Nossos professores amedrontados

Como vai a educação brasileira? Acho que não precisamos ajuda de especialista para constatar o panorama denunciando que o Brasil está com seu futuro comprometido a persistir o desastroso quadro atual. Quem duvida que analise o que fizeram Cingapura, Japão, Coréia do Sul e todos os demais países que saíram da miséria confiando de modo expressivo no taco de seus professores. Aqui entre nós o que fizemos, dentro dessa praga que virou o tal de “politicamente correto”, foi de chamá-los de “trabalhadores em educação”. Tem algo mais esquizofrênico do que isso?

Quando falamos “antigamente era assim”, é sinal que envelhecemos? E daí? Qual o malefício de ter saudade mesmo que esta denote certa urgência de futuro? A realidade é que num passado não muito distante a escola era envolvida pela mesma aura que encobria os templos religiosos. Sem exagero. Nada mais especial do que uma sala de aula. E a professora estava num pedestal, sempre, ela era a nossa santa. Sem exagero.

Arrisco a ir mais longe ao afirmar que o louvor, a exaltação, o respeito, o temor reverencial que tínhamos pelos professores eram mais profundamente genuínos do que aqueles que nutríamos pelo padre. Com relação ao professor não havia aquela espécie de segunda intenção que existia relativamente ao sacerdote que, se fosse com a cara da gente, aplainaria o caminho para o paraíso nos livrando do inferno.

Quando se compara com o esbanjamento de hoje, onde tudo parece descartável, se pode dizer que aquele foi um tempo mais difícil, de escassez de muita coisa, de quase tudo, menos de respeito aos professores. Transplantar comparações de épocas diferentes pode se constituir em bobagem, aquele foi um tempo determinado e ponto; cheio de mazelas e virtudes típicas, além de novas perspectivas (o que não é coisa pouca, pois o que nos mantém em pé é essa possibilidade – real ou fictícia – do amanhã ser melhor).

Os tempos são assim, plenos de coisinhas comezinhas como alegrias e tristezas típicas. Assim, aquela foi também uma época com sua tecnologia típica. No meu caso, por exemplo, a lousa (ou seja, a ardósia enquadrada na madeira que carregava sacola de saco de farinha) se constituiu no meu tablet – agora até digo com certo orgulho boçal.

Mas, repito com todas as letras, tempo com total respeito aos professores. E eles, bem o mal, pegaram o que outros consideravam o lixo do mundo (imigrantes alemães, italianos, africanos e outros) e conformaram uma nação. E vínhamos bem até que, em algum momento, esse processo esboroou sem que a gente notasse.

Por isso precisamos perguntar com urgência: onde erramos para chegar ao atual patamar de horrores, onde encontramos o professor amedrontado em sua sala de aula, sentindo-se encurralado por pais irresponsáveis e imaturos que exigem da escola o que não souberam transmitir aos filhos? Já notaram que em todo acontecimento envolvendo pirralhos descompensados, filhotes mal educados, adolescentes problemáticos, alunos mal comportados o culpado é o professor?

A esse caos vigente que perturbou a relação professor/aluno se soma, também os prédios precários, a falta de material, a falta de funcionários, os baixos salários e a falta de segurança no entorno das escolas.

Estamos diante de algo que não diz respeito apenas aos governantes (a grande maioria despreparada para enfrentar a questão e que não delega para quem sabe) é algo que deveria angustiar toda a sociedade, pois a persistir esse quadro, estamos condenando a maioria dos nossos netos ao terceiro mundismo…

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *