Não era ela

Alberto além de tímido costuma cometer gafes, daquelas que fazem a alegria dos amigos. Dois desses amigos se chamam Mário. Um é casado com Olívia e o outro com a Lígia. Alberto já havia ouvido falar que o amigo Mário havia tido um AVC e estava muito mal. Certa manhã, Otávio, um amigo que trabalha na mesma empresa falou a respeito do Mário:

– Deus que me perdoe, Alberto, mas viver como o Mário está vivendo… Ah, é triste dizer, mais valia morrer. E a esposa dele então; pobre mulher. Tão linda, simpática, ativa; agora está virada num zumbi. Tens visto eles, Alberto?

– Não. Na verdade estou há meses adiando uma visita, não sei o que dizer nem como agir; pobre Mário e pobre esposa. Que sofrimento, hein.

– Eu tenho visitado eles a cada 15 dias. Vai lá, rapaz. O importante é dar um abraço, comparecer, dar força. E quanto a falar ou o que dizer, deixe o coração falar, isso é tudo que ela precisa. Faz uma força e vá até lá, Alberto. Não vai se arrepender.

Alberto já tinha visto Lígia na rua umas duas ou três vezes, mas teve receio de falar com ela e acabar dizendo alguma bobagem, afinal de contas, Otávio havia observado bem, a mulher estava com uma péssima aparência; até parecia um zumbi mesmo. Alberto pensou, pensou e pensou, mas o que dizer àquela pobre mulher? Ficou tentando encontrar algo de bom.

Mário nem melhorava nem piorava. A cada dia aquela rotina de ter as fraldas trocadas pela esposa, receber comida na boca e toda uma situação pra lá de difícil, Mário não caminhava e nem falava. A esposa vivia 24 horas por dia em função de Mário.

Numa noite de domingo vem a notícia: Mário havia morrido. Os amigos pediam perdão a Deus porque embora tristes com a perda aquilo seria um alívio para o casal.

Alberto não foi nem ao velório nem ao enterro, não sabia o que dizer.

Uma semana depois ele viu aquela mulher com com olheiras e sinais de cansaço e sofrimento bem na sua frente dentro de um supermercado. Havia chegado o momento, pensou Alberto, tenho que dizer algo de bom. Eles se cumprimentaram e Alberto falou:

– Oi Lígia. Sinto muito pelo que aconteceu, sinto muito mesmo, mas a situação estava insustentável, tanto para você como para ele. Sei que está triste é não é para menos, ele era um homem, um cara, um sujeito sensacional; todos o adoravam. Mas a verdade é que ele estava sofrendo muito, estava agoniado havia muito tempo. Todos nós sabíamos, mas não podíamos falar. Na verdade o Mário estava vivendo um verdadeiro inferno. Ninguém merece o que ele passava no dia a dia. Pense pelo lado positivo, agora ele está num lugar melhor; provavelmente mais feliz e em paz. Veja por esse lado. Pense no bem dele.

Com os olhos tentando segurar as lágrimas, Lígia falou bem alto, sem se importar que o supermercado estava lotado:

– Seu vagabundo, ordinário, nojento, falso; vocês são todos iguais. Então todos sabiam, não é? Ah, coitadinho do Mário. O mundo seria um lugar bem melhor se vocês não existissem.

Lígia se afasta e dezenas de pessoas fixam os olhos em Alberto que tenta entender no que errou dessa vez.

No dia seguinte Alberto estava no trabalho e sentia um ardor no peito, não sabia se de vergonha, frustração ou sabe-se lá o quê. Sentiu que precisava desabafar, entender o luto de Lígia.
Alberto chamou em particular o amigo Otávio e disse:

– Otávio, meu amigo. Ontem encontrei Lígia. Sei que ela está sofrendo e tentei falar com ela, mas Lígia me tratou tão mal. Foi ríspida, diria até, grosseira.

Otávio, com as mãos na cintura, disse ao amigo Alberto:

– Não é para menos, convenhamos. A Lígia é uma mulher incrível. Linda de rosto e de corpo, inteligente, bem formada, educada, trabalhadeira, e que companheira, que esposa, a mulher que qualquer homem gostaria de ter. E o Mário estava a traindo havia pelo menos 7 anos e com uma prima dela. Já tinham até um filho de 3 anos. Quando Lígia descobriu e da pior maneira foi à loucura. Ela pegou os dois em flagrante, na cama deles, da casa deles. E pra piorar o safado do nosso amigo Mário ainda disse que ele estava vivendo um inferno casado com ela, que ninguém merecia aquela vida, que ele agora iria para um lugar melhor e teve cara de pau de dizer que todos sabiam que sua vida era um inferno, e que ela deveria ficar feliz por ele. Pode isso, Alberto? Ele era meu amigo, era. Bem, mas por que essa cara? O você disse a ela?

– Otávio, você me disse que o Mário havia morrido!

– E morreu, há mais de uma semana. Aquele sim era um casal e tanto. Ele estava sofrendo muito e sua morte foi um descanso, mas Olivia cuidaria dele por 100 anos se fosse preciso. Se amavam e se respeitavam. Coitadinha da Olívia, por mais que sofresse em ver o Mário daquele jeito ela cuidava dele com amor. Mas que cara é essa, Alberto, o que foi afinal que você disse à pobre da Lígia?

– Não era ela. Não era ela a viúva – Disse Alberto com a mão no peito.

 

 

 

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