Nós somos os trabalhadores do rádio, levamos a vida a falar e cantar…

“Radialista é a soma de rádio com idealista, pois trabalhávamos muito e não ganhávamos nada”, dizia o paulista Nicolau Tuma * justificando sua criação do termo que passou a denominar todos os que trabalham na radiodifusão.

A palavra foi criada em 1934, quando foi lançada a Associação Brasileira de Rádio (nada a ver com Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, fundada mais tarde em 1962). A frase de Tuma, o “speaker metralha”, era uma constante nas entrevistas concedidas por ele sobre o rádio de antigamente.

Trabalhar muito e ganhar pouco é coisa que ocorre até hoje no rádio brasileiro. Os salários dos radialistas ainda não estão à altura do esforço e da dedicação despendidos pela classe, aumentada agora por parte dos profissionais que trabalham em empresas de TV.

Chova ou faça sol, domingo ou feriado, de dia ou de noite. Para quem trabalha no rádio não há tempo feio nem descanso obrigatório nos dias em que quase todo mundo pára. Ser radialista exige muito desprendimento, além, é claro, de talento, vocação e, sobretudo, muito idealismo.

A junção de rádio com idealista – radialista – muito mais do que imaginou seu autor, revela também a grande interatividade do veículo com aquele que é a causa principal de seu funcionamento.

De 250 watts a 200 kilowatts (200 mil watts), maior potência de emissora comercial no país, não há transmissor que funcione na sua plenitude automaticamente sem energia elétrica e sem energia humana. E mesmo assim ainda ficaria silente se não houvesse a ação de um ou mais radialistas.

Como também não há nenhum outro meio de transmissão a longa distância que irradie uma produção falada ou musical. O rádio está para o radialista – e vice-versa – como o rio está para o mar. Deveriam ser reverenciados num só dia. Mas a convenção dos legisladores indica 25 de setembro como o Dia do Rádio e 7 de novembro como o Dia do Radialista.

O pioneiro Roquete Pinto é o patrono do rádio, enquanto Ary Barroso é o protetor do radialista. A escolha do autor de Aquarela do Brasil deve ter sido influenciada mais pela sua fama de músico e compositor, em que pese ter alcançado popularidade como locutor esportivo de rádio. Fama de alcance restrito ao Rio de Janeiro e mais por ter abraçado a bandeira rubro-negra do Flamengo em suas hilárias transmissões.

Mas cá estamos pedindo passagem para homenagear os radialistas e verdadeiros empresários da radiodifusão brasileira de todos os tempos.  Aqueles que, no passado, construíram a grandeza do veículo que se tornou um instrumento imbatível de comunicação; e os que fazem rádio na atualidade com planejamento, seriedade e determinação: informando, levando cultura, educação e entretenimento aos ouvintes.

Mas não devemos nunca esquecer o ensinamento de Roquete Pinto, precursor da radiodifusão no país e fundador da primeira emissora, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, o qual exaltava sempre as muitas qualidades do rádio “desde que o realizem com espírito altruísta e elevado”.
E é isso que o Brasil espera dos empregados e empresários do rádio de agora.

Parodiando as cantoras do rádio do compositor Braguinha: Nós somos os trabalhadores do rádio / Levamos a vida a falar e cantar / De noite embalamos teu sono / De manhã nós vamos te acordar.

Apresentamos aqui uma mensagem deixada por Hélio Ribeiro – 1935-2000 –, pensador e dono de uma das vozes mais bonitas do Brasil. Define bem a grandeza do rádio e a responsabilidade do radialista… **

EU SOU O RÁDIO

Meu nome é rádio, minha mãe é dona Ciência, meu pai é Marconi. Sou descendente longínquo do telégrafo, sou o pai da televisão. Fisicamente sou um ser eletrônico. Meu cérebro foi concebido e formado por válvulas. Minhas artérias são fios por onde corre o sangue da palavra. Meus pulmões são tão fortes que consigo falar com pessoas dos mais distantes pontos deste pequeno planeta chamado Terra. Minha vitamina tem o nome de kilowatt. Quanto mais kilowatts me dão, mais forte eu fico e mais longe eu chego. ***

Hoje, graças às baterias que me alimentam, eu posso simultaneamente levar informações aos contrafortes das cordilheiras, às barrancas dos rios, ao interior de veículos que trafegam no centro nervoso das grandes cidades, à beira plácida dos lagos, à cabeceira dos doentes nos hospitais, aos operários nas fábricas, aos executivos nos escritórios, aos idosos que vivem só e às crianças que só vivem.

Eu falo aos religiosos, aos ateus, às freiras, às prostitutas, aos atletas, aos torcedores, aos presos, aos carcereiros, banqueiros e devedores. Falo à estudantes e professores… Seja você quem for eu chego lá, onde quer que você esteja!Ao meu espírito resolveram chamar “ondas”.

