Murilo José, o ‘Narrador da Camisa Amarela’

Nasceu em Joinville (SC), em 17 de dezembro de 1942 e morreu em Florianópolis (SC), em 24 de setembro de 1989. Quando Murilo José Flores Lino nasceu, no dia 17 de dezembro de 1942, o jornalismo radiofônico vivia um de seus momentos mais importantes e o futebol um dos mais tristes.

Astros e Estrelas | Enciclopédia do Rádio Esportivo Brasileiro

Bárbara Dias Lino

Acervo da família. Caros Ouvintes, 1960

Enquanto a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, comemorava o sucesso do primeiro rádio jornal brasileiro, o “Repórter Esso”, e a Rádio Tupi, de São Paulo, levava ao ar o “Grande Jornal Falado Tupi”, o Brasil lamentava o cancelamento da copa do mundo da Fifa, marcada para aquele ano e inviabilizada pela Segunda Guerra. Ironicamente – e talvez não por acaso, o menino que nascia nesse contexto, filho de Dorival da Silva Lino e Marília Flores Lino, nutriria ao longo da vida duas grandes paixões: as ondas hertzianas e o futebol. Na adolescência, “Caju” – como era conhecido na época – jogava bola e trabalhava na loja de materiais de construção do pai, na Rua Conselheiro Mafra, no centro de Florianópolis. No futebol, chegou a ensaiar certo profissionalismo no time juvenil do Figueirense, onde ficou até os 18 anos.

Aos 19, continuou nos gramados, mas não como jogador. Iniciou na Rádio Anita Garibaldi, como repórter esportivo. Logo, tornou-se narrador, e entre rádios da capital e do interior trabalhou na Guarujá?, Diário da Manhã, A Verdade, Santa Catarina, Rádio Cultura (Joinville), Tubá (Tubarão), Rádio 26 Abril (Imaruí?), entre outras.

Por onde passou, Murilo era lembrado pela personalidade forte e a forma especial de narrar. Chamavam a atenção, a sua ótima dicção, com “esses” e “erres” bem pronunciados, o jeito correto, rápido e firme de falar, e a voz que não era nem empostada, nem fina.

No mundo do esporte recebeu o apelido de “Narrador da Camisa Amarela”, surgido em Joinville, quando descobriu que a rádio concorrente lançaria um uni- forme amarelo. Murilo, da Rádio Cultura, então passou a usar em todos os jogos uma camiseta dessa cor. Os donos da outra emissora, diante da provocação, acabaram desistindo do novo uniforme e Murilo arrumara um problema: conseguir tantas camisetas amarelas para ir aos jogos. Por sorte, as malharias joinvilenses decidiram presenteá-lo permanentemente com essa peça de vestuário.

No rádio, além da narração de jogos, tinha um programa vespertino musical, na Rádio Guarujá?. Murilo atendia telefonemas de ouvintes e conquistou uma legião de fãs. A viúva do narrador, Eli Jovelina Lino, conta que, um dia, Murilo

???????chegou em casa com um saco grande cheio de cartas, algumas inclusive com declarações de amor. Por causa da grande popularidade, chegou a apresentar um programa sertanejo na TV Cultura de Florianópolis, estrelado pelos amigos Portãozinho e Porteirinha.

Em certa ocasião, Murilo perdeu o voo para chegar a um jogo que aconteceria na Argentina. Como solução, voltou para casa, montou uma espécie de cabine, ligou uma rádio nos fones de ouvido e realizou a transmissão como se estivesse no Estádio. Enquanto isso, a rádio concorrente anunciava exclusividade, afirmava serem eles os únicos catarinenses presentes e denunciavam Murilo de plágio. Como prova, o narrador rival decidiu parar de falar no meio do jogo, certo de que a concorrência pararia também. Para a surpresa do concorrente, Murilo continuou falando. O que ele não esperava é que Murilo estivesse ouvindo, na verdade, uma rádio Argentina e conseguisse fazer a transmissão sem interferências.

Inteligente, esperto e sagaz, esquivava-se sempre de situações difíceis com maestria: resolvia problemas, ia atrás de patrocínio e quando algo não lhe agradava não pensava duas vezes antes de jogar tudo para o alto e começar outra vez. O principal adversário de Murilo José sempre foi mesmo a saúde frágil. Os graves problemas de circulação o deixaram em estado grave diversas vezes, e sempre que as crises passavam ele retornava o mais rápido possível ao trabalho. Murilo morreu em setembro de 1989, aos 47 anos, após um sangramento no esôfago durante um jogo de futebol. Em nenhum momento pensou em parar de trabalhar e até o fim fez aquilo que mais gostava.

Referência

Depoimento de Eli Lino, viúva de Murilo José, à jornalista Bárbara Dias Lino, neta do narrador, em 12 de abril de 2012.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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1 responder
  1. Geraldo Silveira de Andrade says:

    Li atentamente o comentário sobre a vida do saudoso Murilo José.
    Na condição de cidadão ilhéu, e acompanhando sempre o “nosso futebol”, tive a oportunidade de ouvir, por inúmeras vezes, os jogos por ele narrados. Na minha modesta opinião, o nome de Murilo José, tem o registro como sendo um dos melhores narradores do nosso Estado, e até, acredito, configura-se como um dos maiores narradores do sul do Brasil.
    De suas passagens por várias emissoras de nosso Estado, recordo-me de suas passagenns pelas rádios Jornal A Verdade e Rádio Guarujá, ocasião em que na primeira montou uma uma Equipe Esportiva, que liderou a audiência esportiva em nossa Capital.
    Enfim, Murilo José foi um narrador esportivo – diria – impecável.
    Sua última narração, aconteceu nos microfones da Rádio Guarujá, quando de um jogo que envolvia o Figueirense e um time de Santa Cruz do Sul – RS, cujo nome no momento não me recordo ..(perdoe-me a imprecisão).
    Por fim, um abração aos familiares de Murilo José.
    Ouvinte,
    Geraldo.
    Florianópolis – centro

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