o seu mapa estral, este revelou que o grande amor de sua vida viria após os seus trinta anos. “ele pintou e jamais foi substituído”. Pintou Adolfo Zigelli, um talentoso jornalista que fez sucesso com o programa Vanguarda, na Rádio Diário da Manhã. Antes, ele apresentava, na mesma emissora, a Marcha dos Acontecimentos, um programa jornalístico escrito pelo Jaime de Arruda Ramos.

– Nós nos conhecemos quando eu tinha 12 anos. Ele costumava dizer que eu seria a mulher da vida dele. Eu não sabia, era uma criança. Fui saber quando já tinha 30 anos.

Foi Neide Mariarrosa, o grande cupido dessa história. A cantora entregou à Marisa um bombom enviado por um homem apaixonado, mas só revelou o nome depois de muita insistência. Cumplicidade de mulher…

– Aí despontou, deixei-me conquistar. Foi um romance muito bonito.

Tão bonito que Marisa Ramos continua venerando o homem de sua vida, falecido em trágico acidente aviatório aos 39 anos. Com a perda do amado ela dedicou-se a literatura espírita, o que lhe rendeu a oportunidade de conhecer a vida após a morte e a tranqüilidade necessária para superar a saudade. Uma paixão tão forte quanto as cartas psicografadas que ela recebe. Somente agora entende a festa de despedida no restaurante de Neide Mariarrosa, na Lagoa, na noite que antecedeu a viagem que resultou na morte de Zigelli. A pedido dele, Neide cantou inúmera vezes a música Viagem: “Ó tristeza, me desculpe, estou de malas prontas…”.

* * * * * * * *
Para Marisa,

Eu que vaguei no espaço, procurei no infinito todo amor que poderia te dar na terra. Busquei nos labirintos o que te envolve no Amor e na procura de Deus.

Deixo-te, através do veículo que encontrei, o que procuras na luta incessante da tua jornada. Hoje deixo-te catalogado que o amor na terra é bonito, mas no além é infinito. Faças na terra tudo o que tens a fazer para quando chegar a tua hora, nos tribunais divinos, não tenhas mais nada a te corroer a alma ou a te dilacerar o coração.

Guio teus passos, acalento o teu coração; procura, então, a brandura que se encontra na prece que Jesus oferece a cada um de seus filhos. E assim verás a maravilha que está em tuas mãos.

Segue em frente. Eu te deixo pra voltar outras vezes, trazendo o que teu ser está a pedir na angústia do silêncio que nos une. Com amor e com saudade.

Adolfo Zigelli

Carta psicografada
em 17.07.82

(Colaborou Giane Severo)

[Retratos à luz de pomboca. Aldírio Simões. Florianópolis: Edição do autor. Pgs. 107 a 112]

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