Naquele tempo

Uma parada na praça Fernando Amaro, em Paranaguá, vale  tanto quanto a leitura de um livro de história antiga. Se o visitante tem a sorte de encontrar uma turma de cabelos brancos e boa memoria vai ouvir boas histórias e termos que não se usa há tempos. Em poucos minutos de conversa você toma conhecimento das travessuras de Perigo Fino que estava sempre alertando; “comigo não tem chambeta”. Não sabia exatamente o que isso significava mas, com ele não tinha mesmo. Perigo Fino, tinha “pavio curto” e respondia desaforo com porrada. Difícil entender como um sujeito alto magro, muito magro, conseguia bater dois ou três adversários e ganhar por nocaute. Perigo Fino, era  bom jogador de futebol e amigo de todas as horas. No Elite, time que treinava num campo aberto  nas margens do rio Itiberê,  jogava na posição de “meia-esquerda”. Eu era “ponta-direita”, aquele que corria junto a lateral com objetivo de “centrar a bola na grande área”. Quem conseguia colocar a bola no meio da grande área era considerado bom para a posição.  Fui sofrível. Naquele tempo, o goleiro era chamado de “golquíper” ,o zagueiro de “beque central” e os laterais, “alfe” esquerdo e “alfe” direito. O escanteio era “corner”.

Nas transmissões de rádio, os locutores eram craques na narração do jogo e na leitura rápida dos textos comerciais. “A turma toda bate o pé e reclama, todos querem cerveja Brahma”. “Melhoral, é melhor e não faz mal”. “Brim Coringa não encolhe”.

Os comerciais no rádio, durante a programação de estúdio, eram quase todos musicados, produzidos por bons compositores especialistas em gingles e boas frases. Muitas delas marcaram alguns produtos por muito tempo. “Pílulas de Vida do Dr. Ross, fazem bem ao fígado de todos nós”. “Rim doente? Tome Urodonal e viva contente”. “Antisardina, o segredo da beleza feminina”. “Regulador Gesteira, para excesso ou escassez”.

Era o tempo do Gumex que deixava o cabelo duro, armado e a prova de ventania. Outros preferiam Glostora que dava um brilho de chão de garagem, só que perfumado.

Conversar com pessoas mais velhas, tem seus encantos. Aprende-se um pouco de história,  de costumes e um vocabulário herdado dos portugueses com tempero francês. Titia abominava a língua francesa, por causa do termo “rendez-vous”, (encontro) que para ela era o mesmo que local onde se reuniam  prostitutas a espera de clientes. Nas noites calmas e quentes da cidade, ligava sua eletrola RCA Victor, para ouvir discos de Sílvio Caldas, Orlando Silva, Francisco Alves, Ângela Maria, Emilinha Borba . Como a maioria das mulheres, usava “anágua” ou “combinação” por baixo do vestido e não saía de casa sem passar “Pó de Arroz Lady” no rosto.

Costumava se queixar de ter o “braço Gessy”. Fiquei sabendo que era braço amortecido. A noite colocava roupa na relva para “corar”, ou seja branquear e deixava ali para receber raios de sol pela manhã. Usava-se “Anil”, um tablete azul que deixava a roupa mais branca. O Rádio era o grande veículo de massa, com seus programas de auditório lotados, musicais com os melhores cantores nacionais, novelas de autores famosos que faziam chorar, enquanto os  humoristas se encarregavam da alegria e boas gargalhadas. Nas ruas poucos carros, menos poluição. Ladrão era um  verdadeiro artista, que conseguia entrar numa casa a noite sem acordar a família para um furto com bons resultados e saia sem deixar vestígios. Na política eram raros os casos de denúncia de corrupção, os homens se respeitavam mais, e ficavam honrados quando assumiam um cargo público para servir ao povo. Homens públicos cumpriam sua missão com  dignidade, honestidade e respeito aos direitos do cidadão.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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