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Não era eu

Era uma manhã de segunda-feira; poderia dizer que aconteceu com um amigo ou usar um dos personagens dos meus contos e crônicas, mas a verdade é que aconteceu comigo e ao mesmo tempo, garanto, não era eu. Explico.

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Uma agência de banco no bairro Estreito, parte continental de Florianópolis, ali ocorreu um encontro prá lá de inusitado.

Eu estava na fila; devia haver umas 20 pessoas na minha frente. Homens, mulheres, jovens e eu, na ocasião com vinte e poucos anos. De repente, um rapaz de pele morena, aparentando pouco mais de vinte anos, mais ou menos a minha idade passa a me olhar. A princípio pensei ser um olhar largado ao horizonte. Quem nunca foi abordado pela esposa, noiva ou namorada enquanto viajava nos pensamentos dos tempos mirando uma paisagem lá longe, tal como uma ilha, e por uma coincidência da vida no exato momento em que a esposa, noiva ou namorada nos chamou, nos tirando de lembranças da infância ou do apreciar do horizonte havia, pela mais pura coincidência uma mulher na direção dos nossos olhos, muitas vezes de biquíni, acabamos ouvindo a dura e injusta crítica, do tipo: “Perdeu os olhos? Quer levar prá casa?”. Isso quando não ocorre um silêncio indecifrável; afinal de contas, que culpa tinha aquela pobre coitada de passar de bíquini bem à nossa frente quando a mente estava bem mais longe? Não foi isso o que pensei do rapaz que me olhava sem mover os olhos. No momento o cumprimentei com a mão direita, como quem diz um, oi. Mas ele não respondeu e manteve os olhos fixos em mim.

Aquilo me aqueceu o corpo e deve ter deixado meu rosto vermelho; creio ter o direito de explicar o aquecer o corpo. Fiquei constrangido, O rapaz alto, talvez com mais de 1,80, me olhava com muita atenção. Olhei para as pessoas na fila para me certificar de que ninguém mais havia notado a situação, a cena. Parece que todos acompanhavam nossos olhares, o que me deixou com mais calor de um súbito constrangimento.

De repente o rapaz vem em minha direção. Fiquei ainda mais nervoso, não que tivesse algo contra ou a favor do rapaz, mas depois de um olhar prolongado e seus passos em minha direção; agora chegava a ansiedade. Nesse momento estava claro que as cerca de 20 pessoas ou já um pouco menos na fila haviam notado algo, mas notar o quê? Ele chegou bem perto de mim e depois de um largo sorriso me cumprimentou com muita educação e alegria.

Meu coração disparou, não por ele, mas a situação era embaraçosa. AÍ vem uma parte da revelação, ele disse:

– Como tu estás rapaz, que saudades. Estás trabalhando onde? Como estão teus pais?

Agora o constrangimento era outro. Pelas perguntas do rapaz ele me conhecia, ou seja, nós nos conhecíamos, mas de onde e desde quando? Eu não lembrava e isso me atormentou por incontáveis segundos. As pessoas na fila já olhavam com certo desprezo, afinal de contas o rapaz que me olhara havia se aproximado, me cumprimentado, perguntou por mim e pelos meus pais. Só faltava alguém na fila dizer em voz alta: “Não vai dar um abraço no teu amigo e perguntar sobre ele, sujeitinho arrogante?”. Ele prosseguiu:

– Que saudades. Que surpresa te encontrar aqui. Mas me conta, o que tens feito? Trabalha com o quê? E teus pais, estão bem de saúde? – Até dos meus pais ele sabia. Pensei que o problema estivesse em mim, Talvez eu o havia julgado mal desde o primeiro olhar. Ele me conhecia, afinal de contas fazia várias perguntas relevantes.

