Mulheres

selo-cronicaPedreiro, nunca ouvira falar de Simone de Beauvoir, Hannah Arendt ou Rosa de Luxemburgo. E nem de Virginia Woolf ou Sylvia Plath. Clarice Lispector, Nélida Piñon, Raquel de Queiroz? Não, não era dado a livros. Até aí, tudo bem, deixara a escola aos 12 anos para ajudar o pai nas construções e pegou professoras que lhe empurraram Machado e Alencar goela abaixo, sem didática e anestesia. Fazer o quê? O problema era outro. Quando lhe disseram que Indira Gandhi foi uma estadista, torceu o nariz e fez cara de quem passava ao largo dos acontecimentos para além do paralelo 27.

Evita Peron era coisa de argentino, não devia ser levada a sério. E a monarquia britânica, que inventou aquelas rainhas caquéticas, só podia ser sinônimo de anacronismo – embora nem essa palavra ele conhecesse de fato.

Mesmo que tivesse referências vagas, dessas que chegam pela tevê, nunca simpatizou com Golda Meir, Margareth Thatcher, Angela Merkel, Cristina Kirschner, Dilma Rousseff. E menos ainda com Condoleezza Rice e Hillary Clinton, que têm o defeito extra de serem norte-americanas. Achava oportunista a projeção que conseguiram primeiras damas como Carla Bruni e Michelle Obama. Tão ou mais oportunistas, perdoava as “marias-chuteiras”, que engambelam os peladeiros, e tomou o caso do goleiro Bruno como exemplo da burrice masculina.

Angela Amin, Ideli Salvatti, Kátia Abreu, Luiza Erundina, Soninha Francine, esse mulherio era doido, devia voltar pra cozinha, onde já se viu se aventurar pela política, pela administração pública, pela vida! Fazer conchavos, embolsar algum, dizia ele, era para machos. Mulheres não nasceram para isso.

Dias atrás, descobriu que a aldeia dos guaranis em Palhoça passara a ser comandada por uma mulher. Era o fim da picada, uma índia cacique mandando naqueles homens portentosos – agora talvez nem tanto, pois já estão mais fraquinhos e vulneráveis às enfermidades de gente branca.

Em maio, por conta de compromissos na Trindade, soube que a Universidade Federal era capitaneada por duas reitoras, depois de 50 anos dirigida por senhores cheios de títulos e pose. E mais, que uma mulher estava se candidatando à prefeitura de Florianópolis, cidade desde sempre chefiada por homens, cada um com seu rosário de pecados e escorregões. E o mesmo valia para São José e outros municípios do Estado e do país.

Pensando bem, e com tantas evidências de que os tempos estão mudando, ele, pedreiro dos bons, nas últimas conversas de bar, começou a reconsiderar, a dar o braço a torcer…

Paulo Clóvis | Editor Opinião | Jornal Notícias do Dia | 48- 3251 -1437 | skype:paulo.clovis | twitter: pc_ND

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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