No topo

Brasil lidera o ranking que mede a felicidade. Impossível não ser atraído por um título tão auspicioso, embora o texto, lá pelas tantas, descambe para uma avalanche de números e percentuais que desanima até o mais obstinado leitor. Mas os olhos não desgrudam da manchete, que está ali, alvissareira, cristalina e desafiadora. O que emerge então é a velha dúvida, típica de quem desconfia das estatísticas – que, dizem, se assemelham aos biquínis, porque escondem o essencial. Se somos líderes no quesito felicidade, com tanta falta de saúde e educação, corruptos a mancheias, muitos impostos e juros na estratosfera, o que dizer de lugares onde a fome é maior, assim como a miséria e a desesperança?

Informa a matéria que Panamá, Costa Rica, Colômbia, Qatar, Suíça e Dinamarca estão logo atrás do Brasil na corrida da felicidade. Isso prova que riqueza nem sempre rima com satisfação, porque, tirando os dois últimos, essas nações estão longe de ostentar padrão de vida avançado, dentro dos critérios habituais, que levam em conta o conforto, a qualidade do atendimento à saúde e a renda per capita.

Anos atrás, levantamento semelhante colocava um remoto país africano no topo do ranking, mesmo enfrentando uma pobreza de Jó. Condicionados como somos, custa a entrar na cabeça que uma nação tribal, com IDH lá embaixo, ostente tal posição. Talvez isso comprove que o dinheiro não traz felicidade, embora digam que compra muita coisa que associamos a ela – de maneira estabanada, pelo visto.

Quem discute o assunto sugere, por exemplo, perguntar o que é mais prazeroso: comprar um carro novo ou fazer trabalhos voluntários? Cobrir-se de cremes rejuvenescedores ou doar material escolar para um aluno carente? Trabalhar para ganhar mais ou dedicar algum tempo, todos os dias, para a meditação?

Lendo sobre o tema, descobri que os moradores de cidades ou estados americanos mais ricos são também os mais propensos ao suicídio.

Outra vez, as estatísticas… Alguém tentou explicar o fenômeno, afirmando que em lugares assim as pessoas tendem a fazer comparações, frustrando-se quando percebem serem mais feias, ou mais pobres, ou mais gordas, ou menos sábias que as outras.

O que importa, depois da notícia reveladora que abriu esta crônica, é comemorar o título conquistado. Já não temos o melhor futebol do mundo, somos figurantes na Fórmula 1 e estamos longe de ganhar um Oscar ou um prêmio Nobel. Mas, como bons carnavalescos e oktoberfesteiros, somos felizes. Viva as estatísticas!

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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