Navegar é preciso, viver…

A frase é amplamente conhecida: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

O poeta português, Fernando Pessoa (1888-1935), nos traz essa reflexão cheia de interpretações que vai desde as navegações dos portugueses e suas conquistas até as indagações sobre a condição humana.

É digno de nota que segundo historiadores a frase tenha sido primeiro dita pelo general romano Pompeu, em 70 – AC. Roma, a grande potência da época, vivia momentos difíceis devido a revolta de escravos e dependia das navegações, cheias de riscos, seja pelas condições do mar ou ataques de piratas. No entanto, o comércio, produtos como o trigo; a vida em si, dependia das navegações; pode-se dizer: na coragem e bravura dos navegadores – “Navegar é preciso, viver não é preciso”, teria dito o general.

Quando levamos a literatura com sua subjetividade, em especial algumas das gerações românticas do Brasil, podemos “navegar, viajar, dar asas à imaginação”. Podemos tomar emprestada a frase do general romano, Pompeu ou do grande poeta português, Fernando Pessoa, que não estão nas gerações românticas do Brasil, mas ainda assim, como frases de uma profundidade da qual dá gosto discutir, trocar ideias, avaliar os nossos e outros pensamentos.

Se olharmos para nós mesmos e ao nosso redor, provavelmente vamos notar poucas pessoas que estão dispostas a deixar o aconchego seguro do “viver” para a busca do incerto e apaixonante “navegar”. Podemos pensar: “Até que ponto isso será essencialmente saudável ou um risco desnecessário?” O “navegar” não significa simplesmente nos jogar em grandes sonhos e fazer loucuras, como abandonar a família ou sermos egoístas, antes, sair da – zona de conforto. Qual é a minha e qual é a sua zona de conforto? Existir só por existir, viver só por viver; já que respiro vou assim mesmo? Até que ponto estou disposto a aceitar desafios por coisas que realmente valem a pena, mas não bastaria “viver”, teríamos que “navegar”?

Viver só por viver é uma escolha que deve ser respeitada. Um dia ouvi um senhor de apenas 60 anos dizer que como havia se aposentado iria para sua casa de praia esperar a morte chegar. Até hoje isso me dá calafrios. Um amigo chamado André, historiador, apreciador de bons livros, boas músicas, família, amigos e da vida, me disse certa vez: “Gostaria de estar completamente lúcido na hora da minha morte, nem esse momento quero deixar passar sem sentir o que o envolve”. Podemos deixar por um instante o verbo precisar e refletir no adjetivo – preciso e no substantivo – precisão. A precisão é vital à navegação, enquanto a vida, o viver, é incerto. O poeta Mário Quintana (1906-1994), disse uma incrível frase que o jornalista e radialista Mário Motta por vezes repete: “Viva cada dia como se fosse o último, um dia você acerta”.

Então, concluo que como a nossa vida é tão curta, pelo menos por enquanto, parece-me que é como se tivesse 10 milhões de reais para gastar num só dia. É muito pouco, não o dinheiro, mas nosso tempo, nossa vida, nosso “navegar”. Como a dádiva que recebemos é grande, a vida, nosso intelecto, nossas possibilidades, creio que – viver sim, mas “navegando”, se descobrindo e redescobrindo.
Que tal essa frase, esse pensamento: “Ele fez tudo belo a seu tempo. Pôs até mesmo eternidade no coração deles (da humanidade)…” Eclesiastes 3:11. Bíblia.

Viver com respeito e responsabilidade é essencial. Viver só por viver pode ser cruel. Agora, “navegar” pela vida é duplicar essa dádiva maravilhosa e curta. Como bem disse o poeta Quintana: “Viva cada dia como se fosse o último, um dia você acerta”. Viver cada dia como se fosse o último… Então para viver: “navegar é preciso”.

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