Morre Nelson Cardoso, o criador do humorístico Banca de Sapateiro

Nos anos 50, o cotidiano urbano de Porto Alegre constitui-se na principal referência para o humor de uma das grandes atrações do rádio do Rio Grande do Sul. É o programa Banca de Sapateiro, criação de Nelson Cardoso, que aproveita o talento de Walter Broda para compor um personagem – profissional de couros, saltos e meia-solas – de voz característica, de início, em um meio termo luso-germânico, refletido no nome Franz Peter Barbosa, mas, com o tempo – e muito mais comicidade –, de predominante acento alemão. Por Luiz Artur Ferraretto

Na época, como registra Demosthenes Gonzalez no jornal Diário de Notícias, o programa, ao mesmo tempo em que faz rir, “funciona como o 22º vereador de Porto Alegre”, a denunciar, de modo satírico, problemas no calçamento das ruas, a ausência de iluminação nos bairros, a inexistência de policiamento, o deficiente abastecimento de água… Na segunda-feira, dia 7 de agosto de 2006, morreu o Nelson Cardoso que mobilizava tantas atenções cinco décadas atrás. Já não tinha a mesma influência e, é bem provável, fosse um desconhecido para as novas gerações que saem aos borbotões dos bancos universitários. Estas também não sabem, mas talvez lhe falte o brilhantismo e a criatividade deste profissional. Brilhantismo e criatividade presentes, por exemplo, no último grande trabalho de Nelson Cardoso no rádio. Foi, com certeza, na Rádio Gaúcha em meados da década de 80. A pedido de Flávio Alcaraz Gomes, então responsável pela emissora da Rede Brasil Sul, produziu uma série de programas e relembrou, com detalhes, a história da radiodifusão sonora neste canto do país.
A Banca de Sapateiro, que integrou o famoso Rádio Seqüência, o conjunto de atrações da Farroupilha levadas ao ar em torno do meio-dia nos anos 50 e 60, vale a pena ser lembrado. Ultrapassou as fronteiras do veículo e mantendo o caráter crítico, sem no entanto recorrer ao humor, chegou a se transferir para o Diário de Notícias,na forma de coluna diária de mesma denominação, embora de teor jornalístico. Deste modo, por exemplo, em maio de 1955, indo ao encontro das constatações de Demosthenes Gonzalez a respeito do programa, aparecem, na versão impressa, fortes críticas à situação das ruas de Porto Alegre.


Nelson Cardoso e a Banca de Sapateiro (1958).

No humorístico, conforme recordou o próprio Cardoso em entrevista ao Projeto Vozes do Rádio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, um bordão marca, na época, as críticas em torno das quais giram os enredos transmitidos pela Farroupilha:
– Então, o alemão, ele batia prego, batia prego… Literalmente, batia, porque ele levantava a sola do sapato, e batia com um ferrinho ou uma vara. Batia na sola do sapato para produzir um efeito. Batia na sola e, enquanto batia, dizia: “Entra preguinho, entra preguinho desgraçado…”. Se fosse hoje [final da década de 90], ele diria: “Parece mentira que ninguém acerta o orçamento deste país. Parece mentira que ninguém é capaz de segurar o tigre que tá solto pelas ruas deste país. Tá se matando gente como mosca. Entra preguinho, entra preguinho desgraçado…”. Então, ele fazia um comentário-base, editorial, que dava, então, o acesso aos outros personagens do programa.
A partir daí, interagiam o negrinho engraxate, na voz de Fábio Silveira a repetir outra frase de efeito – “Graxa, graxinha, vem chegando freguês…” –; o cliente chato e reclamão, vivido por Nelson Silva; o metido Doutor Superlativo, um pretensioso homem de meia idade, papel de Antônio Diniz; e a casamenteira Clarinda, uma pilantra solta na vida e procurando se ajeitar, interpretada por Nelita Aguiar. É o diálogo entre esta personagem feminina e o alemão Franz, tratado por ela de forma pretensamente carinhosa, que encerrava as conversas habituais no balcão da sapataria:
– Mas afinal, Barbosa, depois de todo esse papo aqui, quando é que a gente casa? A gente casa ou não casa?
Pergunta insinuante respondida, com ironia, pelo sapateiro de origem alemã em seu português gutural – de erres reforçados e tils anasalados – aproveitando ainda para salientar o tom de sátira do programa, ao destacar algum problema do cotidiano:
– Tá, Dona Clarinda, a gente casa, a gente casa, mas só depois que não acontecer nenhum assalto nas ruas de Porto Alegre.
O programa Banca de Sapateiro remonta ao final da década de 40, quando Walter Ferreira interpretava o personagem principal. Fez tanto sucesso que, após a transferência do ator para a Rádio Gaúcha, gerou uma cópia em que ele se transformava no alfaiate Fritz com o “Entra, entra preguinho…” substituído pelo “Corta, corta tesourinha…”. Em um lance de oportunismo, o então diretor artístico da PRC-2, Cândido Norberto, aproveitou a nova atração para compor o Tapete Mágico, transmitido das 20 às 21h. Na primeira meia-hora, incluiu um capítulo de novela; na segunda, repetindo no título o bordão, entra Corta Tesourinha. A dividir as duas partes, o comentário Pensando em Voz Alta, com a opinião de Cândido anunciada por Moonlight Serenade, sucesso musical da Glenn Miller Orchestra. O Corta Tesourinha estava lá a provar que a criação de Nelson Cardoso, de tão boa, merecia ser copiada.


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Por Luiz Artur Ferraretto

Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte. Formou-se em jornalismo pela UFRGS e começou a trabalhar no rádio. Doutor em Comunicação e Informação é professor do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul/RS. É autor de vários livros.
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4 respostas
  1. Lene cardoso says:

    è uma pena e uma tristeza imensa dentro de mim,
    morreu meu adorado Pai!
    o que mais sentimos,é que nem com a morte dele,”nossa família”se nao ofendo ninguem dizendo
    assim??nao nos tenham informado da morte de meu pai,avo e bisavo.Sim!fazía muito tempo
    qu nao havía contato entre nós,mais pelo menos,em um acontecimento como este,era de esperar
    que”minhas irmas”e” madrasta” Mariza Fernanda Mello Cardoso pelo menos nesta ocasiao nos informassen do ocorrído.
    Sentímos muito mesmo!e eu apesar de tudo Amei meu pai muiro!que todos fiquem sabendo e digam
    que fuí para ele a “ovelha preta”sómente porque nao aceitei viver em certos “cliches”que agora já nao sao “cliches”se nao uma forma emancipada que tive sempre como filosofía de viver,livre mais com o coracao cheio de Amor,por aqueles que sei que me amarao apesar de
    que sejam de outra opiniao…..
    Sim,morreu um homem,um professional que amava aquilo que fazía acima de tudo e o que fez
    foi real e autentíco mesmo!sempre!
    Meu querido Pai Nelson,aquí pelo menos te presto a ultíma homenagem,para que todos saibem
    o quanto te amei.Teus netos Roberto,Carla,teus bisnetosKiano,kenzo,Lorenzo e Lorena.
    Que lá no infinito,encontres a verdade que sempre me ensinastes,paz para teu espirito.

    Lene Cardoso.

  2. Lene cardoso says:

    para contatos lenecardoso@aol.com meus telefones =069/34828000 celular 015205183930 moramos
    em Frankfurt Alemanha,por favor se contato com minha irma Marcia Cardoso entregar estes
    enderecos para que ela se comunique conosco,estamos com m uita saudades dela em especial a sobrinha Carlinha.
    Um abracao a todos.
    Lene Cardoso

  3. Alzira Meyer says:

    A memoria e algo muito interessante. Sem saber como, algo me lembrou do program de radio Banca de sapateiro que eu escutava com meu pai quando era crianca. A unica parte que eu me lembrava ainda era da expressao entra preguinho e da conotacao politica.
    Entao, comecei pesquisar na internete ee cheguei neste web site. Seria interessante poder ouvir estes programas outra vez. Ele exixtem gravados? Talvez em algum web site?
    Obrigada pela reportagem, foi bom ler e relembrar.

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