Miopia da informação

A miopia é um distúrbio bastante comum no ser humano. Não sou oftalmologista, mas, na qualidade de míope, desde os onze anos de idade, aprendi que existem, basicamente, duas formas de resolver esse problema: uso de lentes corretivas ou cirurgia. Quem não optar por uma das duas, dependendo do grau da anomalia, não conseguirá enxergar direito à distância, e precisará que alguém lhe diga o que vê. Se essa pessoa for bem-intencionada, auxiliará da melhor forma possível; mas se for de má índole…

As coisas são mais ou menos iguais quando se trata do ato de informar, qualquer que seja a mídia: a imagem que vemos ou a informação que recebemos pode ser absolutamente verídica, mas, se o contexto for omitido, poderá ser leviana ou intencionalmente tendenciosa. Explico:

Vivi cerca de um ano na França, na década de 1980. Afora jornais e revistas que lia no consulado brasileiro, de Marselha, e correspondências e telefonemas esporádicos, eu sempre aguardava alguma notícia ou imagem do Brasil, pelas emissoras de televisão locais. Só tive sucesso em cinco oportunidades:

Primeira: Um jornalista francês entrevistou o magnífico ator Grande Otelo numa espelunca carioca, patética. O entrevistado estava visivelmente alterado e mal conseguia responder as perguntas. Qual era a intenção do entrevistador?

Curiosamente, uma das mais cortejadas e controvertidas personalidades artísticas francesas da época: Serge Gainsbourg – mais conhecido como autor da música “Je t’aime” -, comparecia a todos os eventos públicos: embriagado, mal vestido, falando palavrões e fumando um cigarro atrás do outro!

Aqui, era degradação! Lá, era “estilo”!

Segunda: Numa reportagem sobre os “bóias-frias” dos canaviais brasileiros, as cenas de pobreza e trabalho árduo eram entrecortadas com imagens de um empresário desconhecido, elegantemente trajado, confortavelmente acomodado num imenso e suntuoso escritório de um edifício paulistano, que exaltava a pujança do mercado de açúcar e álcool. Em compensação, o governo e a alta sociedade parisiense execraram o humorista “Coluche”, quando este implantou, com o apoio de outros artistas famosos, os “Restaurants du Coeur” (Restaurantes do Coração), destinados a oferecer calor e alimento aos sem-teto da capital francesa, que, descobriu-se, não eram poucos!

Terceira: Um comediante francês veio ao Brasil especialmente para cobrir o Carnaval. Como era de se esperar, ele deu ênfase exagerada à nudez das passistas! Pois é… Alguém, aí, já ouviu falar do Carnaval de Nice? Que o “top-less” é praticado sem problema nas praias francesas? Já passeou em Pigalle?
Aqui, é fraqueza moral, libertinagem! Lá, é cultura, liberdade de expressão!

Quarta: Jorge Amado recebeu uma homenagem da Universidade de Aix-en- Provence. Lá, sua obra era considerada como “retrato fiel” do Brasil! Por analogia: ele estava, para a França, como Carmem Miranda, para os EUA. Mas somos todos como os personagens de Amado ou usamos mangas bufantes e chapéus de frutas, como Carmem?

Quinta: A Copa do Mundo de 1986, e não podia ser diferente, pois eles adoram nosso futebol.

Todos os enfoques eram parcialmente verídicos, mas, qual poderia ser a imagem dos franceses sobre o Brasil a partir dessas informações? Qual o real objetivo dessa “miopia informativa”? Nós somos assim ou é assim que querem que sejamos vistos?

Não importa o caso, a informação é um bem de valor inestimável! Deve, portanto, ser fornecida com idoneidade e responsabilidade, pois, um boato, uma meia-verdade, uma leviandade ou uma intriga pode desestabilizar governos e países, deixar mercados “nervosos”, além de provocar desemprego e morte. Será que polêmica e notoriedade pessoal valem esse preço? Além disso, depois do “estrago” feito é difícil voltar atrás. Na maioria dos casos, não há retratações formais, direitos de resposta ou indenizações pecuniárias que compensem os danos provocados! E não adiante culpar a “fonte”, pois é de responsabilidade de quem vai a ela verificar se é “potável”, ou melhor, “pautável”!

Um antigo programa humorístico de rádio, num de seus quadros, representava uma emissora interiorana, que usava o seguinte bordão: “- Quando num tem notícia, nóis inventa!”. Para alguns maus jornalistas – e maus profissionais existem em todas as profissões! – isso é norma e meio de vida. Infelizmente, há quem lhes dê crédito, financiamento e cumplicidade; e não são apenas os tablóides sensacionalistas… Mas, para quem acredita que a imprensa deve estar a serviço da democracia, está claro e nítido que ela precisa ser como uma lente corretiva para a sociedade. Deve estar a serviço da verdade, pela verdade e para a verdade, sem tutelas ou patrulhamentos! Se não for assim, ela não passará de mais um elemento de manipulação, manutenção ou agravamento dessa “miopia”, a serviço, quase sempre, de interesses escusos!

Viva a liberdade de expressão! Mas viva também a idoneidade, a responsabilidade e o compromisso com a verdade de quem a exerce!

Afinal, nós precisamos saber das coisas!

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