Silveira Júnior

No tempo da Rádio Nacional

Semana da Radiodifusão | 88 anos de rádio no Brasil

Silveira Júnior *

Silveira JúniorUma pessoa com menos de quarenta anos dificilmente saberá como era a vida familiar da década cinquenta. Não é fácil dizer a um jovem que já houve um tempo em que não havia essa máquina opressiva e opressora chamada televisão. Mas houve. Até 1950, data da primeira estação de televisão, a antiga Tupi de S. Paulo, as famílias ouviam rádio. Mais especificamente: a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Excepcionalmente, também a Rádio Tupi de São Paulo ou Mayrink Veiga (do Rio de Janeiro).

Os rádios não eram esses aparelhinhos maneiros que a gente pode trazer junto à orelha ou no bolso. Oh! Não. Rádio era uma coisa solene, enorme, peando mais de uma arroba. Geralmente o rádio propriamente dito era protegido por uma caixa de madeira, com floreados e não raro com a parte superior arredondada, lembrando um confessionário. Por sua vez, a antena era um fio compridíssimo na ponta de bambus. Desse fio horizontal, descia outro, mais fino, que entrava apelo telhado e era ligado ao chassi do aparelho. E havia o fio terra. Rádio que se prezava não dizia uma palavra se não tivesse um fio terra, cuja ponta inferior devia ser enterrada num lugar úmido.

Toda casa tinha uma antena de rádio, assim como hoje tem uma de televisão. E era uma honra para as famílias uma enorme antena por sobre o telhado, ao longo da casa. Mas esse rádio também não era jogado assim em qualquer lugar. Era posto sobre mesinha com toalha de renda. E quanto mais próspera era a família, maior era o rádio. Havia os Telefunken, os Pilot, que tinham uma luzinha verde que se acendia quando a estação estava bem sintonizada. E havia as ondas curtas e longas.
Toda a família bem estruturada, depois da janta se sentava ao redor do enorme rádio para ouvir a programação, as novelas, o noticiário, os programas humorísticos, alguns com tinturas culturais.
 
Havia o Repórter Esso, o primeiro a dar as últimas; as moças choravam junto com Mamãe Dolores no “Direito de Nascer”. Na Mayrink Veiga (ou seria na Tupi?) havia o programa humorístico do Tancredo e Trancado; os que gostavam de histórias de terror se deliciavam com as narrativas de Almirante no seu “Incrível, fantástico, extraordinário”.

Os que gostavam de se ilustrar ouviam Romário, o homem dicionário, pela Rádio Nacional. Um homem que sabia o dicionário de cor. Qualquer pessoa do auditório perguntava: “Seu Romário, o que significa hilota?

Seu Romário se concentrava e respondia:
– Era o nome que em Esparta se dava ao homem que cultivava o campo.

Uma salva de palmas para o professor. Outro la do fim da fila tirava um papelzinho do bolso e investia:
– Então me diga o que quer dizer ramadão?

E seu Romário, professoral: “Ramadão é o nono mês do ano muçulmano”.
Nova salva de palmas.

E assim o programa nunca pagava o prêmio a quem levasse uma palavra que Romário não conhecesse.

E havia também os famosos programas de calouros de Ary Barroso. Lá se revelaram os grandes cantores, muitos deles ainda hoje por aí enfrentando auditórios e câmaras de televisivas.

Teve também grande prestígio um programa chamado “O céu é o limite”, onde as pessoas se inscreviam para responder sobre determinado assunto. Sobre Lincoln, por exemplo. Então as per4guntas iam ficando cada dia mais difíceis até descerem a detalhes insignificantes:

– Como era o nome da sogra de Lincoln, com quantos anos morreu e de quê?
O candidato se concentrava. Como agente só o ouvia, o locutor descrevia a cena: ”Ele agora está transpirando muito, numa grande concentração…”

– Vamos, diga perímetro o nome da sogra… Tem 30 segundos para a resposta…

O camarada se contorcia na sua cadeira e soltava:
– A sogra de Lincoln se chama Mary Anne Sulivan, morreu em 12 de agosto de 1870, aos 68 anos, de espinhela caída.

O locutor berrava ao microfone:
– Absolutamente certo! Palmas para o candidato!

Aliás, nunca ficou suficientemente provado que esses programas não fossem montados, de modo que o candidato conhecesse de antemão as perguntas. Mas deixa isso pra lá.

