Muito prazer, Mino

Estou no saguão do prédio em que trabalho, o edifício Casa do Barão, onde ficam as instalações do Ministério Público catarinense. Venci, há pouco, uma rotina desgastante, em uma semana que não passou, que preferiu se arrastar vagarosamente e me trazer com ela até esse sofá.

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Estou à espera de um amigo. Vamos jogar um café para dentro e uma conversa para fora. Mas a verdade é que já estou em São Paulo e não mais nesse sofá, nem daqui a pouco no café da esquina. Estou mentalmente há algum tempo por lá. Eu e a minha ansiedade. Lembro-me que meus sonhos profissionais já pertenceram a Sampa, hoje habitam Florianópolis comigo. E assim será sabe-se lá até quando.

Mas como eu ia dizendo, agora estou em Sampa, a cidade em que não existe amor, segundo o rapper Criolo. Mas essa afirmação é controversa. Existe, sim, amor em SP. Serei recebido na cidade pela mãe de uma amiga. Na descrição dela, um lugar humilde e acolhedor. É claro que existe amor em SP. O que não existe ultimamente é água. Vou conhecer a famosa cidade sem água. Há quem diga que isso será viciante! Isso o quê? Viajar. “Viajar vicia”, disseram alguns amigos meus.

Não sei. Nunca fui muito apegado a viagens. Sempre as neguei. Outro dia, porém, lacrimejei os olhos pensando que forças ocultas resolveram desafiar minhas convicções. Meu mundo está um pouco maior e meus objetivos profissionais requerem uma ida a São Paulo.

Mas por que São Paulo? Se há tanta contraindicação, por que São Paulo? Pois bem, eu começo a pensar que São Paulo me escolheu e não o contrário. Vou obedecer à sentença do meu futuro. Dar os passos que eu escrevi. Vou me abrir para uma viagem longa, que será curta.

Uma horinha. Os amigos que já desafiaram o medo de andar de avião (algumas pessoas têm medo disso, sim) disseram-me que é rapidinho. Falaram, também, para eu não temer turbulências e para apertar mesmo os cintos nesse caso. Não estou com medo. Eu já me acidentei em cima de uma motocicleta e fiquei vivo. Meu joelho doeu pra cacete. Se me acidentar de avião não vai sobrar tempo pra dor. Eu não sei porque estou falando tudo isso. Deve ser receio de principiante. Normal.

O embarque é hoje (já foi). Meio-dia já estarei na selva de pedra (segundo fontes confiáveis) e terei a tarde e o domingo para explorar a cidade. Não conheço nada por lá e, portanto, não tem como eu me perder, já estarei o tempo todo perdido. O tempo todo encarando o novo e o desconhecido.

Jornalista tem lá suas vantagens mesmo. Alguns de nós somos pagos para descobrir o novo e contar sensivelmente os principais detalhes aos outros. Eu não. Para isso, estou tendo que desembolsar uma grana. Mas pouco importa. Está sendo um investimento e tanto. O dinheiro ficará para sempre na memória. Aliás, o dinheiro uma ova, o dinheiro vai para a companhia de avião e para o comércio local mesmo, e eu vou ficar com o desconhecido, com a experiência.

Na segunda-feira, a coisa vai ficar séria. Tenho de finalizar o roteiro de perguntas. Será a minha mais rica experiência profissional até aqui. E isso me assusta. Eu consegui realizar uma das tantas ousadias que idealizei. Estou no caminho da conclusão. Talvez eu tropece no português, talvez esqueça alguma pergunta, talvez desmaie à frente do entrevistado, talvez perca o voo de volta para Floripa, enfim, muita coisa pode dar errado, mas tenho uma certeza que me traz uma descomunal tranquilidade.

Na segunda que vem, eu disse segunda-feira, aquele dia mais chato da semana, às quatro e meia da tarde e depois de ter pisado na redação de CartaCapital, ficarei frente a frente com meu entrevistado e então iniciaremos uma conversa que durará cerca de uma hora. Eu não sei qual será a primeira pergunta, mas a primeira coisa que vou falar, desconsiderando a possibilidade do desmaio, será: muito prazer, Mino Carta!

Texto: Nícolas David | Revisão: Tatiana Wippel | Edição: Rafaela Bernardino | Imagem: Leonardo Contin da Costa

Publicado originalmente no Estopim Periódico

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