Mega-Sena

Sempre digo, embora ninguém me pergunte, que fujo na Mega-Sena por dois motivos: 1) não acredito na possibilidade de ganhar, e 2) não tenho vontade de ganhar. De fato, ter uma chance em 50 milhões é muito pouco para alimentar a ilusão de ficar rico naquela meia hora que dura o sorteio, geralmente cercado de pompa, suspeita e circunstância. E o que fazer se, contra todas as expectativas, a sorte me sorrir, deixando uma multidão de outros brasileiros na mão? Não, é melhor ficar assim, ralando, sem uma conta polpuda e sem o risco de perder a privacidade, o sossego, a segurança que só a pobreza pode garantir.

Há uma outra razão que me afasta das casas lotéricas: o nome do sorteio. Me traz o nome de Ayrton Senna, um sujeito com quem nunca simpatizei, por ter duas caras e por se vender a um canal de televisão, onde lhe forjaram uma imagem de bonzinho, coisa que ele nunca foi.

Também, por princípio, e talvez por tolice, acho que se deve ganhar a vida do jeito mais prosaico, trabalhando, economizando para adquirir algo mais, essas coisas que a educação tradicional, meio europeia, incutiu na cabeça de muitos brasileiros.

E por que será que tanta gente só joga quando o prêmio acumula? Será que nós, pobres de maré fincados abaixo da linha do Equador, podemos nos dar ao luxo de apostar apenas quando a bolada chega a R$ 160 milhões? Por que não fazer o mesmo quando o rateio é de ralos R$ 30 ou 40 milhões?

Sempre que esse assunto vem à tona, me lembro de um episódio na minha cidade interiorana – mas que deve ter se repetido em muitas outras cidades, grandes, médias e pequenas, mais de três décadas atrás. Na ocasião, a Loteria Esportiva, a coqueluche do momento, não teve uma zebra sequer em determinado fim de semana.

Como sempre, alguns moradores haviam feito um “bolão”, e marcaram os 13 pontos. Festa na cidade, foguetório, bebedeiras. O dono da venda onde o grupo se reunia e apostava autorizou que os fregueses levassem o que quisessem, podiam esvaziar as prateleiras, porque daquele dia em diante ninguém precisaria mais trabalhar.

O problema é que meio mundo ganhou, pelo Brasil a fora, e o prêmio foi uma mixaria – que deveria ser repartida entre todos os participantes do bolão. Resultado: o dono da venda quase foi à falência e os novos ricos passaram por um vexame cavalar.

Depois, ainda teve o escândalo da Loteria, e mais recentemente aquela história do juiz de futebol que ganhava dinheiro forjando resultados. Hoje, tudo o que faço é torcer pela boa sorte de parentes e amigos. Se eles ganharem, talvez sobre algum pra mim…

Coluna semanal publicada no jornal Notícias do Dia de Florianópolis, SC

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Por Paulo Clóvis

Jornalista, cronista e escritor fez carreira no jornal O Estado de Florianópolis, destacando-se como pesquisador cultural. Autor dos livros Pequena História do Teatro Álvaro de Carvalho e Mercado Público e suas histórias. Atualmente trabalha no jornal Notícias do Dia e na Agência de Comunicação da UFSC.
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