Heranças do Cabo Submarino

Até a década de 1960 as comunicações no Brasil eram muito precárias.

Relógio da Western foi doado à prefeitura e instalado no Mercado Público.

Relógio da Western foi doado à prefeitura e instalado no Mercado Público.

Quem hoje pega o seu smartphone e utiliza aplicativos como o WhatsApp não faz a mínima ideia — a não ser que tenha nascido há mais de 40 anos — de como era difícil conversar com alguém à distância, mesmo que fosse na mesma cidade (e até no mesmo bairro ou rua) utilizando o telefone. Não era incomum o uso do sistema de telegramas, via Correios, ou cabogramas, via Cabo Submarino, para fechar negócios, combinar encontros ou simplesmente obter notícias de amigos ou parentes.

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O Cabo Submarino foi operado em Florianópolis durante quase 100 anos pela Western Telegraph Company Limited, empresa do grupo britânico Cable and Wireless. Era, entre 1874 e 1973, a melhor tecnologia disponível para a comunicação da cidade com o mundo.

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Duas lembranças do Cabo Submarino estão vivas na Capital. O prédio que pertenceu à companhia, entre 1923 e 1973, e o relógio externo. O imóvel fica na Rua João Pinto e o belo relógio, que ornamentava a parede da sede, hoje está instalado no Mercado Público, mas sem a devida manutenção.

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A história da Western em Florianópolis é muito rica, afinal foram 99 anos de presença ao cotidiano local, interligando a capital, por meio de mensagens em Código Morse, a qualquer lugar do mundo. Da estação no Centro saíam cabos submersos na baía Sul até a altura da Costeira (mais ou menos onde é o trevo da Seta) — onde passavam a ser subterrâneos — até chegar ao Campeche, de onde saíam ramais submersos no oceano: para as estações de Rio Grande (RS) e Santos (SP).

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O que determinou o fim das operações do Cabo Submarino foi a fundação da Embratel (Empresa Brasileira de Telecomunicações) e a própria modernização dos sistemas de comunicação, que passaram a ser operados na década de 1970 por satélite (micro-ondas). Data da mesma época a criação do sistema brasileiro de telefonia (Telebras) e a fundação da Telesc, a subsidiária catarinense que se tornou exemplo de inovação e eficiência para o Brasil.

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O ilhéu Ernani Carioni foi o primeiro brasileiro contratado para trabalhar na Western em Florianópolis. Entrou em 1960 e imediatamente foi para São Paulo, onde recebeu qualificação técnica durante dois anos. “Era um treinamento muito pesado, um curso muito rigoroso”, diz Carioni. “Depois de formado, tornei-me responsável por todo o atendimento técnico da estação florianopolitana. Sempre que havia um problema, eu tinha que descobrir a origem e consertar os cabos”, acrescenta.

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Entre as lembranças do ex-funcionário está a chegada de um cabograma do governo brasileiro que retransmitia informação do governo estadunidense, sobre a queda de uma ponte similar à nossa Hercílio Luz naquele país. “Eu estava trabalhando na noite em que a mensagem chegou à sede da Western na Rua João Pinto, eu via mensagem. Era endereçada ao então governador, Ivo Silveira. Aquele cabograma era sigiloso e seu conteúdo demorou a ser divulgado. Mas foi o primeiro passo para que o governador decidisse pela construção da segunda ponte, que só foi viabilizada por seu sucessor, Colombo Salles”, conta o ex-funcionário.

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Ernani Carioni ficou na Western até o encerramento de suas atividades, em 1973. “Não passei um dia sequer desempregado: saí da Western e fui contratado pela Telesc, que estava se instalando, onde fiquei até me aposentar”.

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A Western saiu do Brasil por uma decisão do regime militar, que tinha uma política de nacionalização de setores estratégicos, como a telefonia, a energia elétrica e as comunicações em geral. A Embratel e a Telebras surgiram a partir dessa política nacionalista. As duas estatais – e as subsidiárias da Telebras – foram vendidas para capitais estrangeiros no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003).

[Por Carlos Damião, Notícias do Dia Online, 30/05/2015]

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