Moça com gaiola

Foi justo no dia da primeira caminhada para os lados de Sambaqui. Uma mulher levando uma gaiola. Achou curioso, nunca viu mulher fazendo isso. Muitos homens desta ilha pegam seus sabiás, seus curiós, seus coleiras, e passeiam com eles pelas ruas, mas mulheres não, não é verdade? Ele ao menos nunca viu. Pois aquela ia de gaiola na mão, num andar onduloso, vagaroso, de quem pensa, e era uma cena bonita. Sobretudo porque era uma mulher bonita.
Por Flávio José Cardozo

Enganou-se. Não era um passeio, como o dos homens: ela apenas atravessou a rua e pendurou a gaiola com o sabiá numa das amendoeiras da praia. Em seguida, em passos ainda mais melancólicos, e não menos lindos, voltou para a casa que ficava ali defronte. Entrou, desapareceu lá dentro. De certo modo, ele se sentiu frustrado, pensou ter dado com uma descoberta lírica, no entanto parecia não ser mais que uma tarefa doméstica, o cumprimento quem sabe de uma instrução do marido que saía cedo para o trabalho e queria o sabiá, mais tarde, tomando sol diante da baía. Continuou a marcha, na volta não viu sinal da mulher, só escutou o sabiá dobrando, a cabecinha atenta ao ritmo da iluminada manhã.
Ficou com a imagem da moça, seria bem agradável revê-la. No outro dia, no entanto, encontrou a gaiola já na árvore. Noutro, ela não estava ainda posta, só a viu na volta. A dona era irregular nos seus horários. Em mais uma manhã, o sabiá já cantava na amendoeira e na janela da casa ele viu o rápido passar do vulto dela.
Deu-se depois uma semana de chuva em que não foi andar. E em que, naturalmente, o sabiá não tomou seu posto na árvore. Ele pensou apenas uma ou duas vezes na moça triste levando a gaiola. Só foi lembrar-se dela quando o sol voltou e reatou as caminhadas. Saiu com a convicção de que ia encontrá-la, sim, como da primeira vez, quando aquilo lhe pareceu esquisito e logo depois adquiriu um sugestivo, um delicioso toque pictórico. Saiu um pouco mais cedo nesse dia e ainda assim encontrou a gaiola já em seu lugar. Foi adiante e, ao voltar, teve a surpresa. Já de longe foi vendo que ao pé da amendoeira, olhando o mar, estava ela. Vestia-se de branco e estava descalça. O sabiá cantava, o bico apontado para além das ilhas Ratones.
Ele criou coragem e, fazendo-se alegre, perguntou:
– É de muita estimação esse sabiá, não é mesmo?
Ela assustou-se, não esperava aquele atropelo em seus pensamentos. Mas não ficou contrariada, chegou mesmo a sorrir.
– É, sim, é de muita estimação – respondeu.
O rosto, fixo nas lonjuras do Continente, sustou o sorriso ao terminar essa frase.
– Ia perguntar se não queria vendê-lo, mas já vi que não faz isso por dinheiro nenhum do mundo – ele mentiu simpaticamente, pois não pensava em comprar passarinho nenhum, queria apenas conversar com aquela mulher que se destacou nas suas manhãs de um modo assim inesperado.
– Por dinheiro nenhum do mundo… – murmurou ela. Tirou os olhos da distância e elevou-o à gaiola. O sabiá não cantava, alisava as penas. – Olhe, se o senhor quiser, lhe dou de presente.
Havia em seu olhar um relutante brilho de lágrima. Depois falou, apontando com o queixo o mundo lá longe:
– Quem cuidava mais dele…
E mais não disse, só disse que, por favor, o levasse. E o homem ia recusar, mas não teve coragem – saiu com o sabiá, na cabeça a boa intenção de lá adiante soltá-lo.
(Do livro Momentos, a publicar)


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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