Memórias de um tempo perdido: Rua Conselheiro Mafra

“Porque aquilo é um pedaço da vida da gente. A nossa história!” Contam dois antigos moradores da Rua Conselheiro Mafra: Dona Leonor Lisboa e Aldy Farracha Verges. Esse relato emergiu em tom de desabafo daqueles que visitam a Rua e a casa natal todas às vezes que vêm à Florianópolis, desde que mudaram no final da década de 1940.
Por Marilange Nonnenmacher

Para a antiga moradora do Bairro da Figueira, que nasceu, se criou, casou-se e morou na rua, cada reencontro soa como uma nota a mais de esquecimento e perda. O percurso até sua velha casa torna-se mais solitário a cada ano, pois o espaço que aconchegava suas memórias fugidias se distancia com as constantes transformações da paisagem urbana.
  
A Conselheiro Mafra possui o maior conjunto arquitetônico tombado do centro da cidade, ou seja, configura-se num cenário ideal para o desabrochar das lembranças. Tanto que, para alguns, tornou-se uma espécie de museu a céu aberto, como o é para Leonor e Aldy. Eles visitam a rua na tentativa de assegurar na memória o lugar sagrado da infância.
Apesar do poder das reminiscências, o espaço se mobilizou com as renovações urbanas e isso desorganiza os referenciais identitários. É como se a Rua se afastasse um pouco mais a cada ano em razão das modificações e da deterioração do cenário. O fato de não se reconhecer mais no lugar a intimidade sacralizada de suas memórias denota que o tempo da história não concorda mais com o das suas memórias.

Visitar a casa natal! Bem, é o tempo do passeio para eles, mas não da inocência! Com isso, quero dizer que, conforme a perspectiva de Ecléa Bosi (1994) é “o tempo de lembrar”. Segundo essa autora, diferente do adulto ativo, o homem mais velho se encarrega conscientemente de suas lembranças, ele não espera que elas despontem. Ele as persegue, vai ao seu encalço em antigos baús, em fotografias antigas, em jornais, em conversas com outras pessoas da mesma idade e, nessa busca por registros, até passeiam por sua antiga rua.
Uma rua onde “todos eram amigos”, disse Aldy. “Ali na Figueira havia amizade e sinceridade”, concluiu ele. Desse modo, infere-se que um mesmo lugar possui configurações diferentes para aqueles que o viveram, ou seja, a imagem da má fama para esses antigos moradores, criou-se posteriormente. Para eles, a Figueira era um lugar sossegado. Havia lá umas rixas entre os marinheiros que aportavam sedentos por umas fanfarrices, contendas entre os meninos da Figueira e do Campo do Manejo durante a malhação do Judas… Mas, de certa maneira, o lugar mantinha aspectos de um bairro popular, cujos moradores congraçavam na Igreja de Nossa Senhora do Parto.
As casas, na sua maioria, eram pequenas, diferindo dos sobrados das primeiras quadras da Rua Conselheiro Mafra, que possuíam um diferencial, serviam concomitantes ao comércio e à moradia. Quanto à população da Figueira, ela era constituída, em grande parte, por operários, empregados do complexo industrial e portuário de Hoepcke Irmãos & Cia.
Instigante a memória! Esses antigos moradores sentem-se pertencentes ainda à comunidade do Bairro da Figueira e à Irmandade de Nossa Senhora do Parto! Ou seja, além das diversas formas de lembrar de um lugar, há também a manutenção de um sentimento de pertencimento a esse lugar e uma história que, somente eles, conhecem.
O casario da Rua Conselheiro Mafra é algo que sobrevive fisicamente, não somente porque foi tombado pelo Patrimônio Histórico, mas porque adquire mobilidade, servindo de inspiração para os lampejos da memória de pessoas que procuram por fragmentos de suas histórias, pois como diz Raphael Samuel (1989): “há eventos do passado que só as pessoas mais velhas podem explicar, vistas sumidas que só eles podem lembrar”.
 


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Por Marilange Nonnenmacher

Doutora em História Cultural pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e foi professora colaboradora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Dedicou-se mais recentemente à pesquisa e estudo de hábitos e costumes da cidade de Florianópolis e da Ilha de Santa Catarina onde reside.
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