Muito além do diploma

Formei-me na primeira turma da Escola de Comunicações da Universidade de São Paulo (USP). Além disso, sou associado há décadas do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. Apoio e aplaudo esse sindicato e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em tudo que essas entidades têm feito na defesa da profissão e da liberdade de imprensa, no sentido mais amplo dessa expressão. Ou quando elas protestam contra todas as violências de que têm sido vítimas os jornalistas em todo o mundo. Mas discordo da plataforma ideológica, orientada pela CUT e pelo PT, em especial quando defendem “controle social da mídia”, eufemismo para ocultar diversas formas de censura.
Não é o diploma de jornalista que faz o grande profissional.
E explico as razões de minha de minha posição contra a obrigatoriedade do diploma. Repito que nada tenho contra o diploma. Absurda é sua obrigatoriedade, como condição para o exercício da profissão. Quanto à formação do jornalista, sou até mais exigente do que todos os sindicatos, a Fenaj, a CUT, o PT e os deputados petistas que levantam a bandeira da obrigatoriedade do diploma de jornalista como condição exclusiva para o exercício da profissão.  O jornalista precisa de muito mais que um diploma de uma faculdade que, aliás, lhe dá pouco mais do que um alicerce de noções profissionais.
Cursei uma escola de bom nível, mas, afirmo-lhes, sem medo de errar, que, isoladamente, sem o complemento de outros cursos, muito mais específicos e profundos, o curso de jornalista que a USP (ou qualquer outra universidade brasileira) me poderia proporcionar não me permitiria exercer a profissão nem especializar-me nas áreas em que atuo (jornalismo científico e tecnológico).
Se dependesse apenas do diploma de jornalista, eu teria muita dificuldade para me especializar, para ascender profissionalmente, para aprimorar a qualidade do próprio jornalismo brasileiro nas áreas em que tenho escrito.
Os oito semestres do curso de graduação, mesmo com outros anos de pós-graduação na área de jornalismo que cursei, não me permitiriam conhecer o mínimo sobre telecomunicações, tecnologia da informação, eletrônica, física de estado sólido e outras áreas correlatas. A maior mentira, portanto, é acusar-me de defender a degradação da qualidade profissional dos jornalistas.
Quero uma formação muito mais completa para os jornalistas, mais diversificada, que lhes permita especializar-se, inclusive os oriundos de outros cursos superiores – como médicos, engenheiros, sociólogos, historiadores, cientistas políticos, físicos, químicos e outros – para que possam exercer com competência a profissão, além de dominarem a linguagem e outras técnicas básicas da comunicação.
Não é o diploma de jornalista que faz o grande profissional. Tive vários colegas na USP que abandonaram o curso de jornalismo e se tornaram grandes jornalistas. Querem um exemplo? Ricardo Kotscho, um dos maiores repórteres que este País já conheceu. Será que algum defensor da reserva de mercado teria a coragem de negar a Ricardo Kotscho o direito de trabalhar como jornalista?
O bom jornalista é aquele que nunca deixa de estudar, de ler, de atualizar-se, de aprofundar-se em sua especialidade, de aprimorar seu estilo, sua linguagem e sua cultura. Seu sucesso profissional não dependerá em nada daquele diploma que a faculdade lhe deu, se ele não fizer sua lição de casa, voltar outras vezes para a sala de aula, participar de seminários, conferências e congressos.
Assim como apoio a Fenaj em todas as lutas legítimas em defesa dos jornalistas, considero uma bobagem sem tamanho a sua afirmativa de que a falta de diploma de jornalista “desprotege o exercício do Jornalismo ético e responsável e destitui da sociedade seu direito à informação com qualidade”.
Não estamos defendendo o registro profissional sem curso superior. A grande utilidade dos cursos de jornalismo deveria ser reconhecida em nível de pós-graduação. Outra questão é a ideia de crossmedia, combinando todas as novas formas de jornalismo (gráfico, eletrônico, virtual e outros), que exigem cada dia mais qualidade e diversidade.
Poucas atividades humanas são mais diversificadas e variadas do que o jornalismo. Como todo jornalista especializado, sou obrigado a viajar, estudar, frequentar seminários e ler tudo que puder para me manter atualizado em minha área. Existem centenas de especialidades diferentes de trabalho e cobertura jornalística, cada uma com suas exigências. Como achar, então, que um único curso profissional básico possa suprir a todas essas exigências e, ao mesmo tempo, ser obrigatório para todos?
Estaria disposto a dar meu apoio a um projeto que exigisse sempre mais das novas gerações de jornalistas. Além de um curso superior, seja na especialidade em que o profissional se dispõe a trabalhar ou em áreas afins, o jornalista deveria ser permanentemente estimulado a fazer cursos de pós-graduação e de extensão universitária no jornalismo (com toda a diversidade de meios e formatos que a evolução tecnológica nos impõe atualmente).
Gostaria que a Fenaj, meu sindicato, a CUT, o PT e todos os congressistas de Brasília lutassem para que o jornal em que trabalho não estivesse, como está, sob censura há mais de 600 dias. Acho estranho, portanto, que um documento da Fenaj, afirme, textualmente, que “além de uma mídia livre, independente e pluralista, é fundamental que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário não negligenciem em seu papel de coibir iniciativas que comprometem as liberdades civis e a democracia”.
O Supremo Tribunal Federal acertou em sua decisão em junho de 2009, ao acabar com a exigência do diploma como requisito para o exercício do jornalismo. Retrocesso seria se, por uma emenda constitucional, o Congresso restabelecesse aquela obrigatoriedade. É pura demagogia dizer que o diploma obrigatório assegura mais qualidade ao jornalismo. Em muitos casos, é exatamente o oposto.
Outra bobagem é dizer que as empresas jornalísticas preferem jornalistas sem diploma, menos qualificados. Nesse aspecto, a Fenaj tem argumentado que, sem o diploma obrigatório, as empresas contratariam os profissionais menos competentes, para pagar baixos salários. É um raciocínio tão absurdo quanto afirmar que a indústria automobilística prefere contratar operários ou gerentes incapazes. Ou que uma empresa de consultoria prefere contratar economistas ou sociólogos incompetentes. Ou que as faculdades de jornalismo sérias e de alto padrão estão interessadas em contratar professores ignorantes “para pagar baixos salários”.
Para a Fenaj, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC 33/2009, de autoria do senador Antônio Carlos Valadares e relatoria do senador Inácio Arruda, e a PEC 386/2009, de autoria do deputado Paulo Pimenta e relatoria do deputado Maurício Rands) “por um lado resgatam a dignidade dos jornalistas brasileiros e contribuem para a garantia do jornalismo de qualidade”.
Não é verdade. A tecnologia está mudando o mundo. E o jornalismo não poderia estar a salvo de grandes transformações. Quando concluí meu curso de jornalismo, em 1970, a revolução digital era quase ficção. Naquele ano, o mundo não conhecia microcomputadores, nem TV digital, nem Blu-ray discs, nem iPads, nem smartphones, nem redes de banda larga, nem a internet.
Basta lembrar que, para um milhão de jornais e revistas e 5 milhões de emissoras de rádio e TV, o mundo tem hoje mais de 150 milhões de blogs. A maioria deles faz jornalismo eletrônico, virtual, mas com a mesma natureza do jornalismo tradicional. E os podcasts, que funcionam como uma forma de radiojornalismo na web.
Por que propor uma reserva de mercado tão retrógrada e anacrônica, que só pode favorecer aos medíocres, que não querem competir? As tentativas de retrocesso nos convencem de que precisamos exigir muito mais de nossos sindicatos, de nossa federação e nosso Congresso.

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