Neide Mariarrosa: a voz de Santa Catarina

Nascida em Florianópolis no dia 11 de abril de 1936, Neide Mariarrosa é considerada uma das principais cantoras da história de Santa Catarina.

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Neide começou a carreira artística ainda menina, aos 14 anos, incentivada por amigos e pela família, participou de um concurso de calouros da Rádio Guarujá e ganhou. No ano seguinte, foi eleita a cantora do ano na rádio e a partir daí, passou a fazer shows pelo Estado e a participar dos programas da emissora.

Conhecida pelo timbre de voz – além de cantora, Neide era locutora e radioatriz – e pela capacidade de fazer até quatro personagens diferentes em uma mesma radionovela, a menina catarinense teve seu talento reconhecido por Elizete Cardoso, cantora de renome e sucesso nacional. A amizade entre as duas começou quando a Divina, como Elizete era conhecida, apresentou-se em Florianópolis, em 1962. A essa altura, Neide já era a principal estrela do casting da Rádio Diário da Manhã, onde participava de programas como o famoso Bar da Noite, e foi escolhida para recepcionar a cantora carioca.

LP Neide Mariarrosa

LP Neide Mariarrosa

Ao ouvir a voz a Neide, Elizete logo notou que ali havia um grande talento e a convidou para tentar a carreira no Rio de Janeiro. Em 1963, a bordo do carro do amigo e poeta Zininho, a catarinense viajou à capital carioca para gravar seu primeiro compacto, com a música Insônia (Zininho) de um lado , e O Amor Partiu em Paz (Tito Madi) do outro.

Mas foi apenas em 1965 que Neide decidiu se mudar de vez para o Rio. Lá, ela morou na casa da madrinha Elizete e conviveu com grandes nomes da música brasileira, como Baden Powell, Elis Regina e Jacob do Bandolim. Além de fazer shows em casas noturnas da cidade, foi uma das atrações do espetáculo Sua Excelência, o Samba, que ficou cerca de um ano em cartaz, no prestigiado Golden Room, do hotel Copacabana Palace.

A convite de Zininho, Neide voltou a Florianópolis, ainda em 1965, para interpretar o Rancho de Amor à Ilha, que o poeta havia escrito em um concurso promovido pela prefeitura para escolher uma música que representasse a cidade. A composição de Zininho venceu a disputa e , três anos depois, foi oficializada como hino de Florianópolis. neide 04

De volta ao Rio, Neide participou, em 1967, do II Festival Internacional da Canção, quando classificou composições de Edu Lobo e Paulo Gustavo da Silva Constanza entre as 20 finalistas. Na ocasião, ficou com o segundo lugar na premiação de melhor intérprete do Festival, perdendo apenas para Milton Nascimento. Além dos festivais, a catarinense cantou em vários programas de televisão da época, como os dos apresentadores Flávio Cavalcanti e Sérgio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte-Preta. Foi,  inclusive, durante sua primeira vez no programa de Stanislaw que Neide, por sugestão de Elizete Cardoso, passou a assinar artisticamente como o sobrenome Mariarrosa – juntando o “Maria” e o “Rosa” do seu nome.

Em 1970, sentindo falta de sua gente e sua terra, Neide voltou definitivamente à Ilha. Em Florianópolis, abriu o restaurante Savaeiros, na Lagoa da Conceição, e, mais tarde, o Lá na Neide, no Centro, onde cantava e recebia os amigos. Além disso, passou a se apresentar acompanhada de banda Quebra com jeito e do grupo de regional Vibrações.

Apesar do período em que passou no Rio de Janeiro, não existe um LP somente com Neide cantando. Seu primeiro trabalho de fôlego veio apenas em 1988, quando gravou, com a produção do jornalista e amigo Norberto Depizzolatti, o disco Eu sou assim, no qual interpreta músicas de compositores da Ilha.

Mas a volta de Neide não foi marcada apenas por alegrias. Pouco tempo depois do lançamento do LP, ela começou a sentir os primeiros sintomas da doença que a acompanharia pelos próximos anos de vida. O câncer de mama e nos ossos debilitou a saúde da cantora, mas não abateu sua vontade e o amor que sentia pela música. Em 1992, voltou ao palco no show Bar da Noite, escrito e produzido pelo jornalista e amigo Mauro Amorim e organizado por amigos a fim de arrecadar fundos para o tratamento da doença.

Neide 02Ao subir no palco do Clube Doze de Agosto e começar as primeiras notas de Cordas de Aço, a Neide debilitada sumiu e deu lugar à Neide forte dos áureos tempos. Cerca de um ano depois, novamente Mauro Amorim escreveu aquele que seria o último show da cantora. Em Cristal, realizado no CIC, Neide passa o tempo sentada em sua cadeira de rodas e alterna momentos em que relembra acontecimentos marcantes de sua vida, e outros em que mostra que a doença em nada afetou  sua voz, limpa e clara como uma pedra preciosa. Acompanhada pelo grupo Nosso Choro, antigo Vibrações, a cantora emocionou o público, que lotava o teatro, com sua força de vontade.

Apesar de todo o esforço, menos de um ano depois, em 4 de setembro de 1994, Neide não resistiu à doença e morreu aos 58 anos. A menina, que adorava o mar, deixou saudades. Assistir ao show Cristal é se emocionar mais uma vez com uma história de talento e persistência. Sua paixão não era apenas pela música, mas também pela terra em que nasceu.

Neide era como a Ilha, dizia, pacata, chatinha e de lua. E assim, às vezes de vento Sul, outras vezes muito branda e calma, vivia e cantava.

 

Texto original do documentário Cristal- Neide Mariarrosa.

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