Miramar (*1928 † 1974): Longe do mar, dentro da história

O que pretendo é puxar fios da malha burocrática e técnica que engendravam um novo perfil para a cidade na década de 1970, quando fervilhavam os ideários de modernização dos espaços urbanos, de substituição daqueles indicados como “velhos” e sem mais “serventia” pelo “novo”, considerado “moderno”.

O que suscitou uma pesquisa sobre o Bar e Trapiche Miramar nesta historiadora que não é natural de Florianópolis foi a construção na Praça Fernando Machado do “Memorial ao Miramar”, inaugurado em 2001. A obra tem por finalidade homenagear o antigo Trapiche que se localizava no mesmo lugar onde foi erguido o Memorial. Sem entrar nos “méritos” arquitetônicos, me questionei sobre a finalidade de tal obra para uma cidade que agora possuía o mar longe de suas praças principais (Praça XV e Fernando Machado), ou melhor, para uma cidade que cresceu sob os auspícios do comércio portuário e com uma íntima relação com o mar. A partir, principalmente da década de 1970, modificou-se a textura urbana com propósitos de modernização e o espaço recebeu outras significações. Contudo, nesse caso, trata-se de um passado destituído recentemente (1974) e que consta ainda na memória de muitos moradores.

Contudo, sob minha apreciação, a obra que propõe representar o estilo arquitetônico do antigo bar, não encontra “retorno” entre os habitantes da cidade, e, isto é um fato que requer reflexão.

Considerando que as marcas e sinais arquitetônicos e urbanos deixados pela cidade fornecem uma história que se traduz através das imagens, cujos significados expressam os costumes, hábitos, valores que representam o cotidiano de uma época , entende-se que a estética da referida obra não provoca uma “resposta”, não incita ao “diálogo”. Sim, por que o diálogo, uma espécie de conversa subjetiva relacional entre um “indivíduo” e uma antiga arquitetura da cidade é possível. Como a cidade é percebida diferentemente e de forma fragmentada pelos habitantes de um lugar, concomitante à busca do “auto-re-conhecimento” preservado no espaço da antiga morada, do antigo trabalho, do antigo bar, há um momento de escolhas, de seleção de imagens, de fragmentos, pois toda memória é essencialmente uma “re-construção do passado”, cumprindo um papel fundamental na forma como os diferentes grupos sociais percebem o mundo atual. 

O que pretendo é puxar fios da malha burocrática e técnica que engendravam um novo perfil para a cidade na década de 1970, quando fervilhavam os ideários de modernização dos espaços urbanos, de substituição daqueles indicados como “velhos” e sem mais “serventia” pelo “novo”, considerado “moderno”. É por este interstício da “cidade metamorfose”, que o velho Miramar protagoniza o palco desta pesquisa, como um “elo”, porque sua demolição, em 1974, apesar do regime ditatorial, causou muita polêmica entre vários grupos da população. Sua representatividade cultural e social deveria, segundo alguns, ter sido salientada e usada em favor do prédio que abrigou durante décadas (1928-1974) os acirrados debates que travavam os intelectuais, boêmios, jornalistas, escritores, artistas plásticos, cantores, radialistas, entre outros que molhavam a garganta com a “Brahma Rainha” ou com a “Pilsen Extra”. No entanto, para muitos outros, ele se tornou um estorvo, uma “negociação de preservação” sem propósito, pois tal arquitetura, além dos problemas estruturais que possuía, já não recebia em seus domínios, as classes mais privilegiadas da população, mas as mais desfavorecidas. A cidade, agora, crescia rodoviária, ou seja, mais veloz. Depois do glamour que o sustentou por décadas, o prédio foi perdendo sua importância diante da cidade rodoviária que se expandia, e agonizante, aquele que representou o “progresso” em 1928, serve, por um período, até sua definitiva demolição, em 1974, como teatro de arena, como ponto de aluguel de baleeiras, como ponto de ônibus, como estacionamento de carros, local de exposição das maquetes da nova obra rodoviária, entre outros.

Em vista da ampliação do desenho urbano por meio da construção do Aterro da Baía Sul em 1974, soterrou-se parte da história da cidade, ou seja, se destruiu o Miramar, porém, buscam-se nela, na própria história, como no velho Miramar, elementos para legitimar os projetos de remodelação e de modernização de Florianópolis. Apesar de sua demolição em 24 de setembro de 1974, aparentemente, este passado não foi bem “aterrado”, pois, o simbolismo do ato de rememorá-lo por meio de um “Memorial” pode estar incutido numa reflexão tardia sobre o valor histórico do atracadouro, remanescente de uma cidade portuária, de uma cidade que cresceu e se desenvolveu marinha. Numa reflexão sobre os ideários de modernização dos espaços urbanos, de substituição dos considerados “velhos” pelos “novos e modernos” observa-se uma “tentativa” de “manipulação”, de reacomodar, de rearranjo do passado através da construção de edificações e monumentos que visam homenagear esse passado. Considerando que a obra possui especificidades que não podem ser negligenciadas para a confecção de uma análise, a proposta de minha pesquisa, reconhecido o interesse historiográfico e não arquitetônico, é buscar elementos para identificar suas contradições e implicações na sociedade contemporânea que recebeu um passado redesenhado.

