Muito prazer, Guarujá!

Desde bem pequeno, aprendi a gostar de rádio mais do que de qualquer outro veículo de comunicação. No entanto, devo confessar que essa paixão tinha esfriado, principalmente pelo que vinha ouvindo nas emissoras de Florianópolis. Há muito tempo, não era mais a minha cidade que estava no dial. Não era mais a minha gente, a minha realidade. Não reconhecia mais os sotaques que invadiam meus ouvidos, falando sobre um engarrafamento na marginal do Tietê ou uma reunião ministerial em Brasília.

Concordo que, em um mundo globalizado, é importante saber o que está acontecendo por aí. Mas e o trânsito na avenida Hercílio Luz? E as articulações políticas no centro da cidade? Onde ouvir a escalação do meu time para o jogo da próxima semana? O rádio não trazia mais informação sobre a capital catarinense, quem quisesse que fosse buscá-la em outros meios.

Felizmente, ainda há esperança. No mesmo mês em que completa 70 anos de atividade, a rádio Guarujá AM (1.420 KHz) lançou nessa quarta-feira (22/05) sua nova programação, com ênfase na produção local. Já de manhã, ao sair de casa e ligar o rádio do carro, recebi notícias fresquinhas como um bom café da manhã. E antes de chegar ao meu destino, fui surpreendido com o comentário de Laudelino Sardá, opinando sobre assuntos da cidade ao mesmo tempo em que costurava sua narrativa contando deliciosas histórias e causos locais. Tive que esperar ele acabar sua participação antes de começar a trabalhar, não sem antes receber do próprio a promessa de que estará todos os dias tornando meu começo de manhã menos pesada.

O mesmo Sardá, bem acompanhado por Chico Lins e Emílio Cerri, me fizeram companhia depois do almoço, enquanto levava as crianças para o colégio. No cardápio, mais Florianópolis, num bate-papo descontraído e agradável. E, no final da tarde, outro debate, dessa vez esportivo, falando sobre o dia dos nossos clubes. Perfeito.

Quero deixar claro que não sou avesso a outras culturas, pelo contrário. Entendo que são bem vindas e apenas engrandecem àqueles que têm a oportunidade de conhecê-las. O que me incomoda é a extinção da cultura local em prol de outra, empurrada goela abaixo dos nativos sem qualquer possibilidade de reação. A Guarujá, aparentemente, está remando no sentido contrário e isso merece ser louvado.

Ainda falta bastante coisa, é verdade. O site da emissora, por exemplo, não passaria pelo crivo de uma criança impúbere. Não levaria mais que algumas horas para melhorá-lo sensivelmente e mostrar uma emissora mais moderna e antenada. O mesmo vale para a participação nas redes sociais, quase nula à exceção das contas particulares de alguns funcionários no Twitter.

Quanto aos profissionais, algumas novidades (ao menos no rádio) e outras figurinhas carimbadas. Gostaria muito de ouvir vozes novas, com opiniões diferentes – e ainda tenho esperança de que isso aconteça. Alguns ajustes certamente serão feitos, mas a iniciativa merece aplausos. Eu, que não conhecia mais a emissora que só retransmitia notícias de São Paulo, hoje me sinto como se estivesse sendo novamente apresentado a ela. E, pela primeira impressão, posso dizer “muito prazer, Guarujá!”.  Que consiga manter o fôlego, ajustar os detalhes necessários e voltar a ser uma referência no rádio florianopolitano. Nossa gente agradece, embevecida.

Pra finalizar, apenas como ilustração, reproduzo abaixo um anúncio publicado em 1993 na imprensa local, quando a Guarujá completava 50 anos e ainda era uma referência em radiodifusão para os “manezinhos”. Na época, a frequência em ondas curtas ainda estava em operação. Que sirva de estímulo para que a emissora volte ao lugar de onde não deveria ter saído:

Fonte: www.memoriaavaiana.com.br

1 responder
  1. Diogo says:

    Amigo Marcelo, concordo contigo sobre o site da emissora (http://www.radioguaruja.com.br/) necessite de uma boa melhorada. Entretanto, ele é uma boa pedida pra quem quiser ouvir a rádio em computadores, tablets e celulares já que disponibiliza sua programação em “streaming”.

    Parabéns pelo texto muito bem construído, dá prazer de ler.

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