Minha carreira no rádio

Eu tinha uns oito anos quando meu pai, numa ousada operação de endividamento, comprou o nosso primeiro rádio – um poderoso Zenith. Fez para ele uma prateleira na sala e minha mãe adornou-o com uma toalhinha de renda branca. Mês a mês, Seu José foi anotando a lápis, ali mesmo num canto da parede, as prestações (doze? quinze?) que ia saldando.
Por Flávio José CardozoAos amigos de “Caros Ouvintes”

O Zenith está entre os objetos marcantes da minha vida. Chamá-lo de objeto é quase um insulto, na verdade ele foi uma entidade mágica que, na leveza do rolar de um ponteiro, me permitiu transpor os limites da minha pobre vila do Guatá, escondida ali debaixo da Serra do Rio Rastro, para encontrar vozes e música mundo a fora.

Fui me familiarizando com a Nacional e a Tupi do Rio, a Record de São Paulo, a Farroupilha de Porto Alegre, a Belgrano de Buenos Aires. Daqui da terra, tornei-me ouvinte da Guarujá de Florianópolis, da Difusora de Laguna, da Tubá de Tubarão. Cultivei um prazer digamos patriótico: muito que ouvi em nosso Zenith “A Hora do Brasil”, com especial atenção para aqueles avisos aos navegantes, a voz grave falando no Cabo de Santa Marta e em misteriosas bóias de luz apagadas temporariamente. Como um andarilho do espaço, visitei estações de lugares sobre os quais minha imaginação não fazia a menor idéia, e me encantava e me frustrava com os impenetráveis idiomas que ia encontrando. A Terra não era redonda, a Terra era aquela caixa de madeira lustrosa.

Um dia me veio o sonho de ser locutor de rádio. Fazia o ginásio em Tubarão, pus-me a rondar a Tubá, que eu tanto ouvira. Meu pai era amigo de Edgar Lemos, um dos proprietários, e foi nomeado correspondente da emissora lá no pé da Serra. Se alguém da região quisesse fazer um oferecimento musical a algum aniversariante, meu pai seria o intermediário. Não me lembro de alguma vez ter sido procurado. Lembro é que, no dia em que fiz dez anos, ele ligou a Tubá a todo volume, na hora do almoço: duas músicas de Bob Nelson, o cantor cowboy que eu admirava fervorosamente, me eram oferecidas. Meu pai tinha prestígio para conseguir um oferecimento musical com hora marcada. Então, no ginásio, fiquei imaginando que a proximidade dele com a rádio pudesse abrir caminho para os meus planos. Mas eu era garoto demais para meu pai interceder por mim e muito tímido para, com minhas próprias pernas, ir até Edgar Lemos oferecer meus préstimos. O máximo que consegui na Tubá foi a permissão para assistir de perto às experiências de radioteatro que lá faziam. Eu ficava por trás de um vidro, perto do rapaz do som, acompanhando os artistas que liam de pé, diante de dois microfones, as suas partes em dramalhões baseados em músicas famosas como “Jalousie” ou “Jura-me”.

Feito o ginásio, fiquei um ano no Guatá e a idéia de ser locutor teve uma forte recaída. A Cruz de Malta de Lauro Müller, de propriedade da paróquia, foi a responsável. Eu ouvia os seus tangos e boleros, os oferecimentos, às vezes até a Ave-Maria. Valmor Jung tinha um programa chamado “Domingo Alegre”, em que se apresentavam calouros e artistas regionais já mais reconhecidos, como o Antoninho Gaiteiro, e eram sorteados valiosos prêmios à platéia, como latas de talco e pacotes de macarrão. Via-me locutor da Cruz de Malta, mais ou menos na linha de um César Ladeira, que diariamente deliciava o Brasil com “A Crônica da Cidade”, de Genolino Amado, na Rádio Nacional, ou de um Nino Prates, que eu admirava por demais fazendo a propaganda da Hepatina Nossa Senhora da Penha, na Tamoio. Era por aí, nessa companhia, que eu queria andar. Ah, minha timidez… Meu bom pai me disse que chegou a falar com o Monsenhor e que ele prometeu mandar me chamar para um teste assim que houvesse uma vaga. O Monsenhor morreu há uns trinta e tantos anos e quanto a mim, se o problema antes era ser garoto, agora já é o contrário, de modo que o mais sábio, a esta altura, é não esperar mais pelo teste na Cruz de Malta.

Teste cheguei a fazer em Florianópolis. Ali por 60, cursando o Clássico no “Dias Velho”, e sem emprego, e ainda com o vírus da locução incomodando, disputei uma vaga na Guarujá. Que droga, até que me saí bem, foi o que disseram, mas um outro se saiu melhor.
Depois ouvi muito a Diário da Manhã. Sabe Deus que colega o Antunes Severo e o Zigelli poderiam ter tido se eu ousasse ir lá também fazer teste e passasse!

Entendi que minha carreira no rádio tinha mesmo de ser a de ouvinte e a verdade é que nisso venho sendo bom e feliz. Diria mesmo competente. Numa época, tive radinho de pilha, não poucas vezes dormi com ele. Até hoje não ando de carro sem que vá sintonizado em alguma emissora. Com a maravilha da Internet, acoplei algumas muito boas no computador. Que requinte! De rádios que só tocam Bach, Mozart, Beethoven e companhia a outras especializadas em jazz, MPB, e tudo mais, o que há para ouvir é infinito.

O rádio Zenith continua ligado na minha vida.
(10.05.2005)


{moscomment}

Categorias: Tags: ,

Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *