Moeda do Futuro

Numa conversa com meu cunhado, ele profetizou que a moeda do futuro não será o dólar, o euro ou alguma “commodity”: Será a privacidade!

George Orwell já sugerira isso, em seu “1984”, e não faltam outros exemplos premonitórios, literários e cinematográficos. Aliás, o “voyeurismo” virou atração televisiva mundial, onde proliferam “reality shows” sobre os mais diversos temas, sob as mais variadas intenções.

E não é de hoje que tem gente que vende sua privacidade conscientemente, ou a tem invadida, involuntariamente. Há os que anseiam por notoriedade, fama, holofotes… Fazem absolutamente tudo para conquistar seu “espaço”, para, ao alcançá-lo, descobrir que, como na música de Belchior: “… qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”.

Precisamos ter muito cuidado com o que sonhamos e, principalmente, certeza se esses sonhos são realmente nossos e valem o preço a pagar. Preço que, para alguns, pode ser a perda da privacidade, da identidade ou da própria vida. Voltando à recorrer à ficção científica e visões futuristas, a séria “Jornada nas Estrelas”, nos apresentou à “romulanos”, “vulcanos” e “klingons”, representantes de limites extremos: da racionalidade absoluta, pela supressão dos sentimentos; à violência patológica, cultural. A terceira série, “Deep Space Nine”, nos apresentou aos “Quarks”, amorais que viviam única e exclusivamente em busca de “bons negócios”; e aos “Trills”, seres simbióticos, cuja “fusão” era considerada um rito de passagem, e o “hospedeiro” era meio de vida e movimento para um ser de centenas de anos. Mas, foi na segunda série, “A Nova Geração”, que surgiram os personagens mais complexos: os “borgs”.

Em verdade, eles eram uma “rede” interconectada: o que um via ou aprendia era automaticamente replicado para todos!
Humanos podiam ser transformados em “borgs”, passando a integrar uma consciência coletiva; serem ausência de , para ser apenas um terminal orgânico.

Assustador, não! Ficção? Seria, se não tivéssemos alguns exemplos humanos, como a “Juventude Hitlerista”, os “pioneiros” soviéticos e os seguidores de religiões, seitas, tribos e ideologias radicais, e, porque não, torcidas organizadas, para citar alguns exemplos. Em suma, gente que tem a sua identidade suprimida ou reprimida, voluntaria ou involuntariamente; sua privacidade sublimada. Esses personagens não são extraterrestres, mas caricaturas, metáforas, alegorias do que podemos encontrar em qualquer canto pequeno de nossa sociedade, mesmo na “mais alta” ou “tradicional”.

No entanto, a perda de privacidade nem sempre é decorrência de uma opção ou falta de opção de vida.
Na sociedade moderna, tipicamente urbana, alguns estudiosos, como o urbanista Kevin Linch, dos EUA, relacionam a perda de privacidade com o aumento da densidade demográfica. A partir de 30 famílias por hectare, “aparecem problemas com ruídos e intimidade”. No limite, acima de 450 famílias por hectare, “o espaço público congestiona-se totalmente”!

Janelas permanentemente fechadas ou revestidas com filmes translúcidos; como alternativas a vidas “filmadas”.
Total perda de privacidade! Câmeras nas ruas, lojas, condomínios, escolas…

Te protegendo? Pode ser…

Tirando sua liberdade? Com certeza! E, até, sua humanidade, também.
Alguém sempre pode estar monitorando seus atos e passos: “Big Brother”! Irmão “bastardo” de uma grande “família”…
Mas, não precisamos ser tão paranóicos!

A perda de privacidade se dá de uma forma bem mais “natural”: celulares, internet… Os futurólogos pregam que, dentro em breve, muito breve, a humanidade dará lugar à singularidade: simbiose entre ser humano e máquina: permanentemente integrados, diuturnamente conectados. Acionados ou refreados a distância, e, porque não, desligados por prazer, distração, vingança, inveja ou simples exercício de poder: “Matrix”!

Dizem que a vida imita a arte; que tecnologia e mágica são indistinguíveis…
Aliás, quem garante que para cada pesquisa submetida a conselhos de ética e protocolos, não existam dezenas de outras, anônimas e obscuras, feitas à revelia, servindo a interesses que fariam Jules Verne, Asimov, Clarke, Orwell e Huxley se sentirem alunos do Maternal?

Como meu cunhado vislumbrou, talvez a moeda do futuro seja, de fato, a privacidade: o direito de ser simplesmente o que se é, longe dos olhos de “voyeurs” orgânicos ou virtuais; sem precisar explicar ou pedir permissão para mentores, gurus, tutores, guias ou para o computador central.

Será que esse novo ser saberá o valor da privacidade? Terá, mesmo, noção do que isso significa?
Supondo que ainda haja espaço e desejo, que as pessoas sejam partes de um todo – a humanidade – mas preservem ainda algum sentido de individualidade, de livre-arbítrio: como serão os “créditos” e “débitos” dessa “nova ordem monetária”?
Creio que teremos que pagar, para ver… E esperar pelo troco!

Adilson Luiz Gonçalves

Membro da Academia Santista de Letras
Mestre em Educação
Escritor, Engenheiro, Professor Universitário e Compositor
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Por Adilson Luiz

Palestrante, compositor e escritor, autor de Sobre Almas e Pilhas (2005) e Dest’Arte (2009). Articulista e cronista, escreve em vários meios de comunicação no país. É Mestre em Educação, Engenheiro Civil, Professor Universitário e Conferente de Carga e Descarga no Porto de Santos/SP. Mantém o site algbr.hpg.com.br
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