No berço da intolerância

O berço traz a ideia de algo esperado, alguém desejado, de todo um futuro a ser percorrido com a garantia humana de liberdade.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) disse que “o homem nasce livre e por toda parte é acorrentado”. “Correntes” intelectuais, sociais e pedagógicas servem inevitavelmente a governos que desejam perpetuar seu poder e suas incalculáveis vantagens.

Mas no século XXI e na reta final da segunda década ainda há modelos que horrorizam pela intolerância, qualidade tão desprezível que aceita fazer uso de quaisquer critérios para manter seu poder absoluto.

Há exatos 100 anos à Rússia passou por uma revolução; a implantação do primeiro – regime socialista – da história. Como em todas as revoluções, inclusive as ocorridas no Brasil, espera-se por mudanças para melhor, o que na prática não ocorre para a população; tanto que muitos estudiosos as chamam de “contra-revolução”.

O “berço” da Rússia, com promessas de melhoras não trouxe ideias e ideais de liberdade, ao contrário, de repressões.

Faz muitos anos que a organização religiosa das Testemunhas de Jeová na Rússia enfrenta dificuldades para efetuar suas atividades; outras religiões também têm passado por isso.

Depois de várias ações contra as Testemunhas de Jeová, no último mês de abril, o Supremo Tribunal Federal da Rússia decidiu proibir por completo as atividades da religião conhecida em todo o mundo por sua; evangelização realizada de casa em casa, atividades com carrinhos de publicações bíblicas e suas reuniões conhecidas como pacíficas.

Acusadas de extremistas, sem nenhuma prova clara, tiveram seus mais de 395 locais de encontros religiosos confiscados e seu site oficial e reconhecido em todo o mundo, bloqueado.

Digno de nota: Desde maio de 2008 a Rússia aprovou um programa chamado – Glória dos pais. A ideia é premiar os pais de famílias russas que tenham pelo menos 7 filhos e sejam considerados exemplares na maneira de criar seus filhos, principalmente no campo da educação, saúde, boa moral e que sirvam de modelo para a sociedade russa.

Encontrei informações e detalhes no site oficial das Testemunhas de Jeová: https://www.jw.org/pt/

A família que recebeu esse prêmio, pelas mãos do próprio presidente russo, Vladimir Putin, no último dia 31 de maio, foi justamente uma família de Testemunhas de Jeová que tem 8 filhos.

Inúmeras pessoas reconhecidas e respeitadas na Rússia falaram em favor das Testemunhas de Jeová; até mesmo alguns que admitem não simpatizar com suas crenças comentaram que dizer que são – extremistas, proibir suas atividades e confiscar seus prédios – é algo horrível.

O “amigo dicionário” define berço também como lugar de nascimento. O ser humano nasce livre ou não? Parece que o pensamento de Jean-Jacques Rousseau nos mostra algo ainda mais profundo: “O homem nasce livre e por toda parte é acorrentado”.

Acorrentado é símbolo de prisão, de restrição, de não dar o direito de ir e vir e expor ideias e pensamentos, o que pode nos levar ao crescimento intelectual, absolutamente necessário para todas as pessoas e em todas as épocas e culturas.

Será que a humanidade começa a “engatar a marcha ré” em termos de verdadeira liberdade?

O Supremo Tribunal Federal da Rússia aceitou ouvir apelação da decisão anterior no dia 17 de julho de 2017.

Que os berços continuem sendo o lugar de algo esperado, de alguém desejado e com um belo caminho a ser percorrido com liberdade. Com liberdade!

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Por Deivison Hoinascki Pereira

Jornalista, barbeiro, acadêmico em Letras Língua Portuguesa pela Faculdade Estácio de Sá, escritor, produtor e apresentador do programa de rádio - Na cadeira do barbeiro. Mantem o blog: http://deivisonnacadeiradobarbeiro.blogspot.com.br/ E colunas nos Jornais Biguaçu Em Foco. Cronista do Portal Caros Ouvintes.
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