Morreu Manoel Braga Gastal: o homem dos dois dedos de prosa

Muito se escreveu na imprensa de Porto Alegre sobre Manoel Braga Gastal, advogado, professor, político, desportista, jornalista e radialista falecido no domingo, dia 1º de abril. Conversei com ele em junho do ano passado pela última vez. Nas várias vezes em que o entrevistei, por fone ou pessoalmente, Braga Gastal sempre me surpreendeu.

Como político esteve ligado ao Partido Libertador, legenda tradicionalmente conservadora. Ao saber que, na mesma tarde em que conversávamos pela primeira vez, isto lá por meados de 1999, eu iria entrevistar Lauro Hagemann, seu ex-colega dos tempos da Rádio Farroupilha, mas dedicado militante comunista, pediu que eu desse um forte abraço no mais famoso Repórter Esso do Sul do país e sentenciou:

– Um adversário muito sério, pessoa de respeito e muito querido!

Horas depois, Lauro, da esquerda para a direita, repetia quase a mesma frase. Quando conversamos pela última vez, Gastal me falou da felicidade de morar em frente a uma praça que leva o nome do grande poeta e dramaturgo espanhol García Lorca, vítima do franquismo. E deu um show, declamando poesias em frente à sua casa. Estava, então, por completar 90 anos e se orgulhava de ser o jornalista mais velho em atividade no Rio Grande do Sul, escrevendo editoriais para o Correio do Povo.


Manoel Braga Gastal (1950).

Graças a Manoel Braga Gastal, consigo hoje imaginar como era o velho prédio da Farroupilha nos altos do viaduto que permite a Duque de Caxias passar sobre a Borges de Medeiros. Consigo também me deslocar por outras dependências da emissora, aquelas mais no centro de Porto Alegre, as da sua segunda sede. E é em homenagem a esta passagem dele pelo microfone da então PRH-2 que cabe lembrar duas histórias.

A primeira é de quando a família Flores da Cunha ainda controlava a emissora e o patriarca, ex-interventor e ex-governador do estado, encontrava-se exilado no Uruguai. Vamos então aos tempos do Estado Novo. Na época, para o palacete onde funcionava a Farroupilha, convergia a oposição a Getúlio Vargas. Neste contexto, chega do Uruguai um manifesto em que o general José Antônio Flores da Cunha reitera a sua firme decisão de voltar ao país para liderar um movimento contrário às arbitrariedades da ditadura. No início da noite, pela voz de Manoel Braga Gastal e pelo microfone da emissora, o general exilado vai falar ao estado e ao país. A cada cinco minutos, um locutor anuncia, criando suspense e chamando a atenção dos ouvintes:

– Aguardem, às 19h, uma importante informação política.

À tarde, o texto original intitulado Aos Meus Amigos do Rio Grande do Sul é reduzido para dois minutos e meio, levando em consideração o tempo a ser gasto pelos agentes da Delegacia de Ordem Política e Social, a polícia política, para o deslocamento da sede da Repartição Central de Polícia, no número 1.411, até o prédio da PRH-2, no 1.304, ambos na mesma avenida Duque de Caxias. Em seu livro Flashes de uma Vida, Braga Gastal descreveu a intervenção policial:

Mal chegara à metade do texto e já ouvia o barulho da pancadaria, embora a pesada porta acústica da cabina de locução filtrasse os ruídos de intensidade comum. Gritos ferozes, sons de móveis caindo, invasão dos estúdios, um inferno. Pelo visor de vidro vi passar voando uma estante de suporte de partitura musical da orquestra do maestro Salvador Campanella, diretor dos programas musicados da estação. Aumentei a velocidade da leitura, mas a proclamação me fora arrancada das mãos. Fui violentamente puxado para fora da cabina. Pude constatar, então, o que fez a fúria de beleguins – era como se houvesse passado pelo local um regimento da SS hitlerista. Estava ferida a austera emissora, de tantos serviços prestados nos seus três anos de existência (…).

Outro episódio envolve o comentário Dois Dedos de Prosa, que Gastal redigiu de 1948 a 1960. Admirador do parlamentarista Raul Pilla, que havia fundado o Partido Libertador, Gastal exercia, em 1954, um mandato como vereador pelo PL em Porto Alegre. Lidos pelo próprio radialista ou por um locutor, os textos seguiam à risca a orientação partidária. Defendiam um Estado que, no campo econômico, orientaria, estimularia e assistiria a produção, interferindo somente quando necessário ao bem comum e não concorrendo com a iniciativa privada. Nesta linha, o capital estrangeiro deveria receber o mesmo tratamento legal, fiscal e administrativo dispensado ao capital nacional. Os comentários, naquele período, portanto, criticavam, fortemente, o nacionalismo e outras atitudes do governo Vargas:

– Eu atacava, mas eu atacava dentro dos padrões, meus e da Farroupilha, com dignidade, com honestidade, com uma forma de dizer correta. Era opinião, bem sólida e consolidada, que esteve no ar por 12 anos.

Em 24 de agosto de 1954, após a divulgação do suicídio do presidente da República, um dos alvos da fúria popular seria o prédio da Farroupilha, totalmente destruído então. Na origem da depredação, para alguns, está a contundência daqueles dois dedos de prosa, força que o texto de Braga Gastal, se esteja contra ou se esteja a favor, não perderia com o passar do tempo.

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