Nossas plagas geladas

*Dedicada ao meu amigo Antunes Severo

A neve sempre emociona, seja os que nasceram e vivem nas latitudes onde ela é frequente, seja os que, como nós, tropicais, a vemos de longe, com as lentes das fotos e dos filmes ou, hoje em dia, cada vez com mais facilidade, indo ao encontro dela, para tocar ou imitar os nativos da plagas geladas, nos espojando nela, moldando os famosos bonecos ou participando das “guerras” travadas com punhados desse elemento gelado.

Enquanto o sol é alegria, leveza, brilho, a neve me parece sempre séria – não triste -, com uma gravidade digna e um peso específico de coisa importante, pensada, consequente. Em suma, acho a neve bela, de uma beleza clássica e definitiva.

Mas quem sou eu, um carioca nascido e criado no Rio de Janeiro, sempre debaixo do sol, sob a abóboda do céu azul, e perto do mar, para falar de neve!

Pois só ouso falar por causa de nossas plagas geladas. Emociono-me ao ver a neve caindo em regiões do sul deste nosso imenso Brasil. Vendo a neve de longe, sinto-a tão nossa quanto a terra seca dos desertos nordestinos, a negra terra das plantações, o chão sempre ensombrado de nossas florestas ou a fofura dos grãos dourados de nossas praias.
Ainda agora, esse meu amor um tanto esdrúxulo à neve foi despertado ao ver umas fotos, feitas nestes dias frios, mesmo aqui no Rio dias de um maio já com cara e jeito de junho. São fotografias feitas em Santa Catarina, que divide com o Rio Grande do Sul e o Paraná, a condição de nossos estados mais frios.

Ao falar da “neve”, confundo aí, em minha ignorância tropicalista, nevasca com geada, granizo, neblina… Perdoem-me os especialistas, mas dou-me o direito carinhoso de chamar de neve quase tudo que me leve a pensar num lugar onde a gente possa estar enregelada, superagasalhada e vendo a beleza branca por todo lado.

Ah, como são lindas essas paisagens branquinhas, onde se veem, pesadas de gelo, sejam as copas de grandes pinheiros, sejam as humildes folhas de capim.

Nessas paisagens, cada flor ganha brincos de cristal – as gotas de água que, atendendo ao apelo da mãe natureza, interromperam sua queda e ficaram ali, imóveis, na borda das folhas ou na beirinha de pétalas. Então, as flores e folhas parecem belas mulheres que acentuam ainda mais sua beleza com diamantes nos lóbulos das orelhas ou com o pescoço e o colo enfeitados por colares feitos com cristais translúcidos.

As serras de nossas plagas geladas, envoltas em névoa, encantam os olhos não somente por causa do frio intenso. Uma coisa é ver a neve citadina das grandes cidades do mundo; outra é contemplá-la transformando estradinhas de terra que, vistas de longe, são apenas sulcos demarcados na imensidão branca. As pequenas e grandes colinas, as serras, os vales parecem agasalhados sob um imenso manto branco, em meio ao qual, aqui e ali, surge um lugarejo cercado de brancura, ou aparecem uma casinha, um curral, um silo e outros indicativos da presença e da faina humana, que permanece viva mesmo envolvida pelo frio intenso.

Há um silêncio predominante em paisagens assim. Quando algum som é ouvido – um gorjeio, um trinado, uma fala humana, um motor de trator ou de serra – esses ruídos cotidianos ouvidos no campo – se apresentam mais encorpados e mais nítidos, como que amortecidos de encontro à neve antes de chegarem aos nossos ouvidos. Vozes humanas, o latido dos cães, o mugir do gado, o relinchar dos cavalos, todas essas expressões sonoras de vida e comunicação, soam mais graves ou mais sussurrantes.

Um belo contraste sempre é mostrado nas fotografias e cartões postais: quando, a despeito do frio intenso, o céu permanece azul, a fumaça, que sai de um casebre onde uma lareira crepita e aquece, ou um velho fogão de lenha ainda cumpre sua resistente missão, sobe branco-acinzentada, fazendo um contraponto com a descida silenciosa dos flocos de neve, branco-brilhantes. Eis a placidez e a calma chegando aos corações mais sensíveis em momentos de contemplação de uma paisagem assim.

Tenho amigos, sobretudo alguns em Santa Catarina, que, a despeito de uma já longa experiência de vida, andam reinventando a meninice de uma forma maravilhosa: deslizam na neve sobre folhas de palmeiras. Imagino o quanto de lembranças esses “meninos” levam consigo na mochila da memória em cada um desses passeios e brincadeiras…
Daqui de meu ensolarado Rio saúdo esses meus amigos – com uma “inveja branca” como a própria neve – esperando a oportunidade de aventurar-me na traquinagem.

Saúdo também a neve, e todas as formas pelas quais a mãe natureza nos apresenta o frio, que acabam induzindo ao aconchego e, para mim, à reflexão.

Benditas as plagas geladas do Brasil.

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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