Meu rádio emudeceu

Semana da Radiodifusão | 88 anos de rádio no Brasil

Tenho um carinho todo especial pelo meu rádio, um Transglobe Philco Ford Solid State, nove faixas, sendo oito de Amplitude Modulada (AM) e uma de Frequência Modulada (FM). Meu carinho exagerado talvez tenha uma nuança importantíssima. Aquele invento maravilhoso foi presente de aniversário ofertado pelo meu amigo dileto, o meu pai querido. Um rádio que traz lembranças alegres e tristes da minha vida, nesse orbe em que vivemos. Incontáveis vezes eu comparecia na companhia de meu genitor ao estádio Presidente Vargas, praça de esportes do município de Fortaleza, capital do estado do Ceará, para assistir pelejas do campeonato cearense de futebol. Não era assim um Zé do Rádio, torcedor ardoroso do Esporte Clube do Recife, mas torcia fervorosamente pelo time do coração do meu amado pai, o Ferroviário Atlético Clube (FAC), ligado à antiga Rede de Viação Cearense (RVC) nas Oficinas do Urubu, no bairro da Colônia.

Sempre agarrado às mãos amigas para não me perder fazia questão de ouvir a emissora do coração que transmitia a refrega esportiva, e a posição que empunhava o presente valioso era a mesma do Zé do Rádio. A Rede de Viação Cearense foi transformada em RFFSA (Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima), mas não mudou de local fazendo com que minha saudade aumentasse ainda mais, quando por necessidade tivesse que passar por aquele local.

Penso em descompasso vindo a minha mente a figura do meu pai, do som do meu rádio e do alvoroço da torcida gritando em altos brados, gooool! Carinhosamente conhecido como ferrim, o time das temporadas, pois sempre quando excursionava ganhava todas. Foi o clube que implantou o profissionalismo no futebol cabeça chata, bem como foi o primeiro clube a deixar o campo para comparecer a uma delegacia de Polícia. Hoje não frequento com a mesma assiduidade as praças de esportes, visto que a violência nos estádios aumentou. Deixei por algum tempo meu querido rádio de estimação, substituindo-o por outro menor, mas de qualidade inferior. Infelizmente, hoje não encontramos nas lojas rádios de marcas famosas, o que se vê são os importados da China, que só quebram galhos e nada mais. Nem os meliantes se dão ao “luxo” de subtraí-los, pois a má qualidade tira o apetite dantesco da subtração do patrimônio alheio. Enquanto o tempo passava meu rádio continuava mudo e esquecido, pois o tamanho provocava certa gozação do público debochador. Certo dia nós programamos uma viagem e logo veio à mente o querido rádio.

Com bela postura, imponente brilhava quando os raios do sol penetravam no meu escritório. Quando acionei o play quase chorei, pois o mesmo estava mudo, não chiava e nem fazia barulho, emudeceu total. Cocei a cabeça e disse My God, o que vou fazer? Não sei. Hoje doutor em rádio é coisa rara, pois a profissão não rende o necessário para o especialista no assunto. Na minha intuição veio à ideia de trocar de local buscando outro plug de entrada de energia elétrica. Meditei. Será que meu rádio aderiu ao anseio de que eu falava tanto? Tudo o que eu tinha em meu campo, larguei para o campo alheio, quero agora, dentro de mim quanto sinto e quanto creio.
 
Seria a tristeza pela falta de uso, ou saudades das refregas, ou mesmo da figura do meu saudoso pai que já nos abandonara indo morar com o Pai celestial. Pensei. Pela intuição se conhece o coração. Quando liguei o plug o assombro foi geral, pois o volume estava no máximo e talvez por pirraça o som que se ouviu era a narração de um gol. Meu coração palpitava e eu procurava calma para atenuar os batimentos cardíacos do susto que levei. Enfim, a tranquilidade voltava à normalidade, mas o sorriso que fiz com tanta energia a boca não conseguia fechar.

Hoje, está em minha companhia talvez com inveja quando coloco um disco Cd no meu computador para ouvir músicas. Meio desconfiado olho de “revestrés” para não desagradá-lo, mas para não cometer injustiça, mantenho contato com ele todos os dias.  Como profissional consciente do rádio procuro ser diferente, apesar dos meus defeitos, respeito os ouvintes desse majestoso invento. Poderia ter sido o filho querido do padre Roberto Landell de Moura, mas como no Brasil acontece de tudo pelos caprichos da religião, o padre conseguiu perder a patente, pois Marconi se antecipou e ficou sendo o pai do rádio, mas na realidade na ótica e nos fundamentos Landell pode ser considerado seu pai, pois fez o que Marconi não conseguiu: transmitir a voz humana. 

Marconi ficou tão somente como transmissor do Código Morse. Meu pai se foi, mas sua presença querida está sempre comigo, pois quando olho para o meu Transglobe ele se transfigura e eu consigo conversar mentalmente com meu pai. Jamais deixarei de ouvir meu rádio querido, pois além de ser meu lazer, o transmissor da minha voz, ainda serve de lembrança da pessoa que mais amei na vida, meu saudoso pai. Virtude alta e sublime ninguém quer viver sem ela; é a liberdade, no entanto que exige muita cautela. Nas frases de Cornélio Pires se espelhem os profissionais do rádio deixando a pornofonia e a pornografia de lado e fora de combate, há muito tolo no mundo, fora do tempo preciso, não por falta de conselho, sim, por falta de juízo. Obrigado meu Deus.

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