Futebol a agente só ouvia. E como não havia testemunhas, uma transmissão, por exemplo, de Buenos Aires, dava-nos a impressão de que o Flamengo estava sendo massacrado pelo exército argentino, em forma de um juiz faccioso e inimigo do nosso amado Brasil. E Ary Barroso dava décor dessa guerra, transmitindo, muitas vezes, escondido em mansardas, porque estava proibido de entrar no estádio. Cada jogo era uma guerra em miniatura. Porque só valia a palavra do locutor. Não havia nenhuma comprovação nem simultânea nem a posteriori.

Mas naquele tempo o rádio era privilégio de uma elite. Gente pobre não tinha rádio e se quisesse ouvir novela, um programa humorístico ou um futebol, ia para o botequim que, geralmente, tinha um aparelho para uso público posto em lugar bem alto para que apenas o dono pudesse mexer naqueles misteriosos botões.

E havia duplas caipiras: Tonico e Tinoco, Jararaca e Ratinho, Nhô Pai e Nhô Filho, brinquinho e Brioso.

De Urucânia, interior de Minas Gerais, a Rádio Nacional transmitia as bênçãos de padre Antônio. O Brasil ia para frente dos rádios para ouvir a voz do santo sacerdote. E milhares de pessoas se curaram tomando água benta a distância pelas palavras cabalísticas do padre.

Aos sábados à noite, a Rádio Nacional era a Meca das celebridades. Ivan Curi cantava e contava anedotas; Dalva de Oliveira levava ao ar os seus trinados da Ave Maria no Morro; Emilinha Borba movimentava o seu imenso fã clube, que se rivalizava em número e assanhamento ao de Marlene. Caubi Peixoto adentrava o hall do edifício da Rádio Nacional com um paletó apenas alinhavado para que as suas admiradoras arrancassem as suas mangas e disputassem o troféu aos tapas e arranhões.

A Rádio Nacional foi a TV Globo daquele tempo. O Brasil se quedava para ouvir a grande estação, que lançava moda e modismo. As piadas que a Rádio Nacional lançasse hoje estariam na boca do povo amanhã.

E havia a Revista do Rádio que contava todas as fofocas dos bastidores. O ditador Getúlio Vargas falava em cadeia nacional em dias certos: 1º de maio e véspera de Natal. E anunciava as benesses de um país rico, bem alimentado, vencendo a duras penas e sozinho uma guerra cruel contra o Eixo Roma-Berlim. E o povo tinha ganas de comer alemão ao molho pardo.

Quando o Repórter Esso divulgava o se prefixo fora do horário habitual já se sabia que era uma desgraça qualquer. Então Heron Domingues, com o vozeirão que Deus lhe deu, começava: “Aqui fala o Repórter Esso, testemunha ocular da história, o primeiro a dar as últimas, anunciando em edição extraordinária”. O Brasil tremia nas bases, aguardando da tragédia.

Como somente muitos anos depois d vulgarização do rádio é que começaram a aparecer as emissoras do interior do Brasil, os programas radiofônicos eram um privilégio das grandes cidades, praticamente Rio e São Paulo. Por isso, os rádios tinham que ter ondas curtas, para captarem o som com menos estática.
Mesmo assim se a trovoada prenunciava no céu enfarruscado, o rádio devolvia cada relâmpago distante em mil estalidos, de mistura com pedaços de palavras. Rádio era divertimento para dia de tempo bom. Podia chover, mas não podia trovejar. Nem aqui nem no Rio.

Hoje o rádio perdeu Sua Majestade. Humilharam-no fazendo-o do tamanho de uma carocha para ser dependurado na orelha do ouvinte. Mas eu tenho saudade do tempo em que, solteiro ainda, comprei um enorme Philips Matador, com três faixas de onda, sete válvulas e levei-o para a casa da minha noiva, onde levantei duas enormes varas de bambu por onde corriam as antenas que entravam em contato como mundo mágico da radioeletricidade e enchiam a nossa casa de música e encantamento. (A Ponte – 2ª semana de dezembro de 1986).

*Silveira Júnior. Imponderáveis do destino. Pesquisa e organização: Prof. Dr. Lauro Junkes. Copiart Editora. Coleção Academia Catarinense de Letras nº 42. 2010.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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