Na era do rádio – 3

Ilha de Meu Som | Os sonhos, a busca

Saindo do transe, decepciono-me ao ver-me em pleno século XXI e, em minha última viagem ao passado, sinto-me ainda entrando nos anos 1960 quando a praga da TV ainda não havia invadido nossos lares, permitindo-nos essa convivência com a música da forma mais pura e natural. Até ali, só conhecia os artistas pelas fotos e reportagens da revistas semanais Manchete, Cruzeiro, Fatos & Fotos e da Revista do Rádio, e lembro-me de minha tia bordando as faixas de “Rainha do Rádio” para Emilinha Borba, enquanto manifestava sua indignação pela vulgar Marlene julgar-se “a tal”!

Lúcio Cabral (E), Dino Souza, De Maria e Altair Castelan

Naquele tempo, quem estudava no turno matutino tinha aula aos sábados das oito às 10 horas e quem estudava à tarde, das 10 ao meio dia. Naturalmente, sempre quis estudar à tarde, pois detestava acordar cedo, mas minha família preferia que o fizesse pela manhã.

Pois foi num desses sábados, quando perdi o ônibus das 10h10min e tive que voltar a pé do Colégio Imaculada Conceição (na Rua Esteves Júnior) para casa que, passando pela Praça XV de Novembro avistei muita gente na porta da Rádio Diário da Manhã (onde hoje está a agência Bradesco da praça XV) e resolvi ver o que estava acontecendo.

Subi a infinita escada, abrindo caminho no meio da multidão que se aglomerava em seus degraus e, quando cheguei o topo, deparei-me com um auditório, também lotado, frente a um palco onde minha vizinha Alda Jacinto contracenava com outros atores de radionovelas, enquanto o contraregra Manuel Bruno, um pouco mais atrás, desempenhava seu papel frente a uma mesa com microfones, serrotes, cascas de coco, sinetas e outros objetos estranhos.

Após a radionovela, o pianista e maestro Aldo Gonzaga e músicos como o contrabaixista De Maria, Tida na bateria, Altair Castelã ao piano, Nabor no sax) acompanhavam o cantor Helinho (imitando Miltinho), Neide Maria (depois Neide Mariarrosa) na linha de Elizeth Cardoso, e os novatos Jairzinho, Helena Martins…

O tema de abertura (“… amigos, está no ar, Sequências A Modelar”) ajudou a popularizar seu compositor, Zininho.

O Programa chamava-se “Sequências A Modelar”, e foi ali que reforcei a decisão de ser um músico!

Apesar das reprimendas da família, continuei a frequentar aquele auditório todos os sábados e ainda fui brindado por meu tio Orivaldo que, algumas noites, me levava para o estúdio da Radio Anita Garibaldi, onde produzia e fazia a locução de um programa radiofônico sobre temas de filmes. Foi lá que conheci um iniciante com um timbre único e inconfundível chamado Fenelon Damiani, que mais tarde vim saber ser irmão do Diquinho, operador de som da Diário da Manhã.

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Por Marcio Santos

Músico profissional na Ilha de Santa Catarina há 40 anos. É autor do livro Ilha de meu som que está sendo publicado em capítulos pelo site Caros Ouvintes sobre a música local a partir da década de 1960. Sonhador, luta contra a perda diária que sofre a identidade musical deste “pedacinho de terra perdido no mar”, como disse o poeta Zininho.
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