NÓS E A VIOLÊNCIA

Até que ponto os meios de comunicação contribuem para o aumento da criminalidade? A pergunta pode parecer impertinente e descabida, mas precisa ser respondida a luz das ações de grande parte de emissoras de rádio, televisão e jornais que utilizam a violência como chamariz para aumentar seus níveis de audiência e venda.
Por Jamur Júnior

Na classificação desses órgãos de comunicação, a televisão ganha disparado, como o mais importante no combate ou aumento da criminalidade. É o veiculo que mais influência exerce no grande público, revelando ídolos e produzindo modelos de comportamento que muitas vezes servem como exemplo para a camada da população menos esclarecida. Despertam desejos de poder e admiração, duas das metas mais perseguidas pelo ser humano em qualquer lugar. Cria heróis que deslumbram e são imitados na vida real. Porém, em alguns momentos levam ao ar em suas novelas e outros tipos de programas, cenas lamentáveis que deixam perplexos os estudiosos do comportamento humano e os defensores da ética nas relações entre pessoas.
Recentemente foi mostrada uma cena em novela da Globo, em que a filha impede que sua amiga e cúmplice entregue ao pai um medicamento vital num momento de crise, possivelmente, cardiovascular. O pai morreu e a filha continuou na novela como se nada tivesse acontecido. Um péssimo exemplo em que a omissão de socorro a um ser humano, e no caso o próprio pai, surge na telinha como coisa natural.
A morte do menino João Helio, no Rio de Janeiro, motivou uma série de reportagens sobre o tratamento que é dispensado aos menores infratores. Mostraram o quadro lamentável de descaso das autoridades com relação a essas pobres crianças, que são fruto de um meio onde prevalece à lei do mais forte num mundo de miséria e ignorância. Esses meninos infratores, em sua maioria, nascem e crescem num ambiente de violência onde à vida pouco vale e seus valores de referência, na maioria das vezes, são criminosos conhecidos e famosos por seus apelidos e métodos de ação, que ganham destaque nos noticiários de rádio e televisão.
Houve, há muitos anos, em Curitiba, o caso de um bandido que se tornou famoso, graças à imprensa e ganhou o apelido de Chacal. Quando preso, declarou aos jornalistas que gostava muito de ver seu nome e fotografia nos jornais, no dia seguinte a um de seus assaltos. Tratar criminosos pelo apelido – Fernandinho Beira Mar, Toni Carabina etc – contribui para tornar esses bandidos figuras importantes em seu meio e verdadeiros ídolos entre crianças carentes que vivem no entorno dos núcleos de maior criminalidade.
Os meios de comunicação precisam repensar a postura diante da violência assim como os governantes precisam atuar junto à população mais esquecida, com ações efetivas, deixando de lado o populismo que leva cestas básicas e alguns trocados no final do mês.
O Brasil precisa de ações governamentais mais profundas para mudar o quadro de pobreza total dessas famílias, onde nasce à violência embalada pela miséria. E mais que isso, o país precisa que os meios de comunicação, empresários, e entidades de classe se unam numa cruzada para tirar o país desse quadro de horror que assusta os brasileiros e o resto do mundo.


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Por Jamur Júnior

Radialista e jornalista e foi apresentador noticiarista de rádio e televisão em emissoras de Curitiba e Florianópolis. É autor dos livros Pequena História de Grandes Talentos contando os primeiros passos da TV no Paraná e Sintonia Fina – histórias do Rádio. Jamur foi um dos precursores do telejornalismo em Curitiba.
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