Eu caminho invisível pelo espaço para oferecer ao povo a palavra… A palavra nossa de cada dia. Mas estou sempre sujeito a cair em tentação e às vezes não consigo me livrar de todo o mal.Quando eu nasci, meu pai me disse que eu tinha uma missão: ajudar a fazer o mundo melhor, entrelaçando os povos de todas as partes deste planeta.

Meu nome é rádio. Eu não envelheço, me atualizo.Materialmente eu sou aperfeiçoado a cada dia que passa.As grandes válvulas do meu cérebro foram substituídas por minúsculos componentes eletrônicos.Os satélites de comunicação, gigantescos engenhos girando na órbita deste planeta, permitem hoje que eu seja mais universal, mais dinâmico e menos complicado, como o meu pai Marconi queria que eu fosse.

Minha forma técnica tem sido aperfeiçoada há milhares de anos luz, mas eu acho que no todo, o meu conteúdo ainda necessita ser burilado, melhorado, trabalhado e aperfeiçoado. Tenho noção, mas eu já perdi a conta, do número de pessoas que eu ajudei indicando o caminho, devolvendo a esperança, anulando a tristeza, conseguindo remédios, sangue, achando os documentos perdidos, divulgando nascimentos e passamentos.

Mas eu não sou tão sério assim como posso estar parecendo. Na verdade, um dos meus principais interesses é fazer com que as pessoas vivam mais alegres. Por isso, passo grande parte do meu tempo ensinando as pessoas a cantar e dançar…

Minha grande vontade é a de ser amigo, sempre. O amigo que todos gostariam de ter: útil nas horas sérias, alegre nas brincadeiras e responsável… Sempre!

No esporte to sempre em cima do lance; nos dois lados da rede das bolinhas de tênis ou de voleibol, e lá vem bola, na área do futebol, jogou na cesta to lá, nadou, pulou, saltou, pegou, virou, driblou… Gool!!! Pode ser no pequeno clube da periferia ou nos grandes estádios olímpicos.

Tenho noção da minha força política. Com uma notícia que dou, eu posso ajudar a eleger o diretor de um clube ou derrubar um presidente. Entendo minha grande responsabilidade de agente acelerador das modificações sociais. E morro de medo que me transformem em um mentiroso alienador. Sem querer ser vaidoso, eu posso até afirmar que se eu não tivesse nascido, o mundo não seria o mesmo.

Meu nome é rádio. Eu não, não quero ser mal entendido. Eu sou apenas um instrumento. Para fazer tudo isso que eu disse que faço, eu preciso de uma equipe, de seres humanos, humanos! Que não tenham medo do trabalho, que entendam de alegria, emoções, fraternidade, que saibam sentir o pulso do campo e o coração da grande cidade. E que tenham noção básica de que tudo aquilo que fazemos é para conquistar ouvidos e melhorar pessoas. O que jamais conseguiremos, se nos esquecermos que a minha existência se deve ao número dos que me ouvem. O rádio vale pelo volume e a qualidade dos seus ouvintes.

Eu poderia fazer muito mais, mas às vezes falta dinheiro pra fazer tudo aquilo que eu quero. Eu sei que posso realizar o sonho do meu pai, Marconi, e mudar o mundo para melhor. Outro dia fiquei muito triste quando ouvi um tal de Hélio Ribeiro dizer que eu, o rádio, sou “a maior oportunidade perdida de melhorar o mundo”. Eu sou apenas um instrumento. Eu preciso de gente que me entenda, me respeite e que me ajude a cumprir a minha missão. Ah, com alegria, muita alegria… Se possível. Hélio Ribeiro

* Nicolau Tuma – 1911-2006 – Nascido em Jundiaí-SP, Advogado, Vereador na cidade de São Paulo e Deputado Federal pelo Estado de São Paulo. Como radialista, trabalhou em várias emissoras de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em 1931, transmitiu pela primeira vez no rádio (Sociedade Educadora Paulista) uma partida de futebol entre as seleções de São Paulo e do Paraná, na capital paulista, com vitória dos paulistas por 6 a 4.

** Caros Ouvintes agradece o trabalho técnico dos Favottos, pai Onofre e filho Marcelo, gente competente e amiga que também é apaixonada por rádio.

*** Trecho do discurso da vitória de Barack Obama (5/11) em que o novo presidente dos EUA ressalta a importância do rádio no mundo:

“E a todos aqueles que nos vêem esta noite além de nossas fronteiras, em Parlamentos e palácios, e àqueles que se reúnem ao redor dos rádios nos cantos esquecidos do mundo, nossas histórias são diferentes, mas nosso destino é comum e começa um novo amanhecer de liderança americana.”

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