Minha Primeira Vez…

selo-cronicas-da-desterroEu tinha quatorze anos e nunca fora ao Centro da Cidade sozinha. Sozinha é maneira de dizer, pois estava acompanhada de uma amiga minha. No ponto final, ali onde hoje fica a Casa do Povo, nos deparamos com um bando de homens de terno escuros e um grande estandarte vermelho com a seguinte inscrição: TRADIÇÃO, FAMÍLIA E PROPRIEDADE (que diabos era aquilo?).

Minha amiga foi imediatamente abordada por um senhor de bigode que lhe pedia para assinar um documento. Ela se recusou. Eu, muito oferecida, me ofereci. Ele disse: – Só pode maior de quatorze anos. Respondi: – Mas eu tenho quatorze anos! Tenho a mesma idade dela! Ele disse: – Deixa eu ver a certidão! – Eu não trouxe a certidão! Era 1968 e hoje eu posso imaginar que tipo de abaixo-assinado era aquele.

Sempre fui a baixinha da turma, daí que comprovar a idade era coisa corriqueira em minha vida. Anos mais tarde, bem no início da onda do politicamente correto e dos direitos das minorias, cometi uma gafe. Estava na fila do banco, atrasadíssima, quando, logo na minha vez – por que é sempre na “vez” da gente? – uma mulher morena se postou em minha frente, sem a menor cerimônia. Eu não segurei a indignação: – Senhora, o final da fila é lá atrás! Ela, cheia de si, respondeu: – A prioridade é dos idosos! Eu disse, indignada: – Mas a senhora não tem sessenta anos! (Sério: aquela mulher não tinha sessenta anos!). Ela vasculhou a bolsa… – Não precisa. Se a senhora diz eu acredito. – Faço questão, ela disse, praticamente esfregando o documento na minha cara. Ainda tentei fazer graça: – Tome isso como um elogio! Depois eu quero o nome do seu creme de beleza! A mulher me lançou um olhar fulminante enquanto o caixa gritava: – Próximo!

O tempo passou e parecer mais moça tornou-se uma vantagem. Pena que durou pouco! Há uma semana acabo de entrar na tal Terceira Idade. Ainda estou sob o impacto da constatação. Sessenta anos… Mas já?! Como todas as idades, ficar velha tem lá suas delícias: o João Antônio, por exemplo! Coisa boa é ser avó! Mas assusta pensar que, se Deus Nosso Senhor Poderoso, Querido e Muito Amado ajudar, tenho, na melhor das hipóteses, 1/3 de vida pela frente. Tantos planos, tantos projetos. Não vai dar. Vamos ter que negociar…

Um dia após meu aniversário a ficha caiu. A partir de agora eu “pago meia”! Putz! Fiquei tão empolgada com a descoberta que resolvi ir ao cinema. Me enfeitei toda tentando não parecer “ idosa”, e fui bem faceira pro shopping. No guichê o moço: – Meia ou inteira, senhora? Eu, toda exibida, carteira de identidade em punho: – Meia, por favor!

A-do-rei pagar a metade do preço. Não gostei que o moço não me exigisse a identidade, aquele grosso! Por desaforo, no dia seguinte furei a fila do banco.

P.S: Só mais uma coisinha: “Melhor idade” é o cacete!

Categorias: Tags:

Por Norma Bruno

Natural de Florianópolis/SC. É graduada em História, pesquisadora, cronista e escritora, autora dos livros A Minha Aldeia e Cenas Urbanas e outras nem tanto. Colecionadora de rendas de bilro e revistas antigas. Filha do radialista e técnico em eletrônica Lourival Bruno, gosta de ouvir rádio desde pequeninha.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *