Mirandinha, pianista das multidões

Mirandinha chegou à cidade (Florianópolis) em 1955 e fez sucesso nos programas ao vivo da rádio Diário da Manhã

Paulo Clóvis Schmidt

Foto Marco Santiago/ND

Mirandinha e Alcioney

Ele senta ao piano e dedilha canções que fez em louvor à Ilha de Santa Catarina, reforçadas por uma voz grave que lembra os grandes cantores do rádio. São letras que falam de um tempo sem pressa, das bandas e do carnaval ao redor da praça XV de Novembro, do footing, do Miramar, do “Chiquinho da Felipe” e da moça faceira citada por Zininho. Antônio Santos Miranda, o Mirandinha, que trabalhou com Moacir Franco e foi amigo de Nelson Gonçalves e Carlos Imperial, chega aos oitenta anos com a memória repleta e lembranças, sobretudo dos tempos áureos da Diário da Manhã onde atuou como pianista nos programas ao vivo que eram a sensação das décadas de 1950 e 1960.

Compositor, maestro e arranjador, Mirandinha chegou a Florianópolis em 1955 e foi tão popular que acabou sendo o pianista oficial do governo de Jorge Lacerda. Ganhou concursos de músicas de carnaval e comandou um grupo de instrumentistas que aumentava o calor da briga da Diário com a Guarujá, as duas maiores potências radiofônicas da época.

Como todo artista de talento também foi requisitado para tocar na noite e em ocasiões importantes para a cidade.

Em seu apartamento, Mirandinha guarda muitas fotos de amigos da época, nomes do rádio como Osvaldo Souza Miranda, Ciro Marques Nunes, Francisco Mascarenhas, Antunes Severo e Fenelon Damiani, o saxofonista Nabor Ferreira e os cantores Vininho e Daniel Pinheiro.

O que mais lembra do passado? “Sinto saudades das charretes da praça que me levavam para casa”, responde sorrindo.

Mais popular que Getúlio

As composições de Mirandinha, nascido no Paraná mas irremediavelmente fascinado pela Ilha, são uma série sem fim de expressões de admiração pela cidade que adotou. Elas falam da Copa Lord e da Protegidos da Princesa, dos morros do Tico-tico e Mocotó, do Santinho e da Lagoa da Conceição, de Cabeza de Vaca e Juan Diaz Soliz. E para não ficar só no passado, fazem referência à saga de Gustavo Kuerten e aos surfistas da Joaquina.

Canção do Regresso que ganhou o concurso de carnaval, ficou durante mais de 20 anos na boca do povo.

Casado com a cantora Alcioney Ávila, a Cininha, eles têm dois filhos e cinco netos e diz que seu casamento levou mais gente à Praça XV do que a visita que Getúlio Vargas fizera à cidade, anos antes.

Em 1989, ganhou o Troféu Manezinho, de Aldírio Simões.

A maior emoção da vida

Uma passagem marcante na carreira musical de Mirandinha foi durante um evento social que tinha a presença do governador Jorge Lacerda, na segunda metade dos anos 1950, em Lages. O baile foi interrompido por alguns instantes para que uma menina apresentasse um número de dança. Lá pelas tantas, a vitrola falhou, e a garota perdeu a concentração. O governador fez sinal para que o pianista desse continuidade à música que conduzia a bailarina em sua performance. Ele ficou sem ação, mas entendeu que precisava fazer alguma coisa. E começou a dedilhar “Fascination” (de Marchetti), valsa popularizada por Nat King Cole, permitindo que a garota concluísse sua apresentação. “O salão veio à baixo e Lacerda subiu ao palco para me abraçar”, conta ele. “Diria que aquela foi a maior emoção da minha vida”.

2 respostas
  1. Helder Miranda says:

    Felicidades por aqui caro amigo Antunes Azevedo, aqui quem fala é o neto do Mirandinha, Helder.. muito obrigado pela publicação e pelas palavras que aqui emocionam.

    um abraço

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