Ele me olhou ainda mais firme nos olhos e falou:

– Rapaz, quantas coisas passamos juntos, quantas dificuldades enfrentamos; vontade de desistir de tudo, mas ficamos firmes. E você, hein. Parecia uma cara fraco e sensível, mas manteve a garra – Nesse momento todas as quase 20 pessoas nos olhavam, ouviam e esperavam o que eu diria em resposta ao seu comentário. Eu tinha certeza que nunca havia visto aquele rapaz em toda minha vida, então resolvi arriscar algumas possibilidades em forma de perguntas; para cada uma delas ele balançava a cabeça negativamente:

– Claro, nos conhecemos no CEPU? Na escola técnica? Dança de salão? Vendemos jornal juntos? – Nada. Ele riu com tranquilidade e disse:

– Você não está lembrado? Servimos ao exército juntos. Estivemos juntos durante um ano. Não lembra? Que isso, rapaz?

Naquele momento comecei a entrar em desespero. Pensei: “demência aos 25 anos?”. Preferi pensar que o louco era ele, afinal de contas havia em minha mente uma prova muito importante para o engano do simpático rapaz; eu não havia servido ao exército. E se ele diz que servimos juntos e eu sei que me alistei, mas não servi, ele estava enganado. Mas a coisa piorou. Se eu achava que já tinha a prova de que não nos conhecíamos por eu não ter servido ao exército ele disse algo que provaria minha insanidade. Colocou a mão no bolso da calça, puxou uma carteira marrom e disse com convicção:

– Tenho uma foto nossa juntos a outros colegas do exército. Todos fardados e cansados depois de voltar de uma difícil tarefa – Aquilo foi como uma facada no peito. Ele tinha a prova irrefutável. Pensei em primeiro ligar para um psiquiatra ou para um neurologista, quem sabe para os dois e só então dar a notícia a minha família; insano aos 25 anos. Havia sonhos, alvos profissionais, a dança de salão que era incrível, e de repente, eu teria que ir a uma clínica para quem tem problemas mentais.

Ele aproximou a fotografia dos nossos olhos com entusiasmo; eu sentia uma lágrima quase escorrendo do meu olho esquerdo; eis a prova da minha loucura. Meus olhos junto aos dele percorreram a fotografia onde havia 7 soldados devidamente fardados. Ele era o segundo da esquerda para à direita. Sentia um aperto no peito enquanto me procurava fardado no retrato. Então o rapaz levou a mão esquerda até a sua testa e disse:

– Ah, você não estava de serviço nesse dia. Tua mãe havia passado mal àquela noite e você foi dispensado – Pronto. Quando não me vi na foto voltei a pensar na loucura do simpático rapaz. Mas quando ele citou até o motivo da minha ausência na fotografia, gelei.Gelei da cabeça aos pés. Cheguei a cogitar que talvez houvesse enlouquecido no tempo em que servi como militar; isso poderia explicar o possível bloqueio aos tempos em que servi à pátria.

O rapaz começou a falar sobre cada um dos colegas da fotografia; um havia morrido num acidente de carro, outro se tornou médico, ainda outro é oficial do exército. Por fim ele me disse mais uma coisa perturbadora:

– Ah, claro, tenho outra fotografia em que estávamos numa missão na mata. Nessa tu aparece. Foi bom ter te reencontrado, saber que estás tão bem, que teus pais estão saudáveis. Trabalho numa empresa de contabilidade na sequência dessa rua. Apareça para tomarmos um café e combinarmos um churrasco com a turma do exército. Vão gostar de te rever, tu sempre foi o mais divertido da turma.- Finalmente nos abraçamos e agradeci por ele ser tão atencioso e por ter vindo falar comigo. Ele perguntou se eu estava bem e confirmei que sim. Ele já seria o próximo a ser chamado pelo caixa do banco.

Pensei e pensei. Não me lembrava de ter servido ao exército e me lembrava os motivos pelos quais não o servi. Lembrei que no ano em questão eu estava na então Escola Técnica. Ao mesmo tempo o simpático rapaz tinha tanta certeza de termos servido juntos.. Decidi não contar nada em casa, nem para os meus pais e nem para minha noiva. Era tudo muito confuso, mas quando o rapaz saiu do banco e se despediu, acenei com a mão direita e pensei; um de nós está louco, mas com certeza não era eu. A menos que um dia ele me encontre de novo com a outra fotografia.

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