Na era do rádio – 2

Ilha de Meu Som | Do rádio à música

Márcio Santos

Aos poucos, vou conhecendo as obras-primas de Dilermando Reis, Cartola, Pixinguinha, Waldir Azevedo e tantos outros, além das composições de meu avô e dos demais participantes. São quase dez horas e chega ao fim mais um encontro dos amigos músicos, que se despedem e combinam novo encontro para a próxima semana.

Enquanto meus avós os conduzem até o portão, esgueiro-me e volto ao quarto com a alma cheia de sonhos: um dia, eu também tocaria um violão como meu avô ou o “Seu” Pinheiro, e cantaria igual ao “Seu” Lalinho.Também tinha curiosidade em conhecer “Seu” Ribeiro e seu regional ou “novos” chorões como um tal de Catão ou Zequinha, que estavam começando, mas que eram tão bem citados pelos nossos visitantes noturnos.

Miramar: ponto central dos ônibus "Circular"

No amanhecer, acordo ainda bastante sonolento, com o vozeirão do vizinho Athos Jacinto cantando sucessos de Ray Charles durante seu banho ou com o rádio preto de marca Phillips tocando músicas regionais, sintonizado por meu tio Orivaldo, enquanto prepara-se para mais um dia de trabalho no Banco INCO. Ainda era brindado por outro vizinho, Joel Lemos, com árias de óperas e canções italianas.

Minha tia Ceia faz o café da manhã e o padeiro deixa, no parapeito da janela, pães quentinhos e crocantes; o leiteiro já havia passado e entregue dois litros de leite fresco.

Está na hora do colégio, mas antes de sair de casa para “pegar o Circular”, ainda dá tempo para ouvir algumas canções populares, já que minha tia sintonizou o aparelho na Rádio Nacional do Rio, onde a disputa de Emilinha Borba e Marlene mostra-se cada vez mais acirrada! As vozes de Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves, Ivon Cury, Cauby Peixoto, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Miltinho, Elza Soares, Francisco Carlos e tantos outros complementam o cast.

Ao meio dia, ao chegar a casa, o programa preferido é “Almoçando Com Música”, recheado de canções instrumentais, misturando Chopin, Severino Araújo, Glenn Muller, Sidney do piano, Tommy Dorsey etc.

E o rádio continua, durante a tarde, com o dial passeando pela Rádio Anita Garibaldi, Diário da Manhã, Guarujá, A Verdade, Nacional e Tupi do Rio ou de São Paulo, Cultura de SP e outras, dependendo da preferência de cada um dos avós ou dos tios, que passeiam entre radionovelas, programas de auditório, futebol…

No único horário que me sobra, entre 17 e 18 horas, ouço radio aventuras como “Jerônimo, O Herói do Sertão” ou “O Sombra”, cujos temas jamais esquecerei.

À noite, quando não ha futebol, sagrado para meu avô, novamente meu tio Orivaldo pilota o dial entre clássicos, sertanejos, jazz…

Porém, quando a estática é exagerada e o aparelho nega boa recepção, é a vez de meu tio Odney e eu sentarmo-nos na cozinha, apenas iluminada pela réstia de luz que vinha da sala de jantar, e cantarmos Jackson do Pandeiro e Willy Nelson, experimentando fazer a “segunda voz”; foi ali que aprendi a fazer os primeiros duetos, tudo à capela.

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