Na escola

A menina era um doce, tirava boas notas, e aos sete anos já estava alfabetizada. Mas faltava muito, e só não foi reprovada porque a professora levou em conta o seu desempenho, muito acima da média da classe. A mãe, que nunca havia aparecido na escola, resolveu tirar satisfações porque a pequena estivera na iminência de rodar por excesso de faltas. – Ela não veio porque vocês fizeram greve – acusou, encarando os presentes. Era o típico caso de mãe ausente, que não acompanha a performance dos filhos, mas que tem por esporte falar mal da escola, sempre que pode. – Demos aulas nos feriados, e vamos ficar até janeiro – explicou a professora. – Ela faltou por sua causa. Você nunca se interessou pelos estudos da menina.
A mulher ficou nervosa, e retrucou que não fora avisada do expediente nos feriados.

– É porque você não lê os recados que mando – reagiu a mestra. – Estou avisando desde abril que ela vem faltando, e nunca obtive resposta. Você também não vê os cadernos, não sabe como ela vai nas aulas, não comparece às reuniões. E agora me desculpe, tenho mais o que fazer.
A mãe ficou vermelha, quis partir para a agressão. Foi contida pela diretora, pela secretária, pelo vice-diretor, pela orientadora pedagógica.
Mais tarde, chegou um pai que tem a mania de ensinar o padre a rezar missa.

– Com crianças de sete anos, tem que ser assim e assado, não dá certo ensinar como vocês fazem. É preciso usar o método tradicional, o ba-be-bi-bo-bu, o rato roeu a rede…

– Meu caro – retrucou o vice-diretor –, seu filho está há três anos aqui e ainda não consegue construir uma frase. Com ele, não há método que dê certo se vocês, pais, não ajudarem, não derem uma força em casa. Seu discurso não pode ser aplicado hoje em dia, e muito menos no caso de seu menino.Foi mais uma confusão, o homem queria falar com a professora, com ares de quem estava disposto a quebrar tudo, se preciso fosse. O pessoal do deixa disso evitou o pior. A mestra cogitou registrar um boletim de ocorrência na polícia, porque não foi a primeira vez que o sabichão apareceu com fórmulas prontas e tom beligerante na escola.

Na semana seguinte, um homem com uniforme de policial chegou na porta da sala, falou grosso, queria conversar em particular com a professora, disse que trabalhava na favela e conhecia gente do tráfico que ditava as normas em outro estabelecimento de ensino da redondeza.

Foi a senha para a professora. Ela ligou para o chefe da polícia, entregou o valentão e foi embora, para nunca mais voltar.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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