Normas de redação (II)

Esta expressão nos persegue: lead. No rádio a palavra representa a primeira frase do texto. Aquela que resume o assunto sobre o qual você quer falar. A dica é imaginar que alguém perguntou o que vai acontecer e você tem que responder diretamente.
Por Ricardo Medeiros

– A Madonna vem fazer show por aqui?
– A cantora Madonna vai se apresentar em Florianópolis ainda este ano.
Este é o famoso lead, que parece uma manchete. Se o ouvinte captar a abertura, pelo menos terá o que contar para os amigos e vizinhança.
– Ouvi no rádio, a Madonna agora é nossa também. Vem para fazer a festa em Floripa. Não é o máximo pessoal?
Quanto às palavras complicadas, usar pra quê. Em nome da erudição? Um erro. Uma bobagem. Queremos que o nosso texto atinja todo mundo, todas as classes sociais. Queremos que o meritíssimo juiz Vieira Souza, bem como o mecânico Zé Bigode compreendam a mesma mensagem sem dificuldades. O que você acha da palavra “desincompatibilização”.
– Que diabo é isso?
Tirar a incompatibilidade. Tornar compatível. Tornar harmonioso, conciliável, de acordo. Poder unir, misturar.
– Fechado. Vamos esquecer a “desincompatibilização” no texto de rádio.
Vamos usar palavras que não façam o ouvinte raciocinar muito para entendê-las. Além disso, especificamente a respeito de “desincompatibilização”, você pode derrapar em alguma sílaba desta expressão.
Ao escrever para o rádio também, tente num primeiro momento evitar a repetição de palavras.  Se não conseguir, escreva de novo a mesma expressão anterior. A repetição de palavras é normal no nosso cotidiano. Qual é o equivalente a “Corpo de Bombeiros”?
-“Valorosos homens do fogo”. Ou quem sabe: “os homens de vermelho”.  Brincadeirinha.
Espero que seja brincadeira mesmo. Porque sinônimos como esses virão a piorar o texto de você.
– Então o que eu faço?
Se necessário, use novamente a expressão “corpo de bombeiros”. Ou “os bombeiros”.
– Em relação a uma palavra estrangeira ou siglas, eu posso utilizá-las no texto de rádio?
Só se a palavra ou sigla for extremamente conhecida. O mesmo raciocínio serve para a tentativa de uso de gíria.
– Um exemplo, por favor.
ONU. Todo mundo tem a mínima noção que é um organismo internacional. Então, não precisa explicar o que é esta sigla. Mas o que é PMF. Pode ser a abreviatura de tudo. Porta Mal Fechada. Ou, Prefeitura Municipal de Florianópolis. Causou dúvida, tem que explicar a sigla.
Mais uma coisa. Evite se possível os termos “ele” ou “ela”. Só devem ser utilizados quando não causarem dúvidas sobre de quem se está falando. Preste atenção no texto a seguir. “Fernanda Wrobel completa 55 anos de carreira artística. Para comemorar a data, a atriz fez ontem no Rio de Janeiro uma festa para mil convidados. Ela estava muito animada, apesar da ausência do marido dela, Carlos Wrobel, em viagem pela Europa”.
– Sim, e daí?
Quem estava muito animada. A festa ou Fernanda Wrobel?
-Percebi. A coisa está confusa.
Então que tal: “Fernanda Wrobel completa 55 anos de carreira artística. Para comemorar a data, a atriz fez ontem no Rio de Janeiro uma festa para mil convidados. Fernanda Wrobel estava muito animada, apesar da ausência do marido dela, Carlos Wrobel, em viagem pela Europa”.
 – Este Carlos Wrobel. Logo agora o cara resolve viajar, hein?


{moscomment}

Categorias:

Por Ricardo Medeiros

Doutor em Rádio pelo Departamento de História da Université du Maine (Le Mans, França). Radialista, jornalista, escritor e professor de rádio do curso de Jornalismo da Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina e assessor de imprensa da Prefeitura de Florianópolis. É um dos fundadores do Instituto Caros Ouvintes.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *