Na palma da mão (*)

Felipe entrou no carro fulo de raiva consigo mesmo: “Vai ser tímido assim lá no raio que te parta, sua anta!”, pensou. De fato, era impressionante a sua falta de jeito com o sexo oposto, sobretudo quando o tema era relacionamentos afetivos. Quando não faltava assunto, cometia gafes primárias, esbarrava nas coisas… Enfim, um fiasco total, um desafio à ciência! A coisa havia chegado em tal nível que ele, já pouco apto e afeito ao “ataque”, agora temia até ser “atacado”… – Aquela figurinha deve ter sonhado quando me disse aquilo! – esbravejou. 

A “figurinha” a quem ele se referia tinha a ver com um episódio ocorrido alguns meses antes, quando ele estava em férias na Europa:

Ele caminhava pelas ruas de Lisboa, quando uma menina de não mais de dez anos aproximou-se dele e estendeu-lhe a mão…

Ele não gostava de dar esmolas, ainda mais para crianças, mas não pôde deixar de notar o brilho misterioso de seus olhos, contornado por um belo sorriso infantil e longos e lindos cabelos negros. O rosto contrastava com o vestido anacrônico, cheio de babados e rendas, que ela usava.

Sem tirar as mãos dos bolsos – a vida em metrópole o condicionara a ser cauteloso – ele resolveu dar uma de bom samaritano:

– Você está com fome? – perguntou-lhe em tom amigável.

O aceno afirmativo confirmou.

Ele olhou em volta, procurando o restaurante mais próximo e que aparentemente oferecesse menos restrições à prática de boas ações. Mesmo assim, como estava em território estrangeiro, entrou preparado para as reações adversas de praxe.

Felipe percebeu que garçons e frequentadores observaram a menina e torceram o nariz… Se havia uma coisa que ele não suportava era discriminação!

O garçom que o atendeu tentou insinuar algo, mas Felipe foi lacônico:

– Vamos comer e sair! Eu me responsabilizo pela menina. – E comandou a refeição.

Meio a contragosto o atendente tomou o pedido, olhou em torno, balançou a cabeça, levantou os ombros e seguiu até o balcão.

A menina observava Felipe com um sorriso entre surpreso e curioso, mas ele se fazia de desentendido. Torcia para que a refeição chegasse logo. Tímido como era não gostava de ser observado.

Sofia – esse era o nome da menina – estava realmente esfomeada, mas o manejo ágil dos talheres não a impedia de manter uma animada conversa. Seu sotaque era peculiar, mas ele não conseguiu identificá-lo; afinal, o dele, ali, também não era tão comum assim.

Quando ela terminou a sobremesa repetiu o gesto de estender a mão na direção de Felipe que, desta vez, retribui acreditando que era assim que sua pequena companhia expressava seu agradecimento. Qual não foi sua surpresa quando ela tomou sua mão, espalmou-a e passou, com expressão concentrada, a percorrer seu dedo indicador pelas linhas da pele…

Felipe gelou! Queria puxar a mão, mas estava como que magnetizado e sem reação. Assim ficou por alguns segundos que pareceram uma eternidade, até que Sofia, em tom doce, mas seguro, começou a falar:

– Você é um homem bom e vai ser muito feliz! Mas só encontrará o amor verdadeiro e definitivo que procura depois de um sofrimento profundo que o deixará sem rumo, por um tempo, e que ele ajudará a curar!

Felipe, refeito aos poucos, pensou: “A timidez não deixa de ser um tipo de sofrimento…”.

Quando Sofia soltou sua mão ele perguntou, meio contrariado, quanto aquilo havia custado… Para sua surpresa ela sorriu, batendo com a mão na barriga.

Felipe pagou a conta; deixou uma boa gorjeta para o garçom que, apesar do alerta inicial, os havia atendido cordialmente; e, juntos, saíram do restaurante. Mal pôs os pés na rua, a menina disparou alegremente para o outro lado da rua, onde um grupo de mulheres e crianças, todas meninas, aparentemente a esperava.

Pouco depois, todas se levantaram e seguiram seu caminho…

Felipe as observou por algum tempo, o suficiente para ver Sofia despedir-se dele com um novo sorriso e aceno, que ele retribuiu.

Quando as perdeu de vista ele coçou a cabeça e ficou a pensar no ocorrido.

Ele lhe havia feito um bem sincero, e Sofia havia retribuído com o que podia; mas, as palavras da menina não saíam de sua mente: “… sofrimento profundo… amor verdadeiro… ajudará a curar!”. Tirando o “sofrimento profundo”, seria muito bom se aquele presságio se realizasse!. No entanto, aquilo parecia um sonho inatingível a considerar por suas experiências anteriores. E ficou ali, parado, absorto, até que percebeu a presença de alguém ao seu lado: era o garçom!

– Bem se vê que o senhor não é patrício! – afirmou o homem. – É preciso ter muito cuidado com esses ciganos, mesmo com as crianças!

“Ciganos!”, só então Felipe se deu conta da razão do sotaque e das roupas “diferentes” de Sofia.

– O senhor teve muita sorte! – completou o garçom, despedindo-se e retornando ao restaurante.

“Preconceito é um saco!”, pensou Felipe. Já ouvira falar muita bobagem tendenciosa sobre esse povo, mas nunca havia tido contato com um deles, ainda mais com uma criança. Nessa primeira ocasião – talvez por não atinar ou estar distraído – não havia se sentido ameaçado em nenhum momento, a não ser quando Sofia “leu” sua mão… Mas era por outros motivos!

Mas lá estava ele de volta ao outro lado do Atlântico, de novo às voltas com sua “cruz”: a timidez! Havia saído de mais um malfadado encontro onde, para não perder o costume, tudo havia dado errado: Derrubar a taça de vinho no lindo vestido branco da moça justificava a meia dúzia de impropérios que ela proferiu, com muita classe, no restaurante da moda…

Dirigindo pela cidade, sem destino, ele não se poupava: “Tu devia doar teu cérebro para a ciência seu mula manca! Quem sabe descubram o gene que te faz ser essa toupeira e criem uma vacina para curar os outros, antes que cheguem no teu estágio!”. De vez em quando, sua raiva era tanta, que ele esmurrava o volante e o teto do carro.

Ele entrou na avenida principal com cara de poucos amigos, mas um grupo de ciganas, que atravessava a rua, chamou sua atenção. Improbabilidade das improbabilidades, ele observou-as como se Sofia pudesse estar entre elas… “Só faltava essa!”, balançou a cabeça, esboçando, pela primeira vez, um leve sorriso.

Esse lapso de distração foi suficiente para que ele não notasse o caminhão que o fechava… Felipe freou, desviando o volante…

Evitou o choque com o caminhão, mas não conseguiu desviar do poste…

Aos poucos ele foi recobrando os sentidos. Sentiu o corpo todo dolorido, sobretudo a cabeça. A visão estava turva e ele ouvia um som monótono, repetitivo e incômodo. O cheiro que sentia não era ruim, mas também não era bom.

“Não parece o céu, mas também não é o inferno!”, concluiu dentro das possibilidades.

Quando as “nuvens” se dissiparam ele realizou que estava num quarto de hospital. Ao lado da cama uma bela mulher de jaleco branco observava o que parecia ser seu prontuário, enquanto apalpava suavemente sua perna.

– Bom dia! – ele falou, sem ter certeza do horário.

Para sua surpresa ela reagiu assustada e deixou a prancheta cair de “bico” sobre a virilha dele que, pelo volume sob o lençol, demonstrava que aquela região de seu corpo não havia sido afetada pelo acidente, muito pelo contrário…

– Ai!!! – ele gritou e contorceu-se, para desespero dela, que o socorreu, gaguejando desculpas.

Passada a dor, por incrível que parecesse, era ele que tentava acalmá-la, o que conseguiu pouco depois.

Refeita, ela aproximou-se, ainda sem jeito, para examinar sua cabeça e olhos. Seu perfume era delicioso!

– Como se sente, “seu” Felipe?

Pela primeira vez na vida ele sentiu-se seguro para responder a uma pergunta tão “íntima”, nas circunstâncias, para uma mulher. Estava imobilizado e, portanto, não corria o risco de ser desajeitado.

– Dolorido! Como estou? – perguntou ansioso.

A médica franziu a testa, com olhar irônico, e começou a relacionar a lista de “estragos”:

– Vejamos: Um corte profundo na cabeça, perfuração no peito, costelas quebradas, fratura na perna… – e completou, com um sorriso maroto: – Acho que vou fazer uma tese de doutorado sobre você! Mas não se preocupe: nosso necrotério está sem vagas!

Felipe não conseguiu conter o riso, apesar das dores que sentia. Então, ela complementou, em tom, subitamente, profissional:

– Você precisará ficar no hospital por alguns dias. Em seguida virão as seções de fisioterapia… Mas o prognóstico é excelente! Não haverá sequelas neurológicas ou ortopédicas. – Ela parou por um instante para em seguida prosseguir: – Você fuma ou bebe?

A resposta de Felipe foi duplamente negativa, recebida com um leve e dispersivo sorriso. Ele nunca havia se sentido tão bem e natural…

– E o meu carro?

O olhar dela ficou sério: – Perda total! Você deu muita sorte!

– Foi tão feio assim?

Ela assentiu com a cabeça, mas, com a expressão mais leve, tranquilizou-o:

– Mas já passou, Felipe! Os traumas foram profundos, o tratamento vai ser um pouco longo, mas eu estarei acompanhando sua evolução: sou a ortopedista encarregada!

Felipe fixou os olhos nela, ao lembrar as palavras de Sofia: “… sofrimento profundo… amor verdadeiro… ajudará a curar!”.

– Será? – balbuciou.

– O quê?

Nada… Nada… – e continuaram a conversar animadamente, nem só sobre o acidente…

Naquele instante, do outro lado do Atlântico – já distante de Lisboa -, Sofia, a pequena quiromante, lia a mão de uma turista, quando seu estômago roncou e ela sentiu uma incontida vontade de sorrir…

Esta semana excepcionalmente sem áudio.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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