No hotel errado

A festa de entrega do troféu Manezinho da Ilha, que ocorre nesta quarta-feira [11/04/2000], às 21 horas, no Lira Tênis Clube, está envolta de muitas histórias, algumas das quais eu já contei aqui, como a que tem o falecido comediante Pituca como personagem, e que hoje detalho aos leitores.
Por Aldírio Simões

*Mozart Régis, humorista ilhéu que nos anos 50 abraçou uma mala, embarcou no navio Hoepcke e desembarcou no Rio de Janeiro em busca do reconhecimento artístico, fez sucesso na época das chanchadas da Atlântida, do teatro rebolado, sendo finalmente contratado pela Rede Globo e foi, durante muitos anos, produtor do programa protagonizado por Jô Soares.

Assim como o jornalista Ilmar Carvalho, há mais de 30 anos no Rio, Pituca estava sempre a procura de um bom motivo para aterrissar em Florianópolis, rever os amigos, tomando chope no balcão do Box 32.
Liguei comunicando que ele seria homenageado com o Troféu Manezinho da Ilha e não teve mais sossego. Telefonava diariamente convocando os amigos para prestigiar o evento e desembarcou no aeroporto com pompa de artista, fazendo questão para que eu fosse recepcioná-lo, o que fiz, pois nutríamos uma grande amizade e ele, inclusive, usou o meu nome para um dos personagens do ator Paulo Silvino.
Pituca chegou o aeroporto com a proposta de aportar de imediato no balcão no bar Petit, que na época vivia a sua fase áurea da boemia, na certeza de encontrar amigos como Raul Caldas Filho, Túlio Carpes, Tuca etc. Antes, porém, o conduzi ao hotel para que deixasse a mala na portaria. Com o terno impecável, porém dispensando a gravata e fazendo pose com o costumeiro cigarro entre os dedos, o humorista era alvo da amizade da turma, aproveitando para desfilar um repertório de piadas recém-lançadas no Rio. Fragilizado pela idade avançada, embriagar-se com relativa facilidade, por isso tive a preocupação de convidá-lo a se hospedar mais cedo no hotel, mas convenceu-me de que precisava comer alguma coisa, um lanche rápido com gosto de frutos do mar.


Rede Globo, 1960. Foto: Reprodução do Banco de imagens da Casa da Memória.

Conduzi o humorista global até o bar do Garcia, no Saco dos Limões, que preparava um omelete de camarão dos deuses. Pituca foi logo reconhecido pelo proprietário e este se derramou em gentilezas, apresentando-o para os demais clientes. Passou a ser paparicado por todos, enquanto Garcia determinava à mulher para caprichar no petisco, com direto a salsa e cebolinha frescas. Pituca, em estado de graça, escreveu o seu nome na parede de botequim, sempre festejado pelo Garcia ostentando uma ponta de orgulho.
Bebemoramos a sua estada em Florianópolis e, ao observar que estava com a palavra literalmente molhada, o convenci que era preciso ir para o hotel descansar. E assim foi feito. Retornamos do Saco dos Limões conversando amenidades, ele querendo saber das novidades em Florianópolis e, na Avenida Rio Branco, o deixei na portaria do hotel, nos despedimos e segui em frente. O humorista, ao chegar na portaria, cumprimentou a recepcionista e pediu-lhe a chave do apartamento 802. Ela respondeu que havia engano, pois o hotel possui somente seis andares. Pituca insistiu e, diante da relutância da funcionária, mostrou-se indócil: “Sou um homem velho, a senhora não brinque comigo”. Diante do impasse ela chamou o gerente e este, experiente, indagou: “por gentileza, em que hotel o senhor está hospedado?” O humorista não gostou: “O senhor está insinuando o quê? Está me achando com cara de babaca?” Ele insistiu: “Por favor, em que hotel o senhor está mesmo?”
– No Castelmar, engraçadinho!
– “Pois então, este aqui é o Marambaia. O senhor está com endereço errado”. Pituca, envergonhado, não se conteve: “O senhor conhece um tal de Aldírio Simões… aquele f.da p.”

*ANcapital, terça-feira, 10/4/2000


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