Memórias Caros Ouvintes

selo-cadeira-do-barbeiroEu estava na fila de um banco. Uma fila longa por sinal. De repente um rapaz começa a me olhar. Continua olhando. Fico desconcertado. O tal rapaz aproxima-se sorrindo. Eu olho pra ele na expectativa de o que ele dirá. O rapaz diz entusiasmado:

– E daí cara, como vai? Poxa que saudades. Ta morando aqui perto? Teus pais estão bem? O que tens feito? – Uma porção de perguntas e eu tentando lembrar do rapaz. De onde eu o conhecia? Não me lembrava dele. Que droga essa minha cabeça. Recorri às memórias. As cenas passavam em minha mente iguais aquelas de televisão. Nada. Não conseguia lembrar de onde o conhecia. Ele continuou:

– Bons tempos hein! Eu estou trabalhando numa empresa de contabilidade aqui mesmo, no Estreito. Meu pai andou meio doente, mas está melhor. Minha mãe vai bem – O rapaz era de uma simpatia fora de sério, mas eu ainda não tinha aberto a boca e continuava sem lembrar dele. Agora resolvi recorrer a outro método. Queria muito lembrar. Eu continuava calado e ele ali contando sua vida, animado em me ver. Resolvi lembrar dos colégios onde estudei. Claro.

Devia ser amigo de escola. Lembrei do Cabral, onde estudei até a antiga 8ª série. Não, do Cabral não era. Talvez da Escola Técnica de São José. Não, também não. Ah, claro, do CEPU, lá fiz meu supletivo. Mais de 100 alunos na sala de aula. Ele estudou comigo ali? Não. Que coisa. A cabeça já estava esquentando. Ele continuava a falar:

– É eu tenho muitas saudades daquele tempo. E você? – Estava desconfiado de que ele havia me confundido com outra pessoa. Como eu ainda não tinha falado nada, pensei em dizer isso a ele, que ele estava enganado, mas fui surpreendido por uma frase sua:

– Ainda tenho comigo aquela fotografia que tiramos todos juntos, deixe eu te mostrar.

Agora eu gelei, como diz a turma hoje. Se ele tinha uma foto minha e falava com tanta intimidade eu é que devia estar louco e não ele. Estava aí a prova do “crime”. Ele puxou uma foto onde apareciam uns 7 rapazes com uniformes do exército. Começou a falar sobre cada um deles, inclusive um que havia cometido suicídio. Eu já havia matado a charada, mas ele disse:

– Ah, poxa, nesse dia você estava de folga, por isso não está nessa foto.

Não. Eu não servi o exército. Nem mesmo jamais havia entrado ali. Ele com certeza estava me confundindo com alguém do exército. Alguém muito parecido. Ele não parecia estar debochando de mim. Parecia falar sério e com ânimo por ter-me “reencontrado”. E agora? Várias pessoas que estavam na fila nos olhavam. Algumas até demonstrando que estavam contentes por presenciarem um reencontro de dois velhos amigos. Só faltava eu dizer alguma coisa e darmos um abraço.

Que dúvida. Eu digo a ele que ele se enganou e que não sou quem ele pensa que sou? Ele sorria. Tomei uma decisão.

Claro que ele não lembrava meu nome, aliás, não sabia, nem eu o dele. Pela primeira vez abri a boca para dizer:

– Que bom te ver também rapaz. Fiquei muito impressionado – Nos abraçamos e disse para mandar um abraço a seus pais.
Ele foi se afastando satisfeito com o “reencontro” e disse:

– Vamos marcar alguma coisa. Reunir a turma. Vou te ligar, ainda tenho teu telefone.

1 responder
  1. Nicanor says:

    Parabéns Deivison! Ótimas crônicas! Este cidadão é um comunicador nato! abraços, Nicanor.

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