Memórias do Rádio – respondendo a Odirley Prada – 1

Por volta de 1954, 1955 eu ingressava nessa vida de microfone. Será que me lembro? Deixa eu tentar rememorar alguns detalhes da carreira.

Era muito pobre, engraxate,vendedor de doces em tabuleiro pendurado no pescoço na estação da Estrada de Ferro Sorocabana.

Vendia carambola de casa em casa e ganhava comissão de uma portuguesa que me enganava sempre nas contas.

Meu pai me arruma um emprego de ajudante numa alfaiataria. Desmanchar calças que o homem pegava para fazer algumas modificações. Um dia, cortei uma calça. Fui para casa e nunca mais voltei na Alfaiataria.

Arrumei um bico no Serviço de Alto-Falantes Cacique, na Estação Rodoviária. Apresentava a hora da Ave Maria. Havia sido o orador da minha turma no Grupo Escolar e no Ginásio (uma história e tanto, que qualquer dia eu conto. Naquele tempo tinha formatura! Tinha discursos!).

A seqüência ta meio difícil, mas estas lembranças são válidas, já que você perguntou seu Odirley.

Fui ser garção no Restaurante que só abria para o almoço. Depois do expediente da hora do rango eu ia ser Professor de Datilografia no mesmo  prédio. O dono era o mesmo. Garção/Professor.

Fui ser vendedor de tecidos nas Lojas Riachuelo cuja loja era defronte às Casas Pernambucanas. A cidade? Paraguaçu Paulista. Ao invés de vender tecido – o que era uma chatice – saía fazer propaganda no carro de som da Loja. Assim, fui demitido porque não vendia nada e não queriam pagar para que fosse o locutor do alto falante.

Nessa época, formamos um Trio cantante (Trio NEGÔ, devido ao Trio NAGÔ que fazia muito sucesso) pra cantar por aí em festinhas. Era tão bom que foi desfeito logo após uma apresentação no Clube da cidade e uma frustrada entrevista no Serviço de Alto-Falantes. Éramos: eu, Antoninho Machado sei lá do quê e José Ferreira Martins. Sabe? Aquelas pessoas que você nunca mais esquece, mas também nunca mais encontra prá abraçar, chorar, contar da vida.

Chamaram-me para a Hora da Ave Maria na Rádio Clube Marconi de Paraguaçu Paulista. Depois de algum tempo, voltei a fazer isso no serviço de Alto-Falantes porque tinha mais ouvintes que a Rádio, pensava eu.

O irmão da minha noiva (Oswaldo Buchler) construiu – literalmente! Construiu – a cápsula de um microfone derretendo chumbo na areia e colocou os “ingredientes”, como o carvão etc. Construiu a meu pedido uma torre de ferro. E lá fui eu para uma cidade cujo nome o tempo já apagou e perdi tudo porque, não tendo autorização para montar o alto-falante pretendido naquela cidade, não tinha como aproveitar a torre (que já estava toda arrebentada: carregada sobre o ônibus, com os pés voltados para frente, enroscou-se naquelas árvores que plantam nas avenidas em cidadezinhas do interior. Foi um desacerto, seu Odirley.

Sei que nada disso interessa para a sua tese, mas, desculpe, serve para que eu possa relembrar.

Então, perdi a torre, a coragem para voltar prá casa, perdi a noiva depois de algumas correspondências.

(Dia destes os familiares, inclusive o Oswaldo, descobriram-me nesses sites para os quais escrevo em todo o Brasil e exterior. Foi uma alegria saber que estão bem e uma tristeza porque seus pais – os quais eu considerava meus pais também – já morreram).

Cê ta lendo ainda?

Continua na próxima semana.

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