Miséria pouca é bobagem *

Já vivemos no inferno das BRs 101, 470, 282, onde o fim do mundo chega pra muita gente todos os dias.

Se o mundo tivesse acabado no dia 21, Santa Catarina ficaria inacabada. Nostradamus não tomou conhecimento desse quase invisível pedaço de terra no Sul do Brasil, mas o astrólogo inglês Edward Lyndo e dizia, em 1938, que a América Latina seria convocada a contribuir para restabelecer a unidade e a harmonia no mundo, tragado por guerras. Faríamos parte desse desafio? Com certeza, ele também não viu that piece of land, que os imigrantes transformaram em um grande estado, mas que seus descendentes políticos estão a destruí-lo.

As crenças escatológicas, equivocadamente atribuídas aos Maias, lançaram fogo sobre o planeta e nós, aqui escondidos do mundo, fomos duplamente punidos: por sermos humanos e por vivermos à reboque de sucessivas gestões públicas federais que, ao longo dos últimos 50 anos, não quiseram saber dos Catarinas. Já vivemos no inferno das BRs 101, 470, 282, onde o fim do mundo chega pra muita gente todos os dias.

Nas trevas dos hospitais, dos aeroportos, da insegurança nas ruas, em casa e em qualquer outro lugar, os Catarinas  acabam convictos de que o fim do mundo não lhes reservaria o céu. O sofrimento é grande demais para o menor pedaço territorial do Brasil, onde até frangos – acreditem – aos milhões morreram de fome nos aviários ignorados pela indústria de ração.

Estamos com a nossa autoestima em baixa, lá nos pés. Até grandes empresas comemoram seus aniversários em outro estado, lá em São Paulo, porque aqui são raros  os pássaros que gorjeiam como lá.

Com certeza o mundo não acabou neste 21, mas não podemos ter a mesma convicção de que os Catarinas estarão livres do inferno. A duplicação da BR-101 só se concretizará em 2017 e a concessionária Auto Pista Litoral bateu o pé, acionou advogados, bateu na porta da ANTT e novamente protelou o início da construção do anel de contorno na Grande Florianópolis. O aeroporto Hercílio Luz deve ficar pronto em 2015, mas o seu acesso, quem sabe, seja concluído em 2020. A Ilha é um glamour infernal, um lugar mitológico de desespero urbano e sem esperança.

Ninguém quer que o fim do mundo chegue, mas todos apelam aqui às bruxas de Cascaes para que em 2013 as maldições sejam desenraizadas da terra dos Catarinas. Mas, para isso, seria necessário expatriar, pelo menos, duas dúzias de políticos.

* Texto adaptado da crônica O fim do mundo em Santa Catarina, publicado no dia 21/12/2012 pela mídia local

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