O Trapiche Miramar era, seguramente, um lugar representativo para a memória da cidade e sua demolição suscitou muitas controvérsias. No entanto, considera-se um fato “inusitado” homenagear, em 2001, um espaço de sociabilidades destruído, em 1974, através de uma “arquitetura estilizada” que segundo o órgão responsável, o IPUF – Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis – teve por intuito “resgatar este referencial florianopolitano desaparecido em 1974”. Esta frase chama a atenção desta historiadora. Primeiramente, por usar o termo “resgatar”, como se possível reabilitar referenciais silenciados e manipulá-los diante do temor do esquecimento. A sociedade historicizada, nesse movimento acelerado pelo “progresso”, destrói referências coletivas do passado e depois tenta restaurá-las por meio da produção voluntária de novos vínculos, como arquivos, monumentos, o que Pierre Nora chama de “lugar de memória”.  Muitas outras arquiteturas da cidade passam ou passaram por isso.

Este alternância da paisagem urbana se dá diariamente, como podemos verificar na Rua Felipe Schmidt com a recente remodelação do antigo “Ponto Chic” ou “Senadinho”, que nasceu por volta de 1950 substituindo o antigo Café Rio Branco. O lugar das assembléias dos patrícios para discutir política, futebol, memórias da cidade, minúcias do cotidiano, enfim o “senado para qualquer fofoca” está se desfigurando, se ressignificando, assumindo um sentido mais mercadológico. A herança cultural impregnada naquelas calçadas e bancos, onde a transmissão de uma notícia ou de um fato tomava proporções do “sagrado” contido na experiência, está entrando em descrédito, perdendo a excelência.

O Hotel Laporta, juntamente com o Miramar e o Mictório Público, formavam uma arquitetura que circundava a Praça Fernando Machado e que estão constantemente presentes nas narrativas sobre a cidade.

Claramente, são descritos pelos antigos moradores da cidade, como perdas. E são realmente privações de referenciais identitários de uma sociedade que, diante da cadência nervosa da modernização, se vê sem amparo. E com isso, o próprio sujeito se sente sumindo, desaparecendo, transforma-se num “fantasma”. Sem as concretudes que o construíram, que o ajudaram na sua formação como indivíduo, sem mais ver no panorama urbano, na cidade que se torna uma extensão do homem, a realidade que o forjou, que animou sua constituição.

Para o Bar e Trapiche Miramar muitos projetos nestes últimos 30 anos foram elaborados na tentativa de reconstruí-lo, de homenageá-lo, mas nenhum vingou verdadeiramente. Acredito, que o empreendimento atual, o “Memorial ao Miramar” possui qualidades mnemônicas sim: lembra à sociedade o empenho pelo aniquilamento da cidade provinciana, como também a carência de questionamentos da sociedade civil diante da nova espacialidade urbana que se reconfigura constantemente, que se sobrepõem e que absorve novos sentidos no âmbito da relatividade histórica. Por fim, penso que a modernização da cidade condenou o Miramar a ressignificação. Caso não tivesse sido demolido, estaria abrigando dentro da lógica atual uma outra função, como sugerido por alguns grupos e as lembranças das vivências naquele lugar, talvez se desvaneceriam e ele cairia num “lugar comum”.

Por outro lado, o ato da demolição que atordoa a tantos, não o deixa adormecer, ele vem sendo chamado, evocado nos últimos anos e representado em petit pavet, pinturas, gravuras, memoriais, entre outros, de formas diferenciadas para celebrarem sua memória.

3 respostas
  1. rafael says:

    toquei no pé de cristo? isso é uma piada?
    hehhahahahahahah tenho que rir das babozeiras que são enviados va e-mail.

    Cristo náo é um simples geso, ou alguém pregado num madeira, pois ele alguém que morreu e rescussitou e nao está lá como um palhaço, assim como vcs o tornem.

  2. Lange says:

    Pois é Rafael, apesar da livre opinião, eu tbém acho que muitas “babozeiras” são postadas, principalente, por quem, aparentemente não compreendeu a essência da matéria. Espero um proximo comentário tão rico qto este. um abraço
    Lange

  3. Carlos Alberto Pereira says:

    Lange, hoje 27/04/09 foi que tive a oportunidade de ler sobre o Miramar, é vc tem razão:Sou manezinho aqui da nossa linda e maravilhosa terra(Fpolis); Quando eu tinha 12 anos de idade lembro-me muito bem do Miramar pois nós iamos próximo a ele para pescar ou tomar banho de mar, era simplesmente maravilhoso e o curioso é que depois que li sua crònica que pude me lembrar que naquele ano de 1974 quando destruiram o Miramar não saiu nenhuma notícia ou algum defensour da natureza em prol do Miramar veio a reclamar da destruição do mesmo.
    Minha enorme indignação é que naquela época eu era um garoto de 12 anos mais se fosse hoje com certeza faria passeatas para não destruirem o mesmo.
    Valeu gostei demais de sua crônica.
    Beijos carinhosos.

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