Morreu Dakir Polidoro

Aldírio Simões

A Ilha, com seu sotaque e seu espírito cada vez mais aviltado, perdeu ontem o radialista Dakir Polidoro, que durante mais de três décadas comandou o programa “A Hora do Despertador”, um campeão de audiência que costumava acordar a cidade, conquistando tanta popularidade que acabou assumindo a cadeira de prefeito de Florianópolis.

Durante quase 35 anos, a pacata Florianópolis acordava às seis horas da manhã: “Tá na hora, vamos levantar, tá na hora…” Era assim, ao cantar do galo, que ele iniciava o seu bem sucedido programa nas ondas médias e curtas da ex-toda poderosa rádio Diário da Manhã. Com sinos e buzinas estridentes, a hora certa a cada cinco minutos, ele desfilava um bem temperado repertório de atrações com cheiro de “café aparadinho”, que lhe valeu o invejável título de campeão absoluto de audiência em Santa Catarina. Espirituoso, costumava formar frases de efeito: “O vento sul de hoje está desmoralizado, antigamente ele soprava durante dez dias seguidos”.

Dakir costumava se reportar com emoção sobre a cidade antiga, das casas geminadas do Beco do Segredo (Bento Gonçalves), das ruas empoeiradas e dos bares da cidade, dos quais foi freqüentador enquanto a sua saúde permitiu. Enaltecia, com uma ponta de orgulho, seus 35 anos de rádio, bem como o início de sua carreira, inaugurando o Cine Ritz, em 1943, trabalhando como operador de cinema, o seu primeiro emprego na estréia do filme “Lídia”, que era também o nome da esposa de Miguel Daux, dono do cinema.

E foi no Cine Ritz o primeiro contato com o microfone, onde fazia locução de cabine, anunciando a programação da semana. Acabou caindo nas graças dos Daux e ganhou um programa de auditório, o “Matinada”, criado por ele, aos domingos, às 10 horas, com a participação de Zé Catau, um festejado personagem de Waldir Brazil. A garotada invadia o Ritz, com direito a distribuição de gasosa, bombons e balas Uva do Norte, fabricado pela firma João Moritz.

Fez sua estréia no rádio nos microfones da Guarujá, onde ganhou experiência suficiente para ingressar na Difusora de Laguna, levado pelo amigo Hélio Kersten, com um salário invejável. Aos 20 anos, bonitão, gabava-se (Zininho dizia que nem tanto assim), fazia sucesso com as mulheres por conta de audiência de seu programa.

Em 1956 retornou à Florianópolis com o passe comprado pela Diário da Manhã, onde instalou-se definitivamente com a “A Hora do Despertador”, que começara em Laguna. Um programa de variedades, acima de tudo informativo, barulhento em função das tralhas que o comunicador manuseava. A Hora da Prece, com os padres Bianchini, Cardoso, Pedro Koeller, Pedro Martendal e Frederico Hobolt; a Banda na Hora, com os dobrados da banda da PM, muito samba, esporte, anúncios de nascimento e falecimento e direto da feira-livre, às quartas-feiras, o Quintanilha, um repórter inventado por ele, informava por telefone o preço de todos os produtos e os peixes que chegavam fresquinhos ao Mercado Público. A popularidade do programa deu a Dakir Polidoro um grande prestígio na cidade, e suas críticas sempre construtivas o aproximaram do xerife-delegado Trogilio Mello. Tornaram-se amigos e por conta dessa amizade Dakir tirou muito de seus ouvintes da cadeia.

Conhecendo a cidade como a palma da mão, pitadas de folclorismo fizeram parte da vida de Dakir. Certa vez, no balcão do bar João-Bebe-Água, ele teve a idéia de enterrar o faquir Heraclis, seu amigo, na pista do estádio Orlando Scarpelli, para promover um clássico. Como o seu time, o Avai, perdeu, ele, com seu grupo, deixou o estádio injuriado. Ao retornar ao bar, lembrou que esquecera do faquir enterrado: foi desenterrado literalmente roxo.
________________________________________
Aldírio Simões. Fala Mané. ANcapital, 24/1/2